O navio das noivas, de Jojo Moyes

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Em 1946, o navio Victoria fez a sua última viagem. Com o fim da guerra, ele e o seu capitão Highfield poderão se aposentar depois de uma longa carreira militar. Mas antes, o último trajeto da Austrália à Grã-Bretanha será extraordinário: levará consigo, além da tripulação masculina de sempre, mais de 600 australianas. Após meses ou até anos separados, estas mulheres reencontrarão seus maridos militares britânicos – uniões frutos do serviço prestado no exterior durante a guerra – graças ao esforço de repatriamento de esposas feito pela Marinha Real.

o-navio-das-noivasApesar de O navio das noivas, da linda da Jojo Moyes (publicado pela Editora Intrínseca com tradução de Flávia Rössler), ser uma ficção, a viagem do Victoria realmente aconteceu e as centenas de esposas puderam reencontrar seus maridos na Inglaterra após a longa viagem de seis semanas no mar. Jojo começa o livro explicando que a história é baseada em fatos reais (quase como Titanic: o navio existia e a viagem aconteceu na vida real, mas o romance e os personagens são ficção) e que sua própria avó, Betty McKee, estava no navio (originalmente chamado de Victorious)!

As esposas viajaram no Victoria com mais de 1.100 mecânicos, fuzileiros e oficiais. E 19 aviões. Isto porque o navio era um porta-aviões que foi adaptado para acomodar as passageiras na travessia.

As mulheres do navio

Em alguns momentos, eu acreditava estar lendo um livro da maravilhosa Liane Moriarty por acompanharmos o ponto de vista de três mulheres australianas totalmente diferentes (a autora de O segredo do meu marido e Pequenas grandes mentiras é da Austrália e também criou três personagens femininas fortes nestes dois livros). Em O navio das noivas, viajamos com:

Margaret, uma mulher forte, extrovertida e do campo, a única mulher entre quatro irmãos; depois de perder a mãe, tornou-se responsável pelo bem-estar da família, apesar de não se sair muito bem com os trabalhos de casa; está grávida de seu marido irlandês Joe, um homem que aparenta ser pacato e tão simples quanto ela.

Avice, mimada e de uma família abastada; é decidida, teimosa e está acostumada a conseguir o que quer; status, para ela, é tudo.

Frances, enfermeira reservada e misteriosa; sabemos que ela tem um passado obscuro e que se casou com um dos seus pacientes enquanto servia durante a guerra. Alguma coisa a deixou cautelosa e nervosa.

O absurdo da situação

A Jojo chega a “brincar” sutil e ironicamente com o absurdo da situação: mais de 600 mulheres agitadas e ansiosas, entre elas jovens de 15 e 16 anos, em um porta-aviões lotado de oficiais que estão voltando da guerra – homens com feridas emocionais incuráveis e que também estão ansiosos para reencontrar suas esposas na Grã-Bretanha. O capitão do navio, um personagem secundário bem construído pela escritora, não está nada contente com a viagem e com certeza vê o potencial para o desastre. Fica implícita a ameaça do estupro em um ambiente claustrofóbico com o dobro de homens – e Jojo chega a tratar sobre o assunto, levando em consideração a etiqueta e os costumes da época. Aliás, uma das coisas mais interessantes e também engraçadas do livro é ver as diferenças dos costumes entre aquele tempo e o nosso atual.

O absurdo (ou uma coragem admirável) também se encontra no fato de que todas estas mulheres realmente largaram casa e família para se reencontrar com homens com quem elas tiveram pouquíssimo contato, sem saber o que as esperavam em outro continente (sem ter certeza se, no mínimo, haveria alguém esperando por elas no porto).

“Às vezes, deitada no escuro, ela avaliava o significado daquilo: a presença dele reforçava a ideia de que elas eram uma carga, uma encomenda que devia ser transportada em segurança de um lado para outro do mundo, em muitos casos dos pais para os maridos, de um grupo de homens para outro.”

