Os afetos, de Rodrigo Hasbún

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 Após a Segunda Guerra Mundial, Hans Ertl, um homem inconstante, mudou-se da Alemanha para La Paz, na Bolívia, trazendo sua esposa submissa e suas três filhas: a mais velha e depressiva, Monika; a sonhadora Heidi; e a caçula solitária, Trixi. Cineasta famoso, pula de projeto a projeto, até decidir que quer sair em uma expedição para encontrar a cidade perdida de Paitití e gravar um documentário sobre a experiência. Para ajudá-lo, Monika e Heidi viajam com o pai e mais uma equipe de especialistas. A partir desta viagem, o livro acompanha o passar dos anos na vida de cada um dos membros da família, ora em primeira pessoa, ora em terceira.

Escrito pelo autor boliviano contemporâneo Rodrigo Hasbún, Os afetos foi publicado no Brasil pela Editora Intrínseca com tradução de José Geraldo Couto. Em apenas 125 páginas, o livro acompanha o destino da família Ertl desde os anos 50, e, apesar de ser uma ficção, os seus personagens realmente existiram.

Monika Ertl ficou conhecida na Alemanha como a mulher que vingou Che Guevara. Quando adulta, ela se envolveu com sobreviventes da guerrilha pela América Latina, participando diretamente de ações, inclusive, acredita-se, de um atentado contra um antigo coronel que trabalhava como cônsul boliviano na Alemanha. Hans Ertl foi realmente um cinegrafista muito requisitado durante o Nazismo. Ele trabalhou com a diretora e atriz Leni Riefenstahl em várias de suas propagandas nazistas. Ele fez expedições na Bolívia, incluindo a última que acabou mal.

Eu não conhecia a história de Monika e de Hans antes de ler Os afetos. Apesar de conter personagens reais, Hásbun deixa claro que esta é uma obra de ficção. Mesmo assim há diversas menções de fatos que realmente aconteceram e a história parece seguir uma cronologia correta dos eventos. Aparentemente, Os afetos é uma interpretação de Hasbún de fatos históricos.

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A obra tem um viés mais psicológico, principalmente quando acompanhamos o desenvolvimento e os destinos totalmente adversos das três irmãs: uma esposa-troféu descontente; uma mulher de família e empresária; uma solteira pacata, viciada em cigarro. Cada uma tem também um tipo de relacionamento completamente diferente com o pai e com a mãe – que aparece pouco no livro, mas, para mim, é uma personagem muito bem construída e que diz muito em poucas páginas.

“Você quer que tudo corra bem para suas irmãs e isso nem sempre acontece. Quer que tudo corra bem para você mesma e quase sempre é impossível.”

Inevitavelmente uma das personagens mais fortes e presentes de Os afetos, quando acompanhamos Monika, também acompanhamos um pouco do movimento guerrilheiro e seus rebeldes, principalmente a luta para manterem-se fora do alcance dos milicos. Os afetos é um livro sucinto e histórico, com um pouco do que se passava na Bolívia no pós Segunda Guerra e também durante a revolução cubana. Sobretudo, é um livro sobre uma família, com uma narração mais introspectiva e intimista, sob diferentes vozes e perspectivas.

Para mim, foi interessante identificar qual personagem estava narrando cada um dos capítulos, porque aos poucos, vamos reconhecendo a forma de narrar distinta de cada um deles – eu particularmente gostei mais de Trixi. Ainda tento entender o objetivo de Hasbún com o livro. Talvez ele seja um conhecedor da história de  Monika, mas quisesse humanizá-la contando a história de sua família. Talvez ele quisesse contar um pouco sobre a história de seu país entre as décadas de 50 e 70 pelo olhar de estrangeiros. Ou então ele quisesse apenas “reinventar” uma história real como ficção, permitindo-se imaginar como as coisas aconteceram. Independente do objetivo, com poucas pinceladas – afinal, o livro é bem curto -, ele conseguiu tudo isso em um romance pequeno, interessante e rápido de ler.

(É interessante ler Os afetos sem saber sobre a história real e só após terminado o livro ler sobre a vida de Monika.)

Trechos de Os afetos

“Podia reler os diários, ver as fotos com mais atenção. Foi um tempo decisivo, aquele da selva. Não encontraram nada, nunca chegaram a Paitití, mas ao mesmo tempo encontraram até muita coisa, cada um por conta própria. Sem ir muito longe seu pai encontrou Burgl e Heidi encontrou Rudi. E você?”

“Fazia muito tempo que não dependia dele, saber estar sozinha era minha maior conquista.”

