TODOS OS NOMES, José Saramago

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José é um auxiliar de escrita de meia idade que tem dedicado metade de sua vida aos serviços burocráticos da Conservatória Geral do Registo Civil. Não, não se trata de uma falha de digitação. “Registo”, na grafia de Portugal, equivale a “registro”. As páginas da obra estão recheadas de termos como direcção, recta, tecto, lavandaria, rasto e autocarro. O colofão no verso da folha de rosto explica: “Por desejo do autor foi mantida a ortografia vigente em Portugal.”Convenhamos: o escritor tem que ser MUITO respeitado para prescrever tal exigência. Tratando-se de José Saramago, não poderíamos esperar menos.

Falando em José, voltemos ao personagem. José, um pobre burocrata sem família ou amigos, zelosamente dedicado ao trabalho, desenvolve um estranho hobby para ocupar seu tedioso tempo livre: coleciona recortes sobre pessoas famosas. A certo ponto, já enfastiado com o eterno roteiro de mesmices das celebridades, um incidente o leva a investigar a vida de uma mulher desconhecida.

TODOS OS NOMES (Companhia das Letras, 1997, 280 páginas) é um livro que prende (e não raras vezes perturba) o leitor por seu profundo teor psicológico e cunho filosófico sobre o vazio do cotidiano. O personagem principal é literalmente um “Zé ninguém” e só um gênio da literatura como Saramago seria capaz de discorrer quase trezentas páginas sobre um tema aparentemente tão estéril. O autor revelou que teve inspiração para a obra ao procurar por informações a respeito de um irmão que faleceu aos quatro anos de idade. Ironicamente contradizendo o título da obra, “José” é o único nome citado no livro todo. Saramago comentou o motivo em uma entrevista:

“É como se, neste momento, os temas que eu trato[…] fossem de caráter tão amplo e geral que os nomes deixam de ter sentido. Chamar o personagem Antonio, ou Manuel, o que significa?”

A epígrafe do romance resume com maestria a crise existencial abordada ao longo do enredo: “Conheces o nome que te deram, não conheces o nome que tens. – Livro das Evidências”. Tal livro não existe, foi também invenção do autor, que afirma ser uma profunda convicção sua:

Não sabemos que nome temos. Sei que me chamo José Saramago, mas o que isso significa? Quem sou eu de fato?”

Saramago possui um estilo de escrita extravagante, fugindo várias vezes às regras do convencional. O romance, escrito em terceira pessoa, simplesmente inicia um determinado capítulo em primeira. Chega a usar mais de meia página para descrever um ambiente, citando absolutamente tudo o que se encontra nele. As falas nos diálogos são separadas apenas por vírgulas, você deduz a troca de locutor pelo uso de letra maiúscula depois delas. O mais intrigante, contudo, é um livro com tantas perguntas não apresentar um único ponto de interrogação. No entanto, considero os diálogos o ponto alto da obra. Há muita tensão psicológica em suas conversas com o chefe, com desconhecidos, mas principalmente com o teto. Isso mesmo! O teto (ou tecto) é um grande filósofo de alguns capítulos. Há também alguns diálogos imaginários, nos quais José supõe o que aconteceria se tomasse determinadas atitudes. Existe até mesmo um diálogo entre a angústia e a razão.

Ler TODOS OS NOMES me deixou bastante impressionado. As páginas entre o início burocrático e seu desfecho surpreendente descem, degrau por degrau, escada abaixo até os porões da alma humana. A vertigem psicológica, irremediavelmente provocada, altera qualquer serenidade de espírito e leva a reconsiderar diversos pontos de nossa rotina. Certamente levarei ainda um bom tempo para digerir toda a história e, quiçá, conhecer qual nome realmente tenho.

Trechos de Todos os nomes:

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“Imagine agora quem puder o estado de nervos, a excitação com que o Sr. José abriu pela primeira vez a porta proibida, o calafrio que o fez deter-se à entrada, como se tivesse posto o pé no limiar duma câmara onde se encontrasse sepultado um deus cujo poder, ao contrário do que é tradicional, não lhe adviesse da ressurreição, mas de tê-la recusado. Só os deuses mortos são deuses sempre.”