Para mantê-las entretidas e distraí-las do nervosismo, foram organizadas oficinas, sessões de cinema, palestras, artesanatos e atividades esportivas no convés. Fuzileiros foram selecionados para montar guarda nos corredores dos quartos femininos durante a noite. Mas obviamente, a trama é perfeita para todo tipo de incidentes.

O dia da chegada de cartas, por exemplo, era de muita felicidade e também de apreensão: qualquer uma poderia receber o tão temido “Você não é bem-vinda, não venha” ou o aviso de que o esposo morreu a caminho de casa.

O romance

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Além do capitão, acompanhamos mais dois personagens secundários que dão o tom à obra e são importantes à trama: o fuzileiro Nicol, que monta guarda na frente do quarto de Margaret, Avice e Frances – e que logo passa a se interessar pela última; e Jean, uma garota imatura, simplória e espirituosa de apenas 16 anos que divide o quarto com as três.

Jojo vai soltando aos poucos os segredos de cada uma de suas personagens principais até a última página. É por isso que O navio das noivas é um livro difícil de largar. Você quer saber sobre todas as coisas ainda não ditas e fica criando teorias sobre o que vai acontecer e o que cada uma delas está escondendo. Margaret é uma personagem bastante amável do mesmo tanto que Avice é intragável; já Frances é a mais interessante por ser a mais misteriosa.

O navio das noivas tem todos os ingredientes de sucesso da Jojo Moyes: é uma história emocionante, com personagens femininas fortes e problemáticas, mistérios que são lentamente revelados, assuntos reais e complicados, redenção, e uma história de amor.

Resumindo: é mais um livro lindo e emocionante da escritora! Se você gostou dos outros romances que já leu dela, pode dar uma chance a O navio das noivas.

Leia outras resenhas de obras da Jojo Moyes:

Um mais um

Depois de você

Paris for one

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Semana Especial Jojo Moyes: 5 motivos para se tornar um Jojo Lover

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Jojo Lovers é o nome dado aos fãs da autora inglesa Jojo Moyes, com dez romances publicados até hoje. O seu mais famoso com certeza é Como eu era antes de você, adaptado para o cinema este ano, com Emilia Clarke e Sam Claflin nos papeis principais. A fama da Jojo não é à toa: seus livros são encantadores, com tramas bem construídas e envolventes, quase sempre com um casal fofo. Eu não sou uma das maiores adoradoras de romances “água-com-açúcar” e, apesar de alguns títulos, eu nem sei se os livros da Jojo caem exatamente nesta categoria, mas sem dúvida trazem histórias cheias de complicações amorosas e mulheres fortes, passadas em épocas diferentes, e que, principalmente, sempre acabam com uma lição de vida.

Até agora, li seis títulos dela (e terminarei o sétimo até sexta-feira). Esta é a ordem da minha preferência:

1º) A última carta de amor: este foi primeiro livro que li da Jojo, em 2012 quando o SLET ainda nem existia, porque me apaixonei pela capa da época (agora a Intrínseca criou uma nova para entrar no padrão dos demais títulos da autora publicados pela editora), e ele ainda é o meu preferido, praticamente empatado com Um mais um.

2º) Um mais um: comprei um exemplar deste livro em inglês durante a minha viagem à Londres em 2014, antes de ser publicado no Brasil. Tem resenha aqui, onde eu explico porque gostei tanto dele!

3º) Como eu era antes de você: lindo, mas não me causou a super comoção que aparentemente causou em todo mundo – adorei a adaptação!

4º) A garota que você deixou para trás: como já escrevi  antes, eu amei a parte que se passa na França, mas os trechos em Londres, no presente, não me encantaram.

5º) Depois de você: leia a resenha aqui.

6º) Paris for one: um livrinho de menos de 100 páginas escrito para a coleção Quick Reads. Leia a resenha dele aqui.

(Observação: Os títulos dos livros da Jojo, para mim, às vezes chegam a ser um problema; eles passam a ideia de romances melosos e clichês que podem acabar por afastar pessoas que evitam chick lit. Jojo é muito mais do que isso!)

A Editora Intrínseca também tem publicado no Brasil os livros Nada mais a perder, O navio das noivas e Baía da Esperança. Veja aqui todos os títulos!