“A realidade eram as pessoas que se juntavam e se reproduziam e permitiam assim que as mentiras do mundo continuassem funcionando.”

“Nada incomodava mais Monika que a servidão. Era a servidão, justamente, o que renovava nela a necessidade de lutar.”

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Pax, de Sara Pennypacker: sobre guerra, essência humana e abandono

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Este post faz parte da Semana Especial Pax da Editora Intrínseca

“De repente, o ar puro do crepúsculo foi rasgado pelo grito agudo de uma serra cortando madeira. O som veio de algum lugar atrás do celeiro. Os cervos levaram um susto, todos ao mesmo tempo, e saíram correndo para o bosque cada vez mais escuro, as caudas brancas balançando. Antes de partir junto com o grupo, a mesma fêmea encarou Peter outra vez, com um olhar que parecia dizer: Vocês, humanos… Vocês estragam tudo.”

Vira e mexe, aparece algum tipo de vídeo na nossa linha do tempo de um esquilinho com a cabeça presa em uma embalagem vazia, um grupo de humanos livrando um anzol enroscado na barbatana de um golfinho, uma fila de carros parados esperando a travessia de patinhos, ou então um coala resgatado de um incêndio. Embora algumas pessoas possam achar estes vídeos fofinhos ou emocionantes, eles me cortam o coração. Nenhum animalzinho selvagem precisaria ser resgatado se não fosse pela intervenção humana em seu habitat. Nós tomamos tudo e destruímos boa parte do que era deles. Agora são eles que precisam sobreviver na nossa selva.

Este é um assunto sensível e muito comovente. A ficção infantojuvenil americana Pax, de Sara Pennypacker, publicado no Brasil pela Intrínseca, é o livro mais delicado e dolorido que eu já li sobre este tema. E, para aumentar o teor emocional da história, ela também trata sobre a guerra.

Leia o primeiro post do SLET sobre Pax aqui.

Enquanto o garoto Peter tem dúvidas existenciais em suas conversas com Vola, a amiga recém feita, a raposa Pax e os demais bichos do bosque onde ele foi abandonado sentem diretamente as consequências das ações humanas contra o meio ambiente e os animais. A trama envolve diferentes tipos de descaso: incêndio, poluição de rios, abandono, exploração, violência…

Quando Peter finalmente pode retomar o seu caminho em busca de Pax, é a vez dele de se deparar tanto com o abandono e as tristezas da guerra quanto com a relação inquebrantável entre homem e animal.

Enquanto andava, as lembranças daqueles animais de olhos famintos o acompanhavam, aparecendo e sumindo como fantasmas acusadores. Queria dizer a eles que sabia como era ver a única pessoa que tinha amado você e cuidado de você sumir de repente. Que, de uma hora para a outra, o mundo parecia preguiçoso.”

Afinal, se o homem é capaz de deixar o próprio filho para voluntariamente servir na guerra, por que não seria capaz de atrocidades contra os animais? Não os abandonaria à própria sorte, nem colocaria fogo em seus lares e os exploraria apenas enquanto fossem úteis.

Como eu disse no post de segunda-feira sobre Pax, este livro é infantojuvenil, mas sua mensagem dói na alma.

“Quando a guerra chegar, eles vão ficar descuidados.

O que é guerra?

Cinzento hesitou.

Tem uma doença que às vezes dá nas raposas que as faz deixar de agir de maneira normal e atacar estranhos. A guerra é uma doença humana parecida.”

No entanto, mesmo com estes temas tão comoventes que mexem comigo, a frase que mais me fez chorar com a leitura de Pax foi a seguinte:

“Vou deixar a porta da varanda sempre aberta.”

P.S.: O modelo fofíssimo da foto chama-se Shmoo e é o cachorro do Leandro. <3

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Pax, de Sara Pennypacker: sobre amizade e companheirismo

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Este post faz parte da Semana Especial Pax da Editora Intrínseca

Pax se trata da história de uma raposa e um menino que são melhores amigos, durante a guerra. A mãe de Peter morreu quando ele tinha sete anos, pouco tempo depois, ele encontrou Pax órfão no bosque. Passados cinco anos, o pai de Peter precisa servir na guerra e leva o menino para morar com o avô, não sem antes “devolver Pax à natureza”.

Se essa sinopse já não for indicação suficiente de que este é um livro emocionante, não sei o que mais escrever. Foi a primeira vez que eu chorei com o primeiro capítulo de um livro. Além disso, levei bem mais tempo do que provavelmente deveria para terminar de ler Pax. Isto tudo porque o livro mexe com um tema que me comove imensamente: a amizade entre humano e animal. Um relacionamento puro, de gratidão e companheirismo.