“Sabe quantas são as pessoas que existem num casamento, Duas, o homem e a mulher, Não senhor, no casamento existem três pessoas, a mulher, o homem, e há o que chamo a terceira pessoa, a mais importante, a pessoa que é constituída pelo homem e pela mulher juntos, […], Se um dos dois comete adultério, por exemplo, o mais ofendido, o que recebe o golpe mais fundo, por muito incrível que isto lhe pareça, não é o outro, mas esse outro outro que é o casal, não é o um, mas o dois.”

“Não tenhas medo, a escuridão em que estás metido aqui não é maior do que a que existe dentro do teu corpo, são duas escuridões separadas por uma pele, […] tens de aprender a viver com a escuridão de fora como aprendeste a viver com a escuridão de dentro.”

“As velhas fotografias enganam muito, dão-nos a ilusão de que estamos vivos nelas, e não é certo, a pessoa para quem estamos a olhar já não existe, e ela, se pudesse ver-nos, não se reconheceria em nós”

“há venenos tão lentos que só vem a produzir efeito quando já não nos lembrávamos da sua origem. […] Cuidado, a morte é muitas vezes um veneno lento, depois perguntou-se, Quando e porquê teria começado ela a morrer.”

“pensou que se tivesse comprado o mapa da cidade não precisaria de estar agora a pedir a um agente policial que o orientasse, mas a verdade é que a situação, a lei aconselhando o crime, lhe deu um certo prazer subversivo.”

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Loney, de Andrew Michael Hurley: sobre fé e medo

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Loney é um suspense gótico passado na costa da Inglaterra. O tema central da obra é a fé e tem base nas experiências reais do autor, Andrew Michael Hurley, com a sua criação cristã. A edição da Intrínseca está apaixonante, com capa dura maravilhosa e jacket. O livro é envolvente, sinistro e nos deixa o tempo todo à espera de algo ruim.

O narrador já é adulto no presente e escreve o livro para recordar de acontecimentos macabros que aconteceram em Loney na sua adolescência. O nome do livro é um apelido dado pelo narrador e o seu irmão Andrew, a quem ele chama de Hanny, à praia onde ele e a família costumavam peregrinar em Coldbarrow durante a Páscoa com alguns membros da igreja que frequentavam – o pai e a mãe do narrador (os Smith), o sr. e a sra. Belderboss e o padre Wilfred. Eles ficavam hospedados em um casarão antigo chamado Moorings, propriedade de um taxidermista falecido, mantida por um caseiro bem estranho. O lugar era perigoso graças à maré que costumava afogar os desavisados, e também sombrio, cheio de segredos bem guardados. Após a última viagem ao local, o padre voltou de um passeio pela praia estranho e paranoico e nunca mais foi o mesmo. Desde então, o grupo deixou de viajar para Loney. Até a morte de Wilfred.

Bernard, o substituto, era o total oposto do antigo padre. Bem mais jovem e descontraído, não seguia todas as regras à risca, era bem humorado e tinha um cachorro. O falecido padre era do tipo que ensinava temer a Deus; Bernard ensina a encontrar a sua própria forma de conversar com Ele sem precisar do intermédio de um padre e do peso da culpa. Eu adorei Bernard na história, porque o padre é a figura menos hipócrita do livro, o único que parece entender que a fé precisa aparecer nas ações e não apenas no medo e nas rezas. Wilfred e ele são o contraste entre ultrapassado e vanguardista.

Bernard e o mesmo grupo resolvem voltar à Loney para a peregrinação de Páscoa acompanhados pela srta. Bunce e o seu noivo, membros mais recentes da igreja. A viagem é muito importante para a Mamãe, como o narrador a chama, porque ela acredita que a visita ao santuário de Coldbarrow irá curar Hanny.

O irmão do narrador tem o que aparenta ser alguma deficiência mental. Ele é mudo e se comunica com o irmão através de objetos com significados – a máscara de macaco, por exemplo, significa que ele está com medo. Em nenhum momento, diz-se o nome ou nada de concreto em relação à doença de Hanny, dando a entender um descaso com a medicina e a ciência. Será que os pais deles nunca recorreram aos médicos, esperando sempre por uma intervenção divina? Ou será que a doença de Hanny tornou a Mamãe obcecada pela ideia de um milagre exatamente por ter sido decepcionada pela medicina?