5 motivos para gostar dos livros da Jojo Moyes

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Com estes seis livros lidos e O navio das noivas pela metade (a resenha sai na sexta!), eu listei os cinco motivos que me fazem adorar e recomendar os livros da Jojo Moyes.

  1. Fortes personagens femininas

Uma mãe solteira, uma filha que carrega a família nas costas, uma francesa que protege toda a sua vila… As mulheres nos livros da Jojo costumam ser batalhadoras, independente do perrengue pelo qual estão passando. Todas as suas protagonistas são mulheres, personagens marcantes e, claro, com defeitos como qualquer um, e por isso, reais.

  1. Ambientações e épocas diferentes

Os romances da Jojo se passam em Londres, em 1960 ou nos tempos atuais; na França, durante a Primeira Guerra Mundial; na Austrália, em 1946. A autora gosta de brincar de viajar entre o passado e o presente, interligando histórias em épocas e lugares diferentes no mesmo livro.

  1. Livros fofos sobre coisas sérias

A Jojo Moyes tem um talento natural para escrever histórias cativantes e fofas que contenham algum tema bem mais sério. Por exemplo: tetraplegia, suicídio assistido, bullying, a Primeira Guerra Mundial, amnésia, luto, abandono, entre outros. Sim, os livros são romances; no entanto, apesar das capas, dos títulos e dos casais fofos, a Jojo consegue ir além da fofura e falar de assuntos sérios com leveza, sem precisar ser soturna ou chocante.

  1. Lições de vida

Todos os livros da Jojo acabam com algum tipo de lição de vida inspiradora: perseverança; respeitar as diferenças e a vontade do próximo; the kindness of strangers; aproveitar a vida plenamente; entre várias outras. Cada história e personagem da escritora têm algo a nos ensinar.

  1. Jojo é simplesmente cativante

Conseguir fazer com que seus leitores se debulhem em lágrimas com um livro é, sim, um enorme mérito. Como eu era antes de você tem esse efeito nas pessoas. Apesar de gostar mais de uns do que de outros, eu não me decepcionei com nenhum livro da autora. Todos são cativantes e emocionantes e a Jojo conquistou um lugarzinho especial entre os meus autores preferidos.

Qual é o seu livro preferido da Jojo Moyes? Para você, quais são os principais motivos para gostar da autora?

P.S.: Este não foi o tema sugerido pela Intrínseca, mas há tempos planejava escrever sobre os motivos pelos quais gosto tanto dos romances da Jojo, assim como a lista que já publiquei sobre a Rainbow Rowell, e achei que a Semana Especial Jojo Moyes seria uma ótima oportunidade.

P.P.S.: Os meus exemplares de Como eu era antes de você e Depois de você estão emprestados, por isso não saíram nas fotos. (Sim, eu empresto os meus livros!)

P.P.P.S.: A minha amiga Renata, que mora em Nova York e também é uma Jojo Lover, já conseguiu participar de duas sessões de autógrafos com a autora. Em uma delas, ela pegou um autógrafo para mim! <3

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Sobre o discurso de Lionel Shriver e a apropriação cultural na ficção

Lionel Shriver, durante o seu discurso de abertura do Brisbane Writers Festival, Austrália, no dia 8 de setembro. (Foto: Daniel Seed)

Lionel Shriver, durante o seu discurso de abertura no Brisbane Writers Festival, Austrália, no dia 8 de setembro. (Foto: Daniel Seed)

Lionel Shriver fez um discurso que ela nomeou de Ficção e Política de Identidade como oradora principal do Brisbane Writers Festival, na Austrália, no dia 8 de setembro. Digno de uma mente como a dela, a “alocução” causou comoção no evento e foi até retirado do site oficial do Festival devido às reclamações de autores, leitores, membros da mídia e outros grupos sociais; mas ele ainda se encontra na íntegra no site do The Guardian, onde a autora mantém uma coluna.

