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Antes que eu vá, de Lauren Oliver

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Se você morresse hoje ao final do dia, do que se lembraria? Do que se arrependeria? O que teria feito diferente? O que repetiria para sempre? O que teria dito às pessoas que você ama? Quais memórias ficariam mais marcadas para elas sobre você? O que diriam sobre você? Você prestou atenção em todos os detalhes deste dia? Você o aproveitou? Ou foi só mais um dia automático, rotineiro e mecânico? Qual dia você gostaria de repetir para sempre?

Antes que eu vá, de Lauren Oliver, fez pulular todas estas questões em minha mente.

Publicado no Brasil pela Editora Intrínseca e traduzido do inglês por Rita Sussekind, o romance americano é uma lição de vida em 347 páginas. O acontecimento extraordinário na vida de Sam, a protagonista, apesar de trágico, ensina a importância de cada um dos nossos atos e palavras, tanto em nossas vidas quanto na dos outros – e que tipo de imagem você gostaria de deixar antes de partir.

“É impressionante como as coisas mudam com facilidade, como é fácil começar na mesma estrada que sempre pega e parar em um lugar novo. Um passo em falso, uma pausa, um desvio, e você acaba com novos amigos, uma reputação ruim, um namorado, ou um término de namoro. Nunca me ocorreu antes; nunca pude enxergar. E me faz sentir, estranhamente, como se todas essas possibilidades existissem simultaneamente, como se casa momento que vivemos contivesse milhares de outros momentos diferentes.”

Um ensaio sobre a popularidade

Sam tem 17 anos e é popular. Isto significa que ela pode fazer o que quiser sem nenhuma consequência. Como colar nas provas, criar boatos sobre os outros e flertar descaradamente com o professor de matemática no meio da sala de aula. Ela tem três amigas lindas, ricas e invejáveis – Lindsay, Elody e Ally -, e namora Rob, um dos caras mais cobiçados da escola. Resumidamente, a vida é fácil para Samantha Emily Kingston.

“A questão é: nós podemos fazer coisas desse tipo. Sabe por quê? Porque somos populares. E somos populares porque podemos sair ilesas de tudo. Então é um círculo vicioso.”

Mas nem sempre foi assim. No fundamental, quando ainda era amiga de Kent, um garoto esquisito do colégio que é apaixonado por ela até hoje, Sam foi alvo de bullying e os meninos não se interessavam por ela. Foi só quando Lindsay resolveu virar amiga dela, que Sam tornou-se automaticamente popular graças à companhia e aceitação da garota mais popular da escola. Outros alunos não foram tão afortunados e servem de motivo de chacota, boatos e maldades o tempo todo – normalmente, praticadas pelo quarteto inseparável. Antes que eu vá é quase um ensaio sobre popularidade. Sam nem sabe por que ela maltrata ou odeia algumas pessoas da escola. Não consegue se lembrar dos motivos – se é só porque são esquisitos ou se é porque sua melhor amiga os odeia.

O Dia do Cupido

Samantha acorda no dia 12 de fevereiro. O Dia do Cupido é um dos mais esperados por ela e suas amigas, sem contar que é sexta-feira. Na escola, os estudantes enviam rosas entre eles e o número de botões recebidos é como um termômetro de popularidade – Lindsay sempre ganha. No geral, é um dia como qualquer um, as quatro dominando a “selva escolar” (quase como em Meninas Malvadas), com uma única exceção: os pais de Rob vão viajar e ele a chamou para passar a noite com ele pela primeira vez. À tarde, como em todas as sextas-feiras, elas se reúnem na mansão de Allly; e à noite, resolvem ir à festa do esquisitão do Kent (que, para a surpresa delas, tem uma casa maior ainda).

Tudo seria perfeitamente normal – talvez não tenha seguido exatamente o rumo que Sam esperava, mas um dia comum –, não fosse pela sua morte.

Ela e as amigas sofrem um acidente de carro de madrugada. E ao invés de ir para o além (o céu, o outro lado, call it what you want), Sam acorda em sua cama com o despertador tocando. São 6h50 da manhã do dia 12 de fevereiro, sexta-feira. De novo.

Em looping

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Presa no mesmo dia após a morte, forçada a revivê-lo, Sam começa a notar como todas as suas ações tinham consequências até então despercebidas, desde sair de manhã sem dar atenção à sua irmãzinha Izzy até o bullying praticado diariamente contra Juliet Sykes na escola (a quem Lindsay apelidou de Psicótica). O mesmo dia poderia seguir por infinitos caminhos diferentes, dependendo de suas escolhas, e Sam percebe que poderia fazer muito melhor. E ser muito melhor.

“…como tudo é complexo e conectado, tudo entrelaçado como se fosse uma rede enorme e invisível –, e em como, às vezes,você pode achar que está fazendo a coisa certa, mas na verdade está fazendo algo terrível e vice-versa.”

É bem interessante seguir os aprendizados lentos de Sam, porque Antes que eu vá é narrado em primeira pessoa não pela vítima do bullying, o que é mais comum na literatura juvenil norte-americana, e nem também pelo bully principal, e sim por uma das pessoas que entram na onda para pertencer, para fazer parte do grupo popular, sem se questionar quanto às motivações e aos efeitos. É também uma visão mais humana e menos extremista e maniqueísta, porque, à medida que Sam vai concluindo que Lindsay é uma pessoa má e mentirosa, ela também sente uma afeição muito grande pela menina que a acolheu como irmã; é uma amiga leal e verdadeira e ela a ama, independente dos defeitos.

O título é manjado e a fórmula do dia em looping também não é nada nova (só de cabeça me lembro de um episódio de Supernatural e da lição do pai no filme Questão de Tempo; a própria narradora cita Feitiço do Tempo). Mesmo assim, o livro de Lauren Oliver funciona muito bem e passa exatamente o tipo de mensagem que um dia repetido deveria passar: você pode fazer melhor sempre, se imaginar que hoje é o seu último dia.

Adaptação para o cinema

A adaptação de Antes que eu vá, dirigida por Ry Russo-Young, vai estrear nos cinemas em 3 de março de 2017, e tem tudo para ser um filme emocionante! (Mas, como sempre, pelo trailer já dá para perceber várias alterações na história do livro.)

Trechos de Antes que eu vá

“Não devia ter matado a aula de inglês, isso me deu muito tempo para pensar. E pensar não faz bem a ninguém, independentemente do que digam pais, professores e nerds do clube de ciência.”

“Ao sair do ginásio penso em como as pessoas são estranhas. Você pode vê-las todos os dias – e pensar que as conhece – e depois descobrir que não conhece nada.”

“…parece que estou presa em uma enorme teia, e para todos os lados que olho vejo que estou presa a alguém, todos nós tentando escapulir da mesma rede.”

“E acho que é quando começo a me tocar: a questão é, você faz o que pode.”

“Até então é um bom dia – um dos melhores. Quase perfeito, para falar a verdade, apesar de nada de especial ter acontecido. Acho que provavelmente tive muitos dias como este. Mas, de alguma forma, nunca é desses que você se lembra. Agora isso me parece errado. Penso em ter ficado deitada na casa de Ally no escuro, pensando se já tinha passado um dia digno de ser revivido. Ao que me parece, reviver o de hoje diversas vezes não seria tão ruim…”

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P.S.: Um obrigado especial à minha priminha Lorena por servir de modelo para a recriação da arte do livro. Ela se parece muito com a Sam da capa, né? <3

Sobre o autor

Brenda Bellani

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