Sobre a fé cega, milagres e hipocrisia

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O autor deixa clara a mensagem de que a fé pode ser perigosa quando ela cega as pessoas. Com a mãe de Hanny foi assim. Metódica ao extremo, apegada às ordens e rituais, parece acreditar que Deus não atenderá suas preces se tudo não seguir os seus conformes. E se as coisas derem errado, ela tem de culpar alguém. Este trecho é muito revelador e mostra bem o que o narrador acha da fé e do temperamento da mãe dele:

“Eu sabia que quando a Mamãe não tinha certeza plena sobre alguma coisa – como quando eu voltava para casa com um problema de álgebra e o Papai não estava por perto, ou quando ela precisava ir de carro a algum lugar aonde nunca tinha estado antes, a confiança que ela fingia ter se tingia de irritação por ela não saber a resposta correta ou o caminho certo. E se o padre Wilfred tivesse ido para o Purgatório?”

Engraçado que a parte mais sombria, para mim, foi a visita ao santuário, quando a Mamãe começa a agir agressiva e obcecadamente. A pessoa que acredita ter a fé mais forte do grupo é a personagem mais pobre de caráter do livro; ela julga os outros, inventa boatos e mentiras, e sente inveja e ciúmes. Ou seja, ela é humana, mas estas características pesam demais em alguém com a fé que ela gosta de ostentar. Chega a ser hipocrisia.

Ela e os demais criticam bastante os métodos de Bernard e o comparam o tempo todo com Wilfred, que era irmão do sr. Belderboss. Mas ele foi escolhido como substituto por alguma razão não dita. Tem muita coisa não dita no livro. Os homens estranhos da cidade, os barulhos escutados à noite, a morte de Wilfred, o comportamento amorfo e submisso do narrador… Isto tudo te deixa curioso. Loney é feito mais de expectativa e tensão do que de ação, e eu acho que foi bem aí que ele me decepcionou. Com a sinopse e as resenhas que eu havia lido, eu esperava sentir medo e isto não aconteceu. Mesmo assim, o livro é muito envolvente, você fica esperando pelo pior e quer saber o que o narrador está guardando tão bem.

O jogo entre fé e descrença é a melhor parte de Loney. O que faz a pessoa perder a fé em Deus? O que a faz acreditar? O mal consegue vencer o bem? O que pode acontecer se alguém muito religioso parar de acreditar em Deus? É a força da fé ou a força de vontade que faz os milagres acontecerem? O purgatório existe? A fé é válida quando as ações não estão de acordo?

O mais interessante do livro é que ele te deixa com mais perguntas do que respostas. Quanto mais eu penso nele, mais dúvidas me surgem, e a história permite diversas interpretações. No entanto, de uma coisa eu tenho certeza: não se pode confiar no narrador. Ele sabe muito mais do que nos diz e é dissimulado.

A vontade agora é de reler o livro, prestando atenção nas sutilezas da narração que passaram despercebidas na primeira leitura.

Trechos de Loney

A Intrínseca mandou esta cortesia para todos os parceiros com esta embalagem caprichada, cheia de folhas.

A Intrínseca mandou esta cortesia para todos os parceiros com esta embalagem caprichada, cheia de folhas.

“Afinal de contas, sinais e maravilhas estavam por toda parte. O Padre Wilfred nos dissera inúmeras vezes que era nossa obrigação, como cristãos, ver o que a nossa fé nos tinha ensinado a ver. E, consequentemente, a Mamãe costumava voltar das compras com todos os tipos de história sobre como Deus achava melhor e apropriado recompensar os bons e punir com justiça os maus.”

“O Inferno era um lugar regido pela lógica de crianças. Uma alegria sombria que durava por toda a eternidade.”

“– Eu não sei o que faria se perdesse meu diário, Smith. Está tudo lá, sabe? Tudo. É como eu mantenho o controle sobre os meus pensamentos. É como consigo entender de onde vem um pensamento. Posso rastreá-lo até encontrar sua origem. Consigo localizar com precisão em que ponto as coisas deram errado. É um mapa. Entende?”