Para quem não a conhece (shame on you!), ela é uma norte-americana autora de 13 romances, entre eles, o aclamado e simplesmente fantástico Precisamos falar sobre o Kevin. Apesar de só ter lido até agora quatro de suas obras, eu sou fã dela. Seus livros são nada menos do que pesados e tensos. A mulher é um gênio e rapidamente se tornou uma das minhas autoras preferidas.

Um tubarão equilibrando uma bola no nariz

No entanto, quem já leu suas obras, não poderia esperar algo diferente de um de seus discursos. O proferido em Brisbane foi, no mínimo, polêmico e instigante. Você não convida Shriver para ser oradora de um evento literário e espera que ela fale alegremente sobre “comunidade e inclusão”, como ela bem apontou no início de seu discurso:

“Eu odeio desapontá-los, mas, a não ser que estiquemos este tópico a ponto de rompê-lo, este discurso não será sobre ‘comunidade e inclusão’. Na verdade, devemos reconhecer a ousadia dos organizadores desde festival: convidar uma célebre iconoclasta para falar sobre ‘comunidade e inclusão’ é como esperar que um grande tubarão branco balance uma bola de praia no nariz.”

Foi assim que ela começou a se dirigir à plateia lotada de autores do mundo inteiro em Brisbane e estas primeiras palavras claramente foram um aviso do que estava por vir. Shriver discutiu sobre um tema em alta, a apropriação cultural, mas se ateve principalmente às suas consequências para a ficção.

Eu me pergunto se ninguém da organização leu e aprovou previamente o discurso escrito por ela ou se o incômodo do Festival foi uma reação às críticas. O tema é sensível e falar sobre ele, ainda mais com a crescente tendência atual do politicamente correto, é arriscado. Mas se há alguém que fala o que a gente não quer ouvir e que gera todo tipo de discussão e incômodo, esse alguém é a Shriver.

A apropriação cultural está limitando a ficção?

Basicamente, a autora acredita que as políticas de identidade e de apropriação cultural estão limitando a criatividade e a liberdade dos autores de ficção.

Ela comenta sobre um caso recente em que alguns estudantes de uma universidade do Maine, nos EUA, deram uma festa de aniversário com o tema “tequila” e distribuíram sombreros aos convidados. Quando as fotos da festinha tornaram-se públicas, os responsáveis foram julgados pela administração da universidade por “ato de estereótipos étnicos”, resultando na expulsão dos estudantes.

Mas o que o caso tem a ver com a ficção?, pergunta Shriver. “A moral do escândalo do sombrero é clara: você não pode usar o chapéu dos outros. Mas isso é exatamente pelo que nós somos pagos, não é? Calçar os sapatos dos outros e vestir seu chapéu”, responde. Ela cita diferentes exemplos de autores que escreveram ficções sobre personagens de grupos sociais, éticos e culturais diferentes deles mesmos, como Matthew Kneale, autor de English Passangers, e Dalton Trumbo, que escreveu Johnny Vai à Guerra.

O erro é acreditar que o que está escrito em uma ficção é a crença cega do autor; é achar que se o escritor colocou no romance, ele deve defender também na realidade. (Shriver chegou a dizer o óbvio: mesmo tendo escrito a sua obra mais famosa, ela não foi responsável por um massacre na vida real.)

“No mais recente conjunto de valores, qualquer tradição, qualquer experiência, qualquer costume, qualquer forma de fazer ou dizer as coisas associada a uma minoria ou grupo desfavorecido é protegido: você pode olhar, mas não pode tocar. Aqueles que fazem parte de uma vasta variedade de “identidades” – etnias, nacionalidades, raças, categorias sexuais e de gênero, classes econômicas desprivilegiadas – agora são encorajados a serem possessivos sobre suas experiências e receber como uma forma de roubo qualquer tentativa dos outros de participarem de suas vidas e tradições, ativa ou imaginativamente”.

Shriver chega até a mencionar um movimento que aconteceu em Ohio, apoiado pela atriz Lena Dunham, em que estudantes universitários clamavam que os sushis em seus refeitórios eram uma apropriação cultural. Comer sushis fora da Ásia é apropriação cultural?

“Nós, escritores de ficção, devemos procurar ‘permissão’ para usar um personagem de outra raça ou cultura, ou para empregar o vernáculo de um grupo ao qual não pertencemos?”