Publicado pela Intrínseca, traduzido por Regiane Winarski e maravilhosamente ilustrado por Jon Klassen, o livro tem uma aparência e um tom levemente infantil, mas uma mensagem adulta sobre a essência humana.

“As pessoas deveriam falar a verdade sobre as consequências da guerra.”

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Pax e Peter têm uma conexão profunda. Eles sabem o que o outro está sentindo pelo cheiro, pelos movimentos do corpo e conseguem pressentir a proximidade um do outro. A amizade entre bicho e homem é algo que me comove. O animal não precisa de muito para ser feliz: uma barriga cheia e segurança; e pagam com gratidão e fidelidade eterna. É uma relação sincera e cativante. (Nunca convivi com raposas, mas ter minhas três cachorras é uma das maiores alegrias da minha vida. Uma terapia.) Mas é certo domesticar uma raposa? É amizade ou dependência?

“- Só estava pensando… sobre deixá-lo para dormir aqui na varanda. Será que isso torna você o quê: selvagem ou domesticado?”

Apesar de a amizade entre garoto e raposa ser essencial aos dois, principalmente quando se conheceram e estavam bastante vulneráveis, foi quando se separaram, fora de suas zonas de conforto, que eles mais aprenderam. A separação faz com que os dois entendam sobre eles mesmos: Peter sobre a sua natureza humana e o medo de deixar os sentimentos transbordarem (principalmente a raiva); Pax sobre a sua natureza selvagem, aprendendo a viver em seu habitat natural. Entender como foi capaz de abandonar o seu melhor amigo também o fez aprender a respeitar as suas diferenças.

Separados, ambos encontraram ajuda de amizades inesperadas. Pax pela primeira vez convive com outras raposas. Peter conhece uma mulher solitária traumatizada pela guerra. Todos esses relacionamentos do livro discorrem sobre a influência que temos na vida dos outros; como podemos mudá-la para melhor sem impor nada; como o meio influencia o nosso comportamento; e como temos um instinto intrínseco e inevitável, tanto humano quanto animal.

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A CASA DO POETA TRÁGICO, Carlos Heitor Cony

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Augusto é um publicitário de 46 anos que embarca em um cruzeiro pelo Mediterrâneo a trabalho. Entediado com tudo a sua volta, nos últimos dias de viagem fica inesperadamente obcecado por uma adolescente desconhecida. O que a princípio parecia ser uma atração à distância, quase platônica, acaba fugindo do controle. Ele a segue até Nápoles, onde ela vivia com os tios. Após uma primeira e intimidadora abordagem, nasce um romance um tanto quanto conturbado, tão poético quanto trágico, que se desenrola pelas próximas duas décadas.

A CASA DO POETA TRÁGICO (Cia. das Letras*, 1997, 214 páginas) escancara o âmago dos relacionamentos, não só entre duas pessoas, mas também de um indivíduo consigo mesmo. Carlos Heitor Cony é um tanto experimental no que diz respeito à estrutura do livro. Ele aborda, de forma não linear, os vinte anos da relação de Augusto e Mona, começando a história com eles já separados e então permeando os capítulos com épocas distintas, trazendo flashbacks do início do relacionamento, ora avançando vários anos, ora retrocedendo, e finalmente retornando à atualidade. Essa colcha de retalhos cronológica proporciona um ar de novela ao romance, intrigando (e angustiando) o leitor mais e mais a cada capítulo. O livro se divide em três partes, sendo a segunda parte em primeira pessoa e o restante em terceira. Um dos capítulos discorre por algumas páginas em parágrafo único, lembrando a construção utilizada por Raduan Nassar em seus livros.

Há poucos personagens no enredo e considerei deveras interessante a impressão causada de que o personagem principal não é nenhum dos indivíduos do casal, mas o relacionamento deles em si. Augusto é um homem bem sucedido no aspecto profissional e financeiro. Pessoalmente, é uma pessoa cética, sarcástica e arrogante. Não gosta do trabalho, das pessoas a sua volta, da maioria dos lugares que visita, enfim, o sucesso na carreira lhe proporcionou um conforto que acabou se transformando em tédio. Tal fastio em relação à vida acarretou sua paixão por Mona (que se chama Francesca, mas Augusto não gosta desse nome…), trinta anos mais jovem, à procura de alguém que a levasse embora e lhe contasse a história do mundo.

