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A paciente silenciosa, de Alex Michaelides

A paciente silenciosa, de Alex Michaelides

Uma personagem central que não fala. Em A paciente silenciosa, de Alex Michaelides, somos levados pela psique humana por um narrador obcecado pelo caso de Alicia Berenson, acusada de assassinato aos 33 anos.

A mulher foi encontrada atônita na sala de casa com o marido, Gabriel, amarrado em uma cadeira e morto a tiros. Ela então é condenada e internada em um hospital psiquiátrico. Desde o dia do assassinato, Alicia nunca mais fala.

Passam-se seis anos e conhecemos o narrador. Theo Faber é psicoterapeuta. Ele acompanha o caso de Alicia nas notícias e algo faz com que ele se interesse em ajudá-la. Quando surge uma vaga de trabalho na clínica em que ela está internada, ele abandona um trabalho certo por uma chance de atender Alicia pessoalmente.

Mas como tratar uma pessoa que se recusa a falar? Há muitas formas de se comunicar além da verbal – nos gestos, expressões faciais, no modo de se vestir e por meios artísticos. E Alicia é pintora. Quem mais preparado para reconhecer e interpretar essas formas de comunicação do que um psicoterapeuta?

Essa é uma sacada muito boa do livro de Michaelides!

Alceste

Depois de acusada e muda, Alicia pinta apenas mais um quadro, que ela intitula de Alceste. No mito grego, a princesa Alceste, filha de Pélias, se oferece para morrer no lugar do amado Admeto.

No quadro realista, um autorretrato, Alicia está nua diante de uma tela em branco, segurando um pincel pingando tinta vermelha. A obra envolvente e misteriosa é uma das coisas que deixa Theo obcecado pelo caso.

Traumas da infância

“A verdadeira motivação [para estudar psicologia] era puramente egoísta. Eu precisava ajudar a mim mesmo. E acho que isso se aplica à maioria das pessoas que lida com saúde mental. Somos atraídos por essa profissão porque nossa cabeça está uma bagunça – estudamos psicologia para curar a nós mesmos. Agora, saber se estamos dispostos a admitir isso já é outra história.”

Ao começar a trabalhar em Grove, Theo deixa bem claro de início que quer ser responsável por Alicia. Todos na clínica a consideram um caso perdido – presa à própria mente e dopada de remédio para controlar o seu comportamento agressivo. Mas ele está determinado.

A narração em primeira pessoa faz com que acompanhemos o ponto de vista de Theo, que, além de parcial, é também sujeita à manipulação. E logo vamos percebendo que ele também tem seus problemas pessoais no passado e no presente. O seu pai era violento e abusivo na sua infância, o que deixou sequelas na vida adulta, e o seu casamento com Kathy não vai tão bem quanto ele gostaria de admitir.

Alicia, por sua vez, presenciou algo horrível na infância e, depois de adulta, era loucamente apaixonada por Gabriel. Embora não fale no presente, o livro intercala a narração de Theo com trechos do diário de Alicia, proporcionando um mergulho na sua mente poucos dias antes do marido morrer.

Também somos apresentados a personagens secundários que ajudam a dar o tom de suspense – o cunhado de Alicia, o gerente da galeria que a representava, um primo. Será que eles têm envolvimento com o assassinato de Gabriel?

Prós e contras de A paciente silenciosa

A paciente silenciosa, de Alex Michaelides

“Eu me lembro do conselho que Ruth me deu quando Kathy e eu nos conhecemos: ‘Escolher um parceiro num relacionamento amoroso é muito parecido com escolher um terapeuta. Temos que nos perguntar se a pessoa vai ser honesta com a gente, capaz de ouvir críticas, reconhecer erros e não prometer o impossível’.”

A paciente silenciosa, uma obra de 2019 publicada no Brasil pela Record e traduzida por Clóvis Marques, é um thriller psicológico excelente. Eu fiquei presa à leitura o tempo todo e não senti nenhuma parte arrastada. Esse é o primeiro livro de Michaelides, nascido no Chipre, e, provavelmente por ser especializado em roteiros cinematográficos, ele criou uma histórica perfeita para um filme de suspense hollywoodiano.

Adoro livros que envolvem psicologia. Essa é uma das minhas partes preferidas de A paciente silenciosa. Como o narrador enfrenta o seu próprio passado e fala sobre traumas de infância, é nítido que o autor fez a sua lição de casa ao pesquisar para escrever sobre a área (pelo menos essa é a sensação que eu tenho como leiga).

No entanto, achei estranho que Theo começa a trabalhar no Grove e ele mesmo escolhe focar em Alicia. Ficava me perguntando se ele não foi contratado para ser psicoterapeuta de todas as pacientes da clínica. Deixarem que lidasse com uma só delas não me parece verossímil e acontece apenas para funcionar na trama.

Outra coisa é que senti falta de uma construção melhor de Gabriel, o marido assassinado. O pouco que sabemos dele vem do diário da esposa e é uma descrição bastante rasa. Não é tão importante para a trama, mesmo assim achei que poderia ser um pouco mais aprofundada.

Acho que são duas coisas que não atrapalham a leitura ou todo o suspense construído em volta do assassinato. Eu adorei a conclusão, achei original e reveladora. Recomendaria A paciente silenciosa tranquilamente.

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Essa resenha é uma parceria com a Livraria Eureka. Visite www.livrariaeureka.com.br e siga também no Instagram: @eurekalivraria!

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Sobre o autor

Brenda Bellani

Jornalista/tradutora/leitora.

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