Shriver disse que se ela tiver permissão para escrever apenas sobre as suas origens e perspectivas, ela será limitada a uma personagem mulher branca e heterossexual nascida na Carolina do Norte, perto dos 60 anos, com corpo fisicamente são mas joelhos problemáticos, quebrada por muitos anos, mas que finalmente pode comprar aquela nova camiseta extravagante. “Tudo que nos resta é um livro de memórias.”

Os autores serão limitados a autobiografias?

Este trecho em particular do discurso me fez lembrar da personagem L., de Baseado em fatos reais. Ela acreditava que só a realidade deveria ser publicada; só a Verdade convence o leitor e o faz se apegar ao autor, à literatura. Só a autobiografia é sincera. Se L. estiver certa, a suposição de Shriver é uma premonição. Tudo que restará ao mercado editorial serão livros de memórias e autobiografias. É claro que este é um cenário hipotético e exagerado, no entanto, a escrita de ficções, de repente, parece um negócio arriscado.

“Esta é uma vocação desrespeitosa por natureza – bisbilhoteira, voyeurística, cleptomaníaca e presunçosa. E isso é o melhor da ficção. Quando Truman Capote escreveu do ponto de vista de assassinos condenados vindos de uma classe econômica diferente da dele, ele foi atrevido. Mas escrever ficção exige atrevimento.”

Shriver recebeu uma carta de um armênio enraivecido por Eva, a narradora totalmente fictícia de Precisamos falar sobre o Kevin, ter descendência armênia; segundo o remetente, o livro depreciou o seu povo. Já Grande irmão, obra inspirada na história real da autora, que perdeu um irmão devido a complicações de sua obesidade mórbida, provocou emails raivosos de um grupo de ativistas “Healthy at any size”, que não havia nem lido o livro, porque Shriver é magra e escreveu sobre obesidade.

Shriver também aponta a óbvia contradição entre as revoltas atuais direcionadas a autores: se eles não acrescentam personagens de diferentes etnias/culturas ou de minorias, eles não são inclusivos; se eles os adicionam em suas obras, as chances de serem criticados ou de ofenderem alguém são grandes. É necessário tratar estes personagens com o maior esmero para que nada seja mal interpretado ou soe como desrespeito, preconceito, estereótipo, etc.

E a sua opinião sobre o assunto?

É um campo minado e a discussão é extremamente pertinente. A argumentação sobre a apropriação cultural é válida e necessária, mas até em que ponto ela deve ser aplicada? Esta é uma pergunta que fica após ler o discurso de Shriver. Eu recomendo a leitura, e adoraria citar mais trechos aqui, entretanto, o post ficaria longo demais. Na verdade, o ideal seria traduzir todo o discurso, mas isso fica para outra ocasião.

Também gostaria muito de saber a opinião de vocês sobre o assunto!

Leia aqui uma notícia do New York Times sobre a repercussão do discurso.

P.S.: Os trechos do discurso foram traduzidos por mim.

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Baseado em fatos reais, de Delphine de Vigan: sobre domínio mental

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Baseado em fatos reais, publicado no Brasil pela Intrínseca e traduzido por Carolina Selvatici, é um romance francês sobre uma autora chamada Delphine que escreve uma obra bastante autobriográfica, apesar de classificada como ficção graças a grandes porções inventadas na obra, que inesperadamente virou um bestseller nacional, mesmo tendo outros romances lançados na última década.

A escritora, tímida e desajeitada por natureza, não tem estrutura para aguentar a atenção recebida pelos fãs e pela mídia, nem a enxurrada de convites e eventos que começa a cair sobre ela. É neste período, no rescaldo da sua nova fama, que Delphine conhece L. em uma festa, uma mulher misteriosa e envolvente, com quem ela rapidamente constrói uma amizade muito próxima e confidencial. L. era uma ghost-writer talentosa – escrevia autobiografias de personalidades famosas para que fossem publicadas com o nome do biografado como autor.

