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As garotas, de Emma Cline

As garotas, Emma Cline 1

As garotas, livro de estreia de Emma Cline, se passa nos anos 60. Publicada pela Editora Intrínseca e traduzida por Sergio Flaskman, a obra acompanha a vida de Evie no presente, já uma senhora, e a sua narração de seu passado obscuro, recordando o ano de sua adolescência em que fez parte de um grupo que mais tarde ficaria conhecido por um crime bárbaro.

Evie vive na Califórnia com sua mãe, que acabou de ser largada pelo marido por uma mulher muito mais jovem, após sustentá-lo o casamento todo com o dinheiro que herdou de sua mãe, uma estrela de Hollywood. Aos 14 anos, além de todos os dramas do início da adolescência – espinhas, paixonite pelo irmão da melhor amiga, insegurança, etc. –, Evie se sente negligenciada e esquecida. O pai não se importa com ela e a mãe está aprendendo a lidar com sua independência nova e instável; a menina passa a maior parte dos seus dias sozinha. Logo, ela será mandada para um internato de garotas para cursar o ensino médio.

Sobre persuasão e a sensação de pertencer

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Não é de se espantar que, quando ela conhece Suzanne e o seu grupo de meninas devotas a Russell, Evie sinta-se tão impelida a unir-se a eles. Pela primeira vez, ela consegue não só pertencer a algo, mas também sentir que alguém a quer por perto e precisa dela. As garotas – Helen, Donna e Roos – tinham um propósito que poderia ser dela também e um passado que coincidia com o seu em alguns aspectos. Mas, principalmente, porque ela se encanta por Suzanne, que parece ter uma força de atração anormal. Evie vê nela uma irmã, uma mãe, uma amiga, uma paixão, uma inspiração.

“Suzanne e as outras garotas tinham perdido a capacidade de fazer certos julgamentos, a musculatura sem uso de seus egos ficando flácida e inútil. Já fazia tanto tempo desde que uma delas tinha vivido em um mundo onde o certo e o errado existiam em qualquer forma real.”

No centro de tudo, está Russell. Um homem de uns trinta e poucos anos que é um messias para o grupo. O personagem de Emma Cline foi amplamente baseado em Charles Manson e a sua seita. Russell é megalomaníaco, manipulador, persuasivo e ensimesmado.

Mas, acima de tudo, assim como todo bom vigarista, ele sabia ler as pessoas – qualidade que lhe proporcionou a posição a qual assumiu com tanta desenvoltura. Ele sabia identificar os indivíduos – principalmente jovens mulheres – solitários e carentes, aqueles necessitados de atenção, propósito e carinho. Estar com ele era uma graça e um privilégio.

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“Ele tinha essa capacidade. De mudar a si próprio para se ajustar a outra pessoa, como água assumindo a forma de qualquer recipiente em que é despejada.”

Evie narra a história em primeira pessoa pelo olhar de integrante e de espectador. Aos 14 anos, ela era muito jovem e inocente para ser um membro ativo e influente do grupo. Acabou por fazer parte da seita por carência, necessidade de atenção e aceitação. Facilmente ludibriada, ela acreditava em tudo que Suzanne dizia e faria qualquer coisa para que a garota gostasse dela, a admirasse.

O rancho foi a salvação de Evie e ao mesmo tempo a sua perdição.

O rancho e a necessidade de fama de Russell

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Todos viviam abarrotados em um rancho caindo aos pedaços, lotado de entulho, roubando comida estragada aqui e ali para sobreviver capengamente. Usava-se muitas drogas e acreditavam no desprendimento material. Tinham tarefas diversas, desde preparar as refeições até alimentar as lhamas do rancho. E quando Russell resolvia pregar falar, tocar seu violão e cantar, todos paravam para ouvir.

Russell gostava de pessoas famosas ou remotamente ligadas à fama – Evie, neta de uma atriz, foi um presente de Donna à seita. Uma delas era Mitch, um músico premiado que estava mexendo seus pauzinhos para conseguir um contrato para Russell. Ele precisava que o mundo ouvisse o que ele tinha a dizer.

“Eu ficava à espera de que me dissessem o que eu tinha de bom. E mais tarde me perguntei se não era por isso que no rancho tinha tantas mulheres a mais do que homens. Todo aquele tempo que eu gastara me preparando, os artigos que me ensinavam que a vida era, na verdade, só uma sala de espera até que alguém reparasse em você – os rapazes haviam gastado esse tempo tornando-se eles mesmos.”

Levei alguns capítulos iniciais para me acostumar com o estilo de Cline, mas eu gostei bastante do livro. Talvez ela pudesse ter introduzido Evie ao grupo um pouco antes apenas. Fora isso, a sensação de tragédia eminente foi o que mais me prendeu à obra e também a curiosidade de entender o papel de Evie no ocorrido.

A autora criou personagens possíveis e tangíveis, “humanizando” o caso real de Manson; quando podemos visualizar as pessoas e suas personalidades, fica mais fácil entender porque as coisas aconteceram, mesmo que seja só na ficção. Eu destaco Suzanne, uma força diabólica na trama, extremamente bem-construída.

Trechos da obra

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“Pobres garotas. O mundo as engorda com a promessa de amor. Como precisam desesperadamente dele, e quão pouco a maioria delas receberá. As músicas pop melosas, os vestidos que os catálogos descrevem usando palavras como “pôr do sol” e “Paris”. E depois esses sonhos lhes são tirados com tanta violência; a mãe arrancando os botões das calças jeans, ninguém olhando para o homem que grita com a namorada no ônibus.”

“A sociedade era cheia de gente quadrada, Russell dizia para nós, pessoas paralisadas sob o poder de interesses corporativos e dóceis como chimpanzés de laboratório dopados. Nós do rancho funcionávamos em um outro nível, lutando contra aquela chuva de infelicidade, e qual era o problema se você tivesse que manipular pessoas quadradas para alcançar objetivos maiores, mundos maiores?”

“A equação me empolgava. Você podia ser bonita, podia ser desejada, e isso podia torná-la valiosa. Eu apreciava a organização desse comércio.”

“Eu não via nada de familiar na velocidade com que Russell os convencia a entregar-lhe suas posses, colocando-os numa posição difícil, de forma que a generosidade deles virava um teatrinho forçado. Eles entregavam os documentos de propriedade dos carros, os talões de cheque, certa vez até uma aliança de ouro, com o alívio aturdido e exausto de uma pessoa que está se afogando e finalmente se entrega ao puxão da maré. Eu era entretida por suas tristes histórias, ao mesmo tempo perturbadoras e banais. Queixas de pais malévolos e mães cruéis, uma similaridade com as histórias que fazia todos nós nos sentirmos vítimas da mesma conspiração.”

“Por que relacionamentos não podiam ser recíprocos, o interesse de ambas as pessoas crescendo de modo estável e na mesma proporção?”

“Embora eu já devesse saber que, quando homens dizem para você tomar cuidado, muitas vezes estão se baseando no filme sinistro que passa em seus próprios cérebros. Algum devaneio violento os impelindo a fazer exortações culpadas para que você ‘volte para casa em segurança’.”

Sobre o autor

Brenda Bellani

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