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Até que a culpa nos separe, de Liane Moriarty

Até que a culpa nos separe 1

Este é o quarto livro que eu leio de Liane Moriarty e eu já posso dizer que sou fã. Até que a culpa nos separe, traduzido por Julia Sobral Campos, é um lançamento da Editora Intrínseca. Basicamente, o livro tem uma narrativa bem similar a de O segredo do meu marido e Pequenas grandes mentiras (o meu preferido da autora até agora).

Acontece algo muito sério, mas não sabemos exatamente o que; nós vamos acompanhando os personagens no presente, lidando com as consequências do ocorrido, enquanto descobrimos bem lentamente a sequência de infortúnios do dia fatídico em uma série de flashbacks.

Um dia comum

Em Até que a culpa nos separe, somos apresentados, capítulo a capítulo, aos personagens da história no presente. Logo de cara, sabemos que todos eles estão sofrendo de culpa, cada um à sua medida e intensidade, por algo que aconteceu em uma tarde fatídica que ficou conhecida entre eles como o “Dia do Churrasco”.

Era uma tarde que tinha tudo para ser comum, mas algo mudou o rumo da vida de todos eles: dos três casais – Clementine e Sam, Érica e Oliver, Tiffany e Vid – e das três crianças – Holly, Ruby e Dakota (e do vizinho idoso e rabugento, Harry).

Érica e Oliver planejavam receber Clementine e Oliver em casa para fazer uma proposta importante; mas acabaram todos sendo convidados para um churrasco no vizinho. Vid e Tiffany são um casal peculiar – ele, fanfarrão, e ela, super sexy. Os dois moram em uma mansão cinematográfica e é nela que todos se reúnem e se embebedam durante o churrasco. É aí que tudo começa…

Narrado em terceira pessoa, nós acompanhamos o ponto de vista de quase todos os personagens. Cada um deles é tão bem construído que, se eu descrevê-los aqui, vou acabar dando spoilers.

Tiffany, por exemplo, tem um segredo sobre o seu passado; a mãe de Érica tem uma doença mental muito séria; Érica e Oliver têm um pedido importante para fazer a Clementine; e muitos outros detalhes da trama que são revelados bem aos poucos.

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Sobre amizades forçadas e o preço do descuido

Clementine é violoncelista profissional e Sam é publicitário; juntos, formam um casal jovem, bonito e moderno – mas desorganizado. Eles têm duas filhas adoráveis, Holy, de cinco anos, e Ruby, de três.

Érica é o extremo oposto de Clementine: totalmente metódica, organizada, objetiva e até obssessiva-compulsiva. Por incrível que pareça, ela encontrou um marido igualzinho a ela. Érica e Oliver tiveram infâncias não convencionais de uma forma negativa, ambos sofreram negligência de pais doentes.

“Érika tinha total consciência de que alguns dos seus comportamentos podiam ser classificados como obsessivo-compulsivos.”

Érica e Clementine são amigas desde a escola. A mãe de Clementine é assistente social e logo de cara identificou que Érica era quem mais precisava da amizade da filha. Ela foi praticamente adotada pela família de Clementine, com quem passou a maior parte da sua infância e adolescência, enquanto a situação em sua casa era completamente intolerável.

Apesar de serem amigas desde sempre, Clementine não consegue deixar de pensar que a amizade com Érica foi forçada, uma forma de fazer a vontade da mãe e de tentar ser tão boa e altruísta quanto ela. E isto não passa despercebido por