Quanto tempo é necessário para ser uma mulher assim?, perguntei-me enquanto observava L., como havia observado dezenas de mulheres antes dela, no metrô, na fila de espera dos cinemas, nas mesas de restaurantes. Penteadas, maquiadas, engomadas. Sem nenhum amassadinho. Quanto tempo levavam toda manhã para chegar àquele estado de perfeição e quanto tempo levavam para se retocar à noite, antes de sair?

L. parecia ser a amiga perfeita: estava sempre disponível, intuía o que Delphine estava sentindo e sabia sempre a coisa certa a dizer em qualquer situação. Era elegante, bela, impecável. Era, na verdade, alguém que Delphine gostaria de ser. No entanto, relatando a história da amizade, depois de tudo acontecer, a escritora consegue perceber os detalhes que ela deveria ter notado na época, mas que passaram despercebidos. Detalhes que eram avisos sobre o que a aguardava. A amiga começa a mostrar-se ciumenta e manipuladora, enraizando a sua presença e as suas influências na vida de Delphine, mas há algo que a interessa mais na escritora: o que ela vai escrever em seguida.

Sendo uma ghost-writer de autobiografias, L. estava acostumada a conseguir extrair o que há de mais íntimo nas pessoas e a pensar e escrever como se fosse elas. Quando se considera este fato, é fácil entender como conseguiu dominar Delphine, especialmente em uma época em que a escritora se encontrava vulnerável e estressada. Delphine não tinha apenas um bloqueio criativo; ela havia desenvolvido uma fobia, um pânico que a impedia de sentar em frente ao computador, a segurar uma caneta, a abrir um arquivo do Word ou a responder um email sequer. A vulnerabilidade e o pânico a fizeram dependente de L.

Eu havia perdido o domínio das habilidades básicas necessárias para o exercício de minha atividade.”

L. acredita que apenas a verdade é digna de publicação. Que os leitores não se deixam enganar por qualquer história de ficção e só se apegam a fatos reais. Essa é uma discussão muito pertinente para se manter em mente enquanto lê a obra de Delphine de Vigan.

A vida real de Delphine de Vigan

baseado-em-fatos-reais2Acontece que a autora francesa de Baseado em fatos reais (D’après une histoire vraie, seu título original), obviamente, também é escritora. Ela realmente ficou famosa graças à sua obra autobiográfica sobre sua família e suicídio de sua mãe, além de também ter estreado no mundo editorial com um livro chamado Jours sans faim sobre a sua luta contra a anorexia. A Delphine real também tem gêmeos e um relacionamento duradouro com um jornalista e diretor chamado François. Delphine apenas emprestou seu nome e algumas de suas experiências à personagem fictícia?

Os limites difusos entre ficção e realidade

Em Baseados em fatos reais, não sabemos onde termina a autobiografia e começa a ficção. E isso é o que há de mais genial neste livro! Quando uma obra deixa de ser ficção para se tornar não ficção ou autobiografia? Quanto de Verdade (com maiúscula como Delphine gosta de escrever) ele deve conter para ser não ficção? Existe um limite, uma divisória, uma porcentagem? A memória do autor é confiável para retratar a realidade? E se ele inventar algumas partes para servir de cola a grandes cacos de Verdade, podemos ainda chamá-lo de não ficção?

Os livros da Delphine parecem estimular sempre estas mesmas dúvidas e permanecer no limiar entre os dois gêneros literários, entre o real e o inventado. O título escolhido para a versão brasileira é extremamente propício e adequado, assim como seu original “Baseado em uma história verdadeira”. Sabemos que o romance tem base em fatos reais, mas em quais deles? O pânico, a amizade com L., o domínio mental, os anos de bloqueio, as ameaças?

Além de todas estas questões sobre os limites difusos entre a ficção e a realidade, Delphine e L. têm discussões sobre o mercado editorial; a relação do leitor com o autor; o vínculo entre o leitor e o livro lido; como o autor deixa de ter domínio total sob sua obra uma vez que ela passa pela interpretação individual de cada um; o caminho sem volta de se expor ao mundo em uma obra autobiográfica.