A princípio, Augusto parece estar fazendo um favor à moça. Ensinando-lhe tudo que sabe, proporcionando a ela uma vida que jamais teria se continuasse a morar com os tios. Mas vejo em sua atitude um quase paradoxal “altruísmo egoísta”. Tudo o que faz a favor de alguém é para sentir-se melhor consigo mesmo. Um sentimento parecido com alguém que dá uma esmola generosa a um mendigo, não com genuíno intuito de ajudar o pedinte, mas apenas para louvar a si mesmo como um ser superior. “Dane-se o mendigo.”

A Casa do Poeta Trágico leva a refletir o que cada um de nós busca em um relacionamento. Uma troca justa? A generosidade de quem doa? O conforto de quem recebe? Afinal, é sobre o que a outra pessoa nos faz sentir ou sobre como nos sentimos com nós mesmos?

Trechos do livro

A entrada da casa do poeta trágico em Pompeia, Itália.

A entrada da casa do poeta trágico em Pompeia, Itália.

“distraíam-se em ver os turistas esbaforidos, os nórdicos com as bochechas em fogo, de um vermelho doentio, os japoneses mais pálidos que o habitual, […] tirariam muitas fotos com suas máquinas pequeninas e eficientes, esperariam serem reveladas para saberem se tinham ou não gostado do passeio.”

“Não queria ficar no Rio. Preferia subir para Itaipava, precisava me isolar na casa que sou eu (ou eu é que era a casa).”

“Na realidade, ela nem sabia o que buscava. Só não queria ficar ali. Se escolher um caminho é desprezar todos os outros, recusar um caminho podia ser a escolha de todos os caminhos.”

“O homem – qualquer homem – é uma casa habitada por um poeta que, sabendo ou não sabendo, tem um sentido trágico. Poeta que inventa o próprio poema, poeta condenado a habitar a casa que é ele próprio, e de repente as paredes se desmancham e não é mais casa, sobrando o cão à porta, uma porta que não existe mais, o cão coberto de cinzas guardando o nada.”

“enfim, lá estava ele, olhando-a com provocação, como se perguntasse pela hora em que ela iria embora. Ou pela hora que ficaria para sempre.”

*O livro foi lançado pela editora Objetiva a partir da 7ª edição.

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O livro de Rovana, de Joaquim Maria Botelho (e uma conversa sobre memória no Sesc Campinas)

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No dia 28 de julho, uma quinta-feira, fomos ao Sesc Campinas para assistir a uma conversa literária sobre a importância da memória e da imaginação para a criação de romances. O evento fazia parte da programação de férias Lá Fora Frio, Aqui a Mil! do Sesc. A conversa foi mediada pelo autor Marcelo Maluf e os convidados foram Paula Fábrio e Marcelo Nocelli (sócio-editor da Reformatório e da Pasavento).

Qual o uso que o autor faz de suas lembranças para criar um universo ficcional? Toda invenção é memória? Para Paula Fábrio, as coisas se confundem demais. O autor às vezes consegue convencer o leitor de que a ficção aconteceu com ele na vida real. “Mas a gente se trai demais, porque a memória é fracionada”, diz a autora de Desnorteio, romance vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura na categoria autor estreante com mais de 40 anos. Mas existe alguma preocupação na hora de colocar na ficção o que aconteceu com amigos e familiares de verdade? “Em primeiro lugar a literatura, danem-se os parentes”, respondeu ela, com bom humor. “O autor tem que se despojar destes pudores e colocar tudo no livro. A gente tem a desculpa de dizer que é ficção.”

“A lembrança a gente molda”, explica Nocelli. “Eu posso modificá-la e acreditar naquilo.” O escritor, de alguma forma, é um ladrão de memórias, que rouba as histórias dos amigos e familiares. Esta parte da conversa me fez recordar da mesa “Amar, verbo transitivo” que eu vi na Flip 2015. As convidadas discutiram exatamente sobre este ato de roubar as memórias das pessoas ao redor e o quanto elas deveriam se preocupar em expô-las em suas obras. A autora Ana Luisa Escorel, na ocasião, disse: “Você pode ser fiel ou não com os fatos. A realidade é diferente da memória cotidiana. Você pode relembrar do que e como quiser, porque é literatura. A literatura permite total liberdade de memória. Pobre a família que tem um escritor nela”.

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Da esquerda para a direita: Paula Fábrio, Marcelo Maluf e Marcelo Nocelli, no Sesc Campinas.