“– É engraçado, não é? Como vocês da igreja têm mais fé em algo que não pode ser provado do que em alguma coisa que está bem na sua frente? Acho que tudo se resume a uma questão de ver o que a gente quer certo? Mas, às vezes, você não tem opção. A verdade aparece, querendo ou não.”

P.S.: Toda vez que tem qualquer cachorro ou gato na história de suspense ou terror, eu já fico esperando pelo pior. É bem tenso!

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Vocação para o mal, de Robert Galbraith (J.K. Rowling)

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Vocação para o mal é o terceiro livro do personagem Cormoran Strike escrito por J.K. Rowling com o seu pseudônimo Robert Galbraith. Neste romance policial, passaram-se poucos meses desde o caso solucionado em O bicho-de-seda, que alçou o detetive à fama definitiva, e Robin Ellacott finalmente começa a se envolver mais com os trabalhos da agência (quase) como uma parceira de Strike. Tudo vai bem – menos o relacionamento com o noivo Matthew, que vive morrendo de ciúmes do chefe dela –, até Robin receber um pacote no escritório com a perna decepada de uma mulher.

Apesar de endereçado à parceira, o detetive sabe que o “presentinho” de mau gosto foi para ele graças ao bilhete que o acompanhou, com um trecho de uma letra da banda Blue Öyster Cult – todos os capítulos do livro começam com uma letra deles -, a preferida de sua falecida mãe, uma famosa groupie de roqueiros. Strike tem quatro suspeitos: Digger Malley, que já cortou o pênis de um cara; Donald Laing, estuprador; Noel Brockbank, pedófilo; e Jeff Whittaker, seu ex-padrasto drogado e violento (e que provavelmente matou a mãe de Strike).

O detetive tem motivos de sobra para acreditar que qualquer um deles seria capaz de qualquer loucura psicótica, como enviar uma perna pelo correio, para se vingar dele por razões diferentes. A sua preocupação maior, no entanto, é que a caixa foi enviada a Robin, a maneira de o assassino deixar claro que sabe quem ela é e que está de olho nela.

A investigação é intercalada com capítulos sobro o assassino, seus planos e pensamentos macabros. Sabemos logo de cara que é um louco psicopata, misógino, e que o seu alvo principal é mesmo Robin.

Três coisas sobre Vocação para o mal:

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1. Foram necessários três livros para eu me apegar aos personagens. É claro que J.K. Rowling não poderia entregar todos os detalhes logo no primeiro livro da série, senão não teria muito que inventar depois. (Ela soube construir os seus personagens maravilhosamente em Harry Potter. A mulher sabe o que faz.) Mas foi só em Vocação para o mal que eu finalmente me senti apegada a Cormoran Strike e Robin Ellacott. É só neste terceiro volume que os dois convivem mais juntos e começam a revelar seus sentimentos não só para eles mesmos, como um para o outro e para os leitores também. Strike, por exemplo, está namorando, mas percebe que a mulher não é tão interessante quanto Robin; ela, por outro lado, nota que sente umas pontadas estranhas de ciúmes da namorada deslumbrante e rica de seu chefe.

O chamado do Cuco foi um livro insosso. Em O bicho-da-seda, fomos apresentados ao passado amoroso de Strike. Neste terceiro livro, sabemos mais sobre a vida pessoal de Robin e o caso triste que a fez abandonar a faculdade; e também sobre a mãe de Strike e a sua juventude em abrigos e casas abandonadas. Rowling está revelando aos poucos a história dos dois protagonistas e, assim, eu também fui me apegando aos poucos aos dois. Agora, gosto muito deles.

2. A autora fica mais sombria a cada livro. Já comentei isto na resenha de O bicho-da-seda. A cada volume desta série, Rowling aumenta o nível da maldade na trama. Os três suspeitos principais de Strike têm total vocação para o mal. São pessoas doentias, violentas, frias, perigosas, soltas por aí.

Além disso, Strike e Robin se provam cada vez mais capazes do serviço, principalmente ela, que tanto sonhava em se tornar detetive. No entanto, neste livro, ela deixa que seus problemas pessoais com Matthew se envolvam com a sua vida profissional e anuviem seus julgamentos. (Ah, e Matthew se prova cada vez mais um babaca!)