“Os leitores haviam questionado a realidade dos fatos. Tinham feito sua investigação. Eu não podia ignorar isso. E o sucesso do livro, no fim das contas, talvez fosse fruto apenas dessa característica. Uma história de fatos reais ou considerada como tal. Apesar do que eu dizia. Apesar das precauções que eu usara para afirmar que a realidade era elusiva e reivindicar minha subjetividade. Eu tocara na realidade e a armadilha havia me capturado.”

Thriller psicológico

Delphine vai liberando aos poucos as insanidades de L. e os seus próprios erros e relapsos, e cria um thriller psicológico tenso, sombrio, íntimo e muito bem escrito sobre uma lenta e crescente dominação mental. Ela me deixou de queixo caído com a sua trama (e com medo em alguns trechos) e principalmente com o seu desfecho. Baseado em fatos reais foi um dos melhores livros que li este ano!

É impossível não se lembrar de Misery – Louca Obsessão de Stephen King (inclusive, Delphine usa trechos desta obra e de A metade sombria no início de cada divisão do livro) e também não passar pela mente as palavras stalker, psicopata, sociopata, entre outras do tipo. Durante a leitura, não pude deixar de pensar que L. conseguiu o que queria. Delphine voltou à autobiografia, à mistura entre realidade e invenção. Voltou a instigar o leitor a pensar no que aconteceu com a autora em sua vida real.

Trechos de Baseado em fatos reais

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“Assim eu podia escutar, falar, entender, o que estava sendo construído no lugar do livro, aquele vaivém operado entre o leitor e o texto em que o livro quase sempre faz o leitor se lembrar – por alguma razão que eu não sei explicar – da própria história. O livro era uma espécie de espelho, e sua profundidade de campo e seus contornos não me pertenciam mais.”

“– Que a vida que contamos nos livros seja verdadeira ou falsa é tão importante assim?

– É, é importante. É importante que seja verdade.

– Mas quem pode saber se é? As pessoas, como está dizendo, talvez só precisem saber que a história soe certa, Como uma nota musical. Aliás, talvez seja este o mistério da escrita: ela é certa ou não é. Acho que as pessoas sabem que nada do que escrevemos é realmente estranho a nós. Sabem que sempre existe um fio, um motivo, uma falha, que nos liga ao texto. Mas aceitam que a gente transponha, condense, desloque, transvista. E que invente.”

“O personagem não tinha o direito de surgir do nada, sem nenhum ponto de ancoragem, de ser pura invenção? Ele tinha que prestar contas? Não. Eu não acreditava nisso. Pois o leitor sabia a que se deter. O leitor estava sempre disposto a ceder à ilusão e acreditar que a ficção era realidade. O leitor era capaz disso: de acreditar, sabendo que aquilo não existia. Acreditar como se fosse verdade tendo plena consciência de que era inventado. O leitor era capaz de chorar a morte ou a queda de um personagem que não existia. E isso era o contrário de um simples embuste.”

“– Sim, a escrita é uma arma, Delphine, a porra de uma arma de destruição em massa. A escrita é muito mais poderosa do que tudo que você possa imaginar. A escrita é uma arma de defesa, de fogo, de sinalização, a escrita é uma granada, um míssil, um lança-chamas, uma arma de guerra. Ela pode devastar tudo, mas também pode reconstruir.”

“Na idade adulta, a amizade se constrói por uma espécie de reconhecimento de conivência: um território comum. Mas também me parece que procuramos no outro algo que existe apenas em nós de uma forma menor, embrionária ou negada. Assim, costumamos nos ligar àqueles que souberam desenvolver uma maneira de ser próxima da que gostaríamos de ter. Eu sei o que eu admiro em cada uma de minhas amigas. Poderia dizer o que cada uma delas tem e eu não, ou aquilo que possuo apenas em uma quantidade mínima.”

“– Mesmo que tenha acontecido, mesmo que algo verdadeiro se pareça com isso, mesmo que os fatos sejam reais, nós sempre contamos uma história. Contamos a nós mesmos.”

