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A casa dos espíritos, de Isabel Allende

A casa dos espíritos, de Isabel Allende

Preciso começar essa resenha de A casa dos espíritos, de Isabel Allende, com duas perguntas. Você costuma ler autoras latino-americanas? Você sabe o que é o realismo mágico?

Tirando as brasileiras, eu estou começando agora a ter contato com autoras da América do Sul. Esse, por exemplo, foi meu primeiro livro da Isabel Allende, chilena já consagrada. A casa dos espíritos é a sua obra mais famosa, publicada em 1982.

Ano passado, eu tive o meu primeiro contato com o realismo mágico em Cem anos de solidão, de Gabriel García Márquez, que foi uma das minhas leituras preferidas de 2020. No começo, causa certa estranheza, mas depois que você se acostuma, é um estilo sensacional, emocionante e por vezes até cômico por causa dos absurdos.

Se você gostou de Cem anos de solidão, posso lhe recomendar A casa os espíritos tranquilamente. Um livro me lembrou muito o outro.

O que é realismo mágico?

O realismo mágico, às vezes também chamado de realismo fantástico ou maravilhoso, é uma corrente artística do começo do século XX bastante própria da literatura latino-americana, segundo o site InfoEscola, embora também tenha influenciado escritores europeus como Kafka e Kundera.

A sua principal característica, como o nome já indica, é misturar a realidade à magia. Elementos irreais e bizarros são introduzidos na trama sem nenhuma explicação. Causa estranhamento no leitor, mas para os personagens os acontecimentos fantásticos aparentemente são comuns ou aceitáveis.

Em A casa dos espíritos, por exemplo, publicado no Brasil pela Bertrand (com tradução de Carlos Martins Pereira), há quem nasça com o cabelo verde, o corpo permaneça intacto após anos de morte, um homem é capaz de violentar toda uma região sem punição (embora isso quase soe real por vezes) e espíritos zanzam pela casa.

Uma coisa que influenciou o realismo mágico foi o contexto histórico na América Latina entre os anos 60 e 70. Muitos países sofreram com a ditadura e, pelo movimento literário, os autores podiam criticar e se opor aos regimes com elementos fantásticos.

No caso da obra de Allende, embora se passe em um país fictício da América do Sul, a crítica à ditadura é bastante evidente e explícita. Inclusive, foi publicada em 1982; a ditadura no Chile ainda duraria mais oito anos.

Curiosidade: Quando o golpe militar chileno aconteceu em 1973, o presidente derrubado era primo de segundo grau da Isabel (em alguns lugares li que ele era tio dela)! Ou seja, ela teve contato muito próximo com todos os horrores que aconteceram nessa época e isso é um dos aspectos mais marcantes de A casa dos espíritos.

Sobre A casa dos espíritos

A casa dos espíritos, de Isabel Allende

Nero, o mascote do SLET, com o livro de Isabel Allende, cortesia da Livraria Eureka!

É tão difícil resenhar A casa dos espíritos quanto Cem anos de solidão. Ambos acompanham as tragédias de uma família por décadas, passando por diferentes gerações. Coisas demais acontecem em 400 páginas e qualquer detalhe pode ser spoiler.

Na obra de Allende, uma tragédia une o destino de Esteban Trueba e Clara del Valle. Os dois se casam, mas não poderiam ser mais opostos. Ele é um patriarca extremamente conservador e de gênio horroroso, que nasceu pobre e prometeu que enriqueceria – e assim se sucede. Ela é silenciosa e avoada, uma presença etérea e mística; sabe conversar com os espíritos, mover os objetos com a mente e prever o futuro desde criança.

Clara passou sua infância e entrou na juventude sem ultrapassar os muros de sua casa, num mundo de histórias de encantamento, de silêncios tranquilos, em que o tempo não se marcava pelos relógios nem pelos calendários, e os objetos tinham vida própria, as aparições se sentavam à mesa e falavam com os humanos, o passado e o futuro faziam da mesma coisa, e a realidade do presente era um caleidoscópio de espelhos desordenados em que tudo podia acontecer.”

Os dois formam um casal improvável e logo têm filhos: Blanca e os gêmeos Nicolás e Jaime. Acompanhamos o enriquecimento da família às custas de camponeses na fazenda Las Tres Marías – embora Esteban acredite cegamente que tudo é fruto do seu trabalho por ser um excelente patrão – e o crescimento de seus filhos. Mais para a frente no livro, nasce a neta do casal, que será uma personagem fundamental à trama.

A família vive na capital e viaja regularmente ao campo. As realidades são bastante contrastantes e logo de cara percebemos que essa divisão – entre campo e cidade, pobre e rico, trabalhador e patrão – será ocasionadora de vários conflitos na trama, de disputas políticas a amores proibidos.

Narrações

A obra é narrada ora em terceira pessoa por um narrador aparentemente onisciente, ora em primeira pessoa pelo próprio Esteban Trueba. Muitas das recordações vêm dos diários deixados por Clara, que ela chamava de “cadernos de anotar a vida”.

Essa alternância me causou certo questionamento ao longo do livro, porque muito do que era narrado não foi vivido nem por Esteban, nem por Clara, então comecei a entender que era uma “licença poética” da narração para se aprofundar na vida e nos pensamentos de personagens secundários. E isso é o máximo que eu posso dizer sem dar spoilers, mas à medida que fui lendo me acostumei com o estilo.

Esteban é detestável. Ele tem convicções fortes e um comportamento violento, que provocam diversas das desgraças do livro – inclusive a sua oposição à “ameaça socialista” no país acaba por facilitar o golpe militar. É um personagem extremamente bem desenvolvido e que sofre uma grande desconstrução ao longo do livro a duras custas.

Em poucas horas, o país dividiu-se em dois grupos irreconciliáveis, e a divisão começou a contaminar todas as famílias.

A casa dos espíritos é poético, encantador e devastador. É uma grande crítica social. Ele me deixou arrasada. Há quem diga que é um livro sobre esperança e redenção, mas para mim é sobre fatalidade. A história se repete indefinidamente e não há o que possamos fazer a não ser mantê-la viva.

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Essa resenha é uma parceria com a Livraria Eureka. Visite www.livrariaeureka.com.br e siga também no Instagram: @eurekalivraria!

Sobre o autor

Brenda Bellani

Jornalista/tradutora/leitora.

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