Rovana, uma estrangeira no mundo

Começar esta resenha com um breve relato sobre a conversa no Sesc tem TUDO a ver porque, além de O livro de Rovana ser um lançamento da Editora Pasavento, enviado ao SLET pelo Marcelo Nocelli, esta obra de não ficção é basicamente sobre memórias. O jornalista Joaquim Maria Botelho resgatou os 194 diários que a sua irmã Rovana, portadora da Síndrome de Alport, escreveu durante a vida. É um livro doce e nostálgico em que Botelho revive não só a história da irmã como de toda a sua família, seus outros sete irmãos, sua infância e juventude.

No caso de Rovana, ela teve muita sorte de ser irmã de um escritor, pois assim pode ter a sua história publicada. Os seus pais eram primos de primeiro grau, razão por ter nascido com a deficiência. A Síndrome de Alport é uma doença genética associada à presença da surdez nervosa e anomalias oculares congênitas, além da perda progressiva da função renal. Rovana permaneceu absolutamente incomunicável por muitos anos devido à surdez e cegueira, o que atrasou o seu desenvolvimento; aprendeu a falar apenas aos 14 anos. Mas antes disso, aprendeu a escrever. Os seus diários se tornaram não só um exercício de desenvolvimento, como também a sua porta para o mundo.

Botelho recorta vários trechos dos cadernos de Rovana e os inclui no livro sem corrigi-los. O leitor consegue entrar em seu mundo. Além disso, ele permeia a sua análise minuciosa da mente da irmã com relatos sobre a sua vida e convívio com a família: as mudanças de cidade, os diferentes trabalhos dos pais, os falecimentos, os passeios (tão amados por Rovana). Eu senti falta de legendas nas inúmeras fotos do livro e acho que teria gostado mais de uma narração linear. Com tantos irmãos e mudanças, eu acabei me perdendo um pouco na linha do tempo. Em certo ponto do livro, os trechos dos diários da irmã ficam um pouco repetitivos; alguns, acredito, desnecessários. Mas eu entendo por que estão no livro: Botelho quer que conheçamos sua irmã intimamente.

Rovana veio para o mundo, sem armas, sem pau nem facão, brigando para sobreviver. Prematura, mal formada, portadora de um mal traiçoeiro, deficiente, limitada, tinha de seu apenas uma inteligência aguda, uma vontade de aço e uma família de ouro.”

Rovana não abandona o otimismo, o amor pela vida e a vontade de lutar por ela. De ser ouvida, resgatada, compreendida. É como se vivesse o tempo todo dentro de sua própria mente e a única forma que se fazia entendida era pela escrita. Como sua mãe dizia, era uma estrangeira no mundo. Rovana, no entanto, teve sorte. Os seus outros dois irmãos portadores da mesma doença nunca chegaram a se desenvolver e a se comunicar como ela. De seu jeito limitado, ela viveu plenamente, sonhando com uma carreira como atriz, um namorado rico e charmoso, uma casa em São Paulo e escrevendo mais do que qualquer pessoa escreve em uma só vida.

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Quanto ao relato de Botelho, acredito que muita gente gostaria de poder fazer o mesmo – eu sei que eu gostaria: ser capaz de escrever uma obra literária contando a vida e as conquistas dos pais, com exímia devoção. Como o autor diz logo no início, a história de Rovana, na verdade, é a história de seus pais, José e Ruth, “dois educadores, dois poetas, duas excelências doutoradas em respeito à pessoa, em amor ao próximo, em devotamento pela família e um pelo outro”.

Ruth Guimarães Botelho merece destaque. A mulher era muito forte e inteligente e teve uma carreira invejável, além de cuidar de nove filhos. Uma intelectual. Ela foi professora, editora, escritora e tradutora:

“Foi nesse período que mamãe produziu algumas de suas melhores traduções, como os contos de Dostoievski e de Alphonse Daudet, ambos do francês. Rotineiramente, produzia textos para o Almanaque do Pensamento. E, rotineiramente, passava a semana em São Paulo, embarcando para Cachoeira às sextas-feiras, à noite, e voltando para a capital na madrugadinha das segundas-feiras.”

A família de Botelho tinha veia artística: pai fotógrafo; irmã mais velha poetisa aos 14; irmã mais nova tradutora, mestranda na França… A veia artística, no entanto, parece vir sempre acompanhada de tragédia.

Entre tristezas e alegrias, Joaquim Maria Botelho imortalizou a história de sua família em O livro de Rovana.

P.S.: Parabéns aos autores Marcelo Maluf e Paula Fábrio pelas indicações ao Prêmio São Paulo de Literatura!

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