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“Quem é o editor?” – Oficina Literária Edições Sesc na Bienal 2016

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No dia 2 (sexta-feira), na Bienal do Livro de São Paulo, eu consegui assistir à oficina “Quem é o Editor?” com Pedro Almeida, Rogério de Campos, Eduardo Lacerda e Plínio Martins, que foi muito interessante e instrutiva. Os quatro começaram se apresentando e contando como deram início à carreira de editor. O mais legal é que cada um deles segue uma linha editorial e publica obras totalmente distintas.

Os editores participantes

Plínio Martins liderou a Edusp por 25 anos, portanto tem muita experiência com livros acadêmicos – como Pedro Almeida salientou, o Plínio publicava livros sobre como escrever livros.

Rogério de Campos é autor, editor e tradutor, criador da Editora Veneta, focada em HQs e não ficção (em sua página oficial, a editora diz ter como “responsabilidade social desafiar convenções, os consensos manufaturados, as autoridades em geral e, se necessário, seus leitores”).

Pedro Almeida é jornalista e professor de literatura; já passou pela Ediouro, Novo Conceito, LeYa e Lafonte antes de criar a Faro Editorial, com um catálogo bem variado. Ele também é colunista da PublishNews.

Eduardo Lacerda é autor e coeditor da Editora PatuáLivros são amuletos, que publica principalmente poesia  e é especializada em autores brasileiros contemporâneos, com o objetivo de “publicar bons autores que não encontraram espaço nas grandes editoras, mas que também não desejam pagar pela edição da própria obra”.

Alguns detalhes da conversa

Apesar de menor e menos rentável que as demais, dois dos livros já publicados pela editora de Eduardo ganharam o Prêmio São Paulo de Literatura (um deles foi o Desnorteio, da Paula Fábrio, em 2013, na categoria Autor Estreante) e ele recebe aproximadamente 150 manuscritos todos os meses. E adianta mesmo enviar o seu manuscrito insistentemente às editoras? Segundo Rogério, “os chatos vencem”. Apesar de a insistência ser uma chatice, às vezes dá certo.

Uma pergunta da platéia (o pequeno “auditório” montado pelo Sesc no meio da Bienal era muito bonitinho e isolava o barulho da bagunça de fora) complementou este assunto: quanto eles leem antes de descartar um manuscrito ou então decidir se vale a pena lê-lo inteiro? Segundo todos eles, três páginas são suficientes, e não precisam ser as iniciais – três páginas aleatórias já ditam se o manuscrito merece ser lido.

“Editor é um leitor do mundo. Ele tem que ler o mundo.” – Pedro Almeida

O Plínio contou uma história muito pertinente: depois que a sua editora publicou uma tradução de Finnegans Wake do James Joyce, ele passou a receber uma quantia bem menor de manuscritos, porque, acredita ele, os autores pensavam: “Se essa editora publica Joyce, com certeza o meu livro não tem chance”. Segundo o editor, toda editora tem uma política que está implícita em seu catálogo. Isso faz com que os novos autores já tenham uma noção se terão alguma chance de publicar por ela ou não, de acordo com o gênero que escrevem. Plínio também disse que, para escolher novos autores, ele costuma consultar seus escritores já publicados e saber se eles gostariam de ter o autor como colega na editora. Ele confia na opinião de seus escritores e também aceita suas sugestão.

Outro fator discutido foi o mercado editorial atual. Os editores têm conselhos bastante realistas: o mercado não é o mais rentável; o que o impulsiona é e deve ser o amor pelo livro. “O mercado é sempre ruim, mas sempre sobrevive”, disse Plínio. E Rogério complementa: “Se você quer ser editor, não faça muita conta senão você desiste”.

A oficina de pouco mais de uma hora foi divertida e bastante informativa para todos e especialmente para quem tem vontade de se tornar editor. As quatro histórias totalmente distintas dos participantes são inspiradoras. (Rogério, por exemplo, começou com fanzines porque queria emplacar a sua banda, que acabou não tendo êxito, mas as fanzines fizeram sucesso e deram início à sua carreira.)

Recomendo que visitem o site oficial das editoras de cada um deles para conhecer seus catálogos e política editorial.

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