3. A série ainda não me arrebatou totalmente. J.K. Rowling tem o dom de escrever. A mulher é meu ídolo mor desde os 13 anos. Apesar de Vocação para o mal ter me prendido do começo ao fim, eu ainda não consegui me apaixonar pela série. O bicho-da-seda é o melhor até agora.

Este terceiro livro começou promissor, foi melhorando, mas da metade até o fim achei que deu uma enroladinha desnecessária. Não sei bem ao certo identificar o que acontece com a série, mas falta algo.

Trechos de Vocação para o mal

O momento em que você percebe que é mais velha do que a Robin.

O momento em que você percebe que é mais velha do que a Robin.

“- O que você está fazendo aqui? – perguntou Robin, surpresa ao descobrir que tinha a língua dormente e grossa depois de duas taças de vinho.

– Procurando por você.

– E como sabia que eu estava…?

– Sou detetive. Quantas dessas você tomou?”

“Por um minuto, olhou o parque fantasmagórico e ficou fascinado com o efeito do sol nascente nas folhas dos galhos, elevando-se do mar de vapor. É possível encontrar beleza em quase todos os lugares, se pararmos para procurá-la, mas a batalha para enfrentar os dias torna difícil lembrar que existia luxo pela qual não se precisava pagar.”

“- É, bom, ela acabou trocando endereços de e-mail com outros dois. Nada particularmente útil, mas estamos tentando determinar se eles realmente a conheceram… sabe como é, na vida real – disse Wardle. Que estranho, pensou Strike, como essa expressão – tão predominante  na infância para distinguir entre o mundo da fantasia de brincar e o mundo adulto e obtuso da realidade – agora passara a significar a vida de uma pessoa fora da internet.”

“Só que depois que se rompia uma vez, era muito mais fácil fazê-lo de novo. Ele sabia muito bem. Quantas vezes ele e Charlotte se separaram? Quantas vezes a relação deles ruíra em pedaços e quantas vezes tentaram remontar os destroços? No fim, havia mais rachaduras do que substância: eles viviam em uma teia de aranha de fios rompidos. O que os mantinha juntos era a esperança, a dor e a ilusão.”

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Dicionírico: prosa, poesia e riso (de A a Z), de César Magalhães Borges

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Recebi o lançamento Dicionírico da Editora Pasavento e imediatamente me apaixonei por ela. Uma edição belíssima de capa dura, colorida, em papel couchê fosco maravilhoso, com ilustrações… O título é autoexplicativo: um dicionário onírico, fantasioso, com prosas e poesias de A a Z, e muito, muito humor.

O escritor e professor César Magalhães Borges tem outros livros independentes e com selo editorial – Passagem, Contrastes, Canto Bélico, Ciclo da Lua, entre outros. Mas este foi o meu primeiro contato com o poeta. E eu adorei. Este é, sem dúvida, um dos meus livros preferidos concedidos pela Pasavento até agora.

Desordem na ordem

As prosas e poesias do livro vão seguindo o alfabeto. No entanto, apesar da ordem alfabética, Dicionírico não se apega a regras – os contos e poemas se misturam, e o prefácio, escrito por Wilton Carlos Rentero, só aparece na página 95, no meio do livro.

É uma leitura muito rápida e fluida! Eu logo passei Dicionírico à frente na minha pilha de próximas leituras e o terminei em um dia. O que eu mais gostei na obra foram as brincadeiras com as palavras, várias sacadas inteligentes e divertidas. Borges não precisa de mais de dez palavras para nos fazer rir e ficar pensando na sonoridade delas, nos seus significados. Sacadas como esta aqui:

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Borges tem poesias bastante visuais que remetem ao concretismo. Ele não se preocupa em começar na letra maiúscula e terminar no ponto final, no tradicional começo-meio-fim: elimina o verso aproveita o espaço, brinca com formas e desenhos, usa termos estrangeiros. O livro é criativo e instigante. As várias páginas em branco em Dicionírico, que servem para introduzir a próxima letra, parecem nos convidar a fazer nossas próprias brincadeiras com as palavras.

