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A viúva, de Fiona Barton

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Jean perdeu o marido há poucos dias, atropelado por um ônibus quando saíam do supermercado. Após o acidente, jornalistas se aglomeram em sua porta de sua casa nos subúrbios de Londres, onde moravam desde o casamento, para tentar uma entrevista exclusiva com ela. Para a viúva isso não é nenhuma novidade. A única diferença é que agora, sem Glen, ela não tem mais quem mande nela.

Ela se casou jovem e Glen sempre foi o chefe da casa. Aparentemente perfeito, o homem não demorou a se mostrar metódico e autoritário. Para a mídia e o público, ele era um monstro, acusado pela polícia de um crime hediondo. Durante todo o processo de acusação e julgamento e mesmo depois, quando tudo terminou, repórteres de todos os principais jornais não deixavam a porta dos dois e o casal continuou a ser alvo de ataques verbais de repúdio por onde iam. Mesmo assim, Jean permaneceu ao lado do marido, representando o papel de esposa fiel e dedicada.

Mas e agora que ele se foi?

O que se esconde por trás das portas de um lar perfeito?

Publicado pela Editora Intrínseca e traduzido por Alexandre Martins, A viúva é uma ficção inglesa escrita por Fiona Barton, uma jornalista experiente que já trabalhou para o The Daily Mail, The Daily Telegraph e The Mail on Sunday, na Inglaterra. Ela foi responsável pela cobertura do caso da menina Madeleine McCann, desaparecida durante as férias da família em Portugal em 2007. Isto é um fato real importante para a leitura de seu romance: ela já acompanhou a investigação de vários crimes terríveis de perto, inclusive o de Maddie.

A viúva envolve muita coisa intragável sobre o comportamento humano – pornografia, pedofilia, omissão, exposição na internet –, mas não é um livro escrito para chocar. São as coisas que ficam nas entrelinhas que nos deixam com um nó no estômago de incredulidade e nojo.

Com uma história interessante e uma protagonista enigmática, o livro é envolvente do começo ao fim e consegue manter a curiosidade do leitor.

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Os vários personagens

O presente da trama se1passa em 2010, após a morte de Glen, mas a história é recapitulada desde 2006. Cada capítulo começa com o nome de um personagem e uma data. Seguimos uma ordem cronológica de quatro anos atrás até o presente, intercalado com trechos da realidade atual de Jean.

O livro traz a perspectiva de alguns personagens importantes. As partes da viúva são as únicas narradas em primeira pessoa. Acompanhamos também Kate Waters, repórter persuasiva do Daily Post que consegue uma entrevista com a viúva; Bob Sparkes, detetive responsável pela investigação do crime; entre outros, inclusive um capítulo com a perspectiva do marido.

Com certeza há algo de errado com Glen, mas o homem realmente seria capaz de fazer o ato pelo qual o culpam?

Sobre pessoas aparentemente normais

Esta é uma das coisas mais assustadoras de A viúva. Glen era um homem exemplar. Inteligente, esposo dedicado, emprego bom e aparência completamente normal. Entretanto, as investigações conseguem ligá-lo ao local do crime. Será que uma pessoa assim, tão ordinária, seria capaz de atitudes inomináveis? Se ele gostava mesmo de pornô, isso o diferenciaria de todos os outros homens comuns? Quando isso se torna um vício? O que ele tem é autocontrole ou frieza emocional?

Jean, por outro lado, é a representação perfeita de uma mulher submissa e indefesa, que permanece ao lado de um marido sendo acusado de coisas terríveis e acredita em suas justificativas. Seria ela também culpada? O que ela sabe e não está compartilhando?

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O lado assustador da internet

O livro A viúva expõe um lado tenebroso da internet, desde o “submundo” ilegal da pornografia e pedofilia até hábitos que já estão enraizados na vida de muitos: a exposição de informações pessoais e a falsa sensação de que a internet é uma companhia real, usada contra a solidão. Por mais inocente que esses hábitos pareçam ser, sem querer, podem nos expor a pessoas mal-intencionadas e doentias.

“…qualquer um poderia ter olhado as informações dela e as fotos sem precisar solicitar amizade.”

Outra coisa assustadora no livro é ver o passar dos meses e ANOS sem uma resolução – ou sequer pistas – do crime, agravada pelo fato de que a ficção foi baseada em casos reais cobertos pela autora ao longo da sua carreira como jornalista. O detetive Sparkes é o meu personagem preferido e de longe o mais humano, que se vê totalmente envolvido emocionalmente com o caso.

A cobertura da imprensa e Kate, apesar de eficiente e profissional, fizeram me lembrar do livro Vale-Tudo da Notícia sobre os escândalos da mídia inglesa e seus métodos não ortodoxos de conseguir furos e informações.

“Kate sempre ficara maravilhada com o poder das entrevistas. ‘Quando se está falando com alguém real – uma pessoa sem um ego ou qualquer coisa a vender -, pode acontecer uma total exposição de uma pessoa a outra, uma intimidade intensa que se sobrepõe a tudo e a todos’, dissera a alguém certa vez.”

(ATENÇÃO: a seguir, comentarei minha opinião sobre o final do livro. O trecho não contém nenhum spoiler explícito sobre a trama, mas se você não gosta de saber absolutamente nada sobre finais de livros, aconselho a não ler o trecho.)

Eu esperava um final mais revelador ou inesperado, mas a trama seguiu um rumo seguro e previsível. Não é um defeito, na verdade. O desfecho faz total sentido e tem realmente uma conclusão, o que me agrada bastante. No entanto, eu esperava ser surpreendida e isso não aconteceu.

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Sobre o autor

Brenda Bellani

3 Comentários

  • Ai, Brenda, pois é, faltou a tal da surpresa que a gente esperava, conforme comentamos no insta… mas é bem o que você falou: não é um defeito da obra, só não causou aquele “nooossaa” que a própria sinopse parecia sugerir. Legal saber que a autora se valeu de experiências reais para criar a obra, e realmente é chocante pensar que há casos que simplesmente se arrastam sem chegar num desfecho e/ou este pode demorar anos para acontecer…
    Arrasou nas fotos do post! Amei 🙂
    beijo!

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