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A coragem de ser imperfeito, de Brené Brown

A coragem de ser imperfeito, de Brené Brown

A coragem de ser imperfeito, livro de 2012 da pesquisadora Brené Brown (com tradução de Joel Macedo), ensina a importância da vulnerabilidade para uma vida plena. Se você é, assim como eu, uma pessoa que não gosta de livros de autoajuda que vendem fórmulas milagrosas, muito menos sem embasamento nenhum, pode ficar seguro de que esse não é um desses livros.

A autora, que ficou mundialmente famosa por causa do seu TED Talk em 2010, “O poder da vulnerabilidade”, tem doutorado em serviço social e conduziu 12 anos de pesquisas na University of Houston que resultaram no livro.

Mas, acima de tudo, Brené é uma contadora de histórias. Ela enriquece a narração com anedotas pessoais, conversas com sua filha, interações com ouvintes de suas palestras e relatos da pesquisa. As 200 páginas passam rapidinho em uma leitura gostosa, cheias de reflexões interessantíssimas.

A partir de uma pesquisa qualitativa com o método de teoria fundamentada e amostragem exaustivamente coletada, em A coragem de ser imperfeito, ela consegue explanar o significado de várias coisas intrínsecas à vivência humana: vulnerabilidade, vergonha, culpa, aceitação e ousadia.

Vergonha X Culpa

Uma das coisas que permeia toda a sua pesquisa e o livro – e das quais eu achei mais interessante – é o quanto vergonha e culpa costumam ser confundidos, mas são sentimentos distintos. Basta perceber nosso diálogo interno e o peso que cada um deles exerce na nossa vida.

Por exemplo, se você decepciona um amigo por um erro tão comum quando esquecer um compromisso, Brené Brown explica:

“Se sua conversa é ‘Que idiota que eu sou. Sou um péssimo amigo’, isso é vergonha. Se, ao contrário, sua conversa interna sobre o atraso for ‘Não acredito que fiz isso. Que coisa horrível de se fazer’, isso é culpa. Quando sentimos vergonha, estamos mais inclinados a nos proteger culpando algo ou alguém, justificando nosso erro, oferecendo uma desculpa esfarrapada ou nos escondendo.”

Ao aprender a diferença, o ideal é transformar os diálogos internos em culpa. Embora também seja um sentimento desagradável, ele é positivo e gera ação. Já a vergonha é negativa e paralisante; para evitá-la, criamos o que Brené chama de “escudos contra a vulnerabilidade”.

Escudos contra a vulnerabilidade

A coragem de ser imperfeito, de Brené Brown: sobre vulnerabilidade

A partir das respostas dos seus entrevistados, a autora chegou a todo um arsenal contra a vulnerabilidade que usamos até sem perceber. Os três principais deles são a alegria como mau presságio, o perfeccionismo e o entorpecimento.

Mas há outros, como a atitude que ela chama de viking ou vítima: a ideia de que o mundo é dividido entre vencedores e perdedores, matar ou deixar ser morto. Apesar de ela ter escrito sobre isso em 2012, esse escudo é forte no nosso presente, quando se fala de “mimimi” e se relativiza ou minimiza a experiência do outro.

Outro escudo extremamente atual é o da superexposição, que, segundo Brené, é uma forma de se proteger da verdadeira vulnerabilidade e que leva à falta de empatia, desconfiança e isolamento.

É importante dizer também que esses comportamentos foram identificados na pesquisa dela tanto em mulheres quanto em homens de 18 a 80 anos. Em diferentes medidas, são ferramentas de defesa presentes na vida de todo mundo, em especial por compartilharmos uma cultura de escassez – nunca ser ou ter o bastante.

“Somos convocados a viver com ousadia cada vez que fazemos escolhas que desafiam o ambiente social de escassez. O oposto de viver em escassez não é cultivar o excesso. Na verdade, excesso e escassez são dois lados da mesma moeda. O oposto de escassez é o suficiente, ou o que eu chamo de plenitude.”

Vulnerabilidade no trabalho, escola e parentalidade

Nos últimos dois capítulos, a autora pega tudo o que ela aprendeu com suas pesquisas e aplica em ambientes de trabalho, escolas e parentalidade para explicar como a vergonha desempenha um papel negativo enorme nos três âmbitos da nossa vida, no profissional, na formação educacional e no pessoal.

Ela diferencia termos importantes que são confundidos, como avaliação de desempenho (que usa da vergonha e comparação como motivação) e feedback de qualidade (que exige vulnerabilidade e promove mudança positiva); ou então encaixar-se (tornar quem você precisa ser para ser aceito) e aceitação (ser aceito por quem você realmente é).

Na parentalidade, então, não existe e nunca vai existir o certo ou errado e você não pode exigir dos filhos algo que não exerce na vida real. O que Brené incentiva é perguntar-se: “Você é o adulto que deseja que seus filhos se tornem um dia?”.

Em nenhum momento ela nega que tudo o que ela ensina é doloroso. Colocar-se vulnerável exige conversas difíceis, estar exposto e enxergar coisas que preferiríamos esconder para o resto da vida. No entanto, é importante normalizar o desconforto, porque faz parte de qualquer aprendizado e crescimento.

Vida plena

A vulnerabilidade está presente em todos os acontecimentos mais importantes da vida, por exemplo, se apaixonar, ser promovido ou tornar-se pai. Não escolhemos senti-la e sim como reagimos a ela. Basicamente, a intenção de Brené Brown é aprender e ensinar a viver plenamente e, para isso, precisamos de vulnerabilidade e ousadia.

O tempo todo ela aponta possíveis soluções e mudanças comportamentais, sem uma resposta mágica. Porque viver não é fácil e nós vamos errar muito. Mas é exatamente isso que precisamos para deixar de lado todos os nossos escudos.

Eu recomendo muito a leitura de A coragem de ser imperfeito. É uma análise do nosso meio e de tudo que nos influencia rotineiramente – as redes sociais, o culto à celebridade, a superexposição, o medo de ser comum, a necessidade de aprovação alheia, a banalização do diagnóstico do narcisismo, a humilhação como motivação e muito mais.

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Essa resenha é uma colaboração com a Livraria Eureka. Visite livrariaeureka.com.br para comprar A coragem de ser imperfeito de Brené Brown.

Sobre o autor

Brenda Bellani

Jornalista/tradutora/leitora.

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