Além das poesias, o livro também tem contos e crônicas muito bem humoradas e satíricas, como o da bibliotecária que resolve mudar os títulos de clássicos para serem mais condizentes com o conteúdo das obras – o sucesso de Saramago, por exemplo, ganha o título politicamente correto Ensaio sobre a deficiência visual; o da missa de Abbey Road, um culto aos Beatles, no qual os hinos de louvor são trechos de canções da banda; e João e o Pé de Feijão vira Noronha e o Pé de Maconha.

O meu preferido do livro, no entanto, é um quebra-cabeça! Você consegue montá-lo?

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A página seguinte traz a resposta do quebra-cabeça, mas eu não vou contá-la aqui para não estragar a sua leitura de Dicionírico.

Dicionírico é um livro leve, engraçado, inteligente, estimulante à criatividade e também uma homenagem às palavras.

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O papel de parede amarelo, de Charlotte Perkins Gilman

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Comprei o meu exemplar de O papel de parede amarelo na Livrara da Travessa da Flip 2016 – foi a minha única aquisição literária da viagem. É uma edição muito bonita de 2016 da Editora José Olympio, com introdução da artista plástica/professora de filosofia/escritora Marcia Tiburi e tradução de Diogo Henriques. O livro traz também um posfácio escrito por Elaine R. Hedges em 1973.

Apesar da edição recente, O papel de parede amarelo foi escrito em 1892, quando a americana Charlotte Perkins Gilman tinha 32 anos, e possui aspectos autobiográficos. A autora sofreu de depressão e fadiga, se divorciou e confiou a filha ao marido e sua nova esposa (sua melhor amiga), e construiu uma carreira como professora e escritora. Suicidou-se aos 75, após descobrir ter câncer. A importância do seu conto para a literatura feminista americana foi revivida nos anos 70, com a fortificação do movimento feminista nos Estados Unidos.

Sobre depressão e opressão

O conto é narrado em primeira pessoa por uma mulher “doente dos nervos”. O marido, que é médico, a leva para passar uma temporada de três meses em uma mansão no campo como forma de tratamento. Os dois ficam hospedados em um grande quarto do primeiro andar que a mulher considera detestável: as janelas têm grades, a cama é presa ao chão e a parede tem um papel amarelo que ela considera horrendo. Ela vive isolada, sem poder praticar qualquer atividade intelectual, principalmente escrever, que é o seu passatempo favorito, para evitar o cansaço. O livro são seus relatos em seu diário quando consegue escrever um pouquinho às escondidas.

O sedentarismo forçado a leva a encontrar passatempo em outras coisas, como observar o papel de parede amarelo e o seu padrão maluco, e achar formas nele, como seus desenhos que parecem rostos enforcados com olhos bulbosos. A observação passa a obsessão e a mulher tenta “decifrar” o padrão. Ela acredita que à noite, iluminado apenas por uma vela ou pela lua, o padrão muda e revela um segundo plano, no qual ela consegue identificar as formas de uma mulher presa nas grades do padrão em primeiro plano. A mulher da parede balança o papel e tenta rastejar para fora.

Nunca vi tanta expressão em uma coisa inanimada, e todos sabemos quanta expressão essas coisas têm!”

A doença dos nervos é uma depressão (e em certo ponto, quando ela menciona o seu bebê, cogitei também depressão pós-parto). O marido a controla totalmente, subestima a sua condição – ri, a chama de “menina” e pede para que ela fique boa pelo amor que tem por ele – e menospreza seus pedidos. Além disso, John chama os “hábitos de inventar histórias” e o “poder da imaginação” da esposa de “uma debilidade dos nervos”, quando estas são claramente habilidades e talentos dela. A depressão dela vem também de uma vontade de escrever e exercer uma função que não a de esposa e dona de casa.

Se um médico de renome, que vem a ser o seu próprio marido, assegura aos amigos e parentes que não se passa nada de grave, que se trata apenas de uma depressão nervosa passageira – uma ligeira propensão à histeria –, o que se pode fazer?”

John a proíbe de fazer coisas que a agradariam, como mudar de quarto e visitar os primos, e a mantém sob forte medicação. Ele próprio passa os dias e várias noites na cidade, cuidando de seus pacientes, enquanto a esposa é vigiada pela governanta. É quase como se ele não quisesse que a mulher melhorasse e assim continuasse a exercer seu poder e total controle sobre ela. A palavra dele é a palavra final, a verdade (“Sei do que estou falando, querida, sou médico” ou “Não confia na minha palavra de médico?”). A mulher sente-se também culpada por duvidar do marido, que, diz ela, é tão amoroso e preocupado, e por não conseguir melhorar, mas o simples ato de conviver com ele enquanto finge melhora exige todos os seus esforços e a deixa exausta – piorando a sua situação.

As mulheres que ela passa a ver rastejando pelo papel de parede amarelo, que escapam a noite e rastejam por todos os lugares – ela mesma gosta de rastejar pelo quarto, mas toma as precauções de trancar a porta primeiro – podem representar todas as mulheres submissas, depressivas, lutando contra a vida a qual são impostas. E o padrão do papel de parede, uma metáfora para os padrões da sociedade. A própria Gilman certamente superou a depressão e os estereótipos e regras da sociedade da sua época. Ficou conhecida pela sua carreira e pelas suas obras, principalmente Women and Economics de 1898, trabalho importante para a discussão da política sexual.

Outra coisa que me marcou bastante no conto é como o tratamento para a depressão é tão precário e a doença tão menosprezada. A mulher é infantilizada, isolada, tratada com condescendência, e o que ela quer ou pensa não é considerado em nenhum momento. Garota, Interrompida e A redoma de vidro são outras obras autobiográficas que retratam a luta de mulheres em depressão, consideradas histéricas, que são internadas em clínicas psiquiátricas e recebem tratamentos duvidosos – e estes dois exemplos se passam nos anos 60, ou seja, quase cem anos após O papel de parede amarelo! Há um padrão. Todas as protagonistas fogem do “comum”, do que é esperado delas – casar, cuidar de casa, ter filhos, ser mãe, ser esposa… Quem não se contentava com este caminho e porventura acabava por sofrer de depressão era rapidamente tachada de louca, talvez para inibir tal comportamento nas demais.

A loucura, infelizmente, é o destino inevitável de algumas delas.

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Tradução de texto sensível

Em alguns casos, é aconselhável que a tradução de textos com temas sensíveis, como o feminismo, seja feita por um tradutor que tenha empatia pelo tema abordado e que não tenha interesses conflitantes. Por exemplo: um ateu traduzindo um artigo sobre religião e vice-versa. Eu me lembrei deste aspecto aprendido na pós ao perceber que esta edição de O papel de parede amarelo, um clássico da literatura feminista, foi publicada com a tradução de um homem.

Não tenho nenhum comentário em relação à tradução e não acredito que ela foi de qualquer forma prejudicada por ter sido feita por um homem, apenas achei a escolha curiosa. Acho que eu esperava encontrar o nome de uma mulher no livro, por se tratar de uma obra importante para o feminismo. E a mulher pode sentir na pele o que significa passar pelo o que a protagonista passou de uma forma que um homem nunca será capaz de sentir. Mas isso não cancela a empatia do tradutor pelo assunto.

O que vocês acham? Obras da literatura feminista deveriam ser traduzidas por mulheres?

Trechos de O papel de parede amarelo

“Às vezes tenho a impressão de que, se ao menos me sentisse bem o suficiente para escrever um pouco, isso aliviaria minha confusão de ideias e me traria algum descanso. Mas, sempre que tento, acabo ficando bastante cansada. É tão desanimador não ter ninguém para me dar conselhos ou acompanhar meu trabalho.”

“Lá vem a irmã de John. Ela é tão querida, tão atenciosa comigo. Não posso permitir que me veja escrevendo. Ela é uma dona de casa primorosa e entusiasmada e não aspira a uma ocupação melhor. Não tenho dúvidas de que ela pensa que foi a escrita que me deixou doente!”

“Por muito tempo fui incapaz de distinguir o que era aquela coisa em segundo plano, aquele subpadrão indistinto, mas agora estou bastante certa de que se trata de uma mulher. Durante o dia ela é discreta, calada. Imagino que seja o padrão que a mantenha tão quieta. É intrigante. Faz com que eu fique quieta durante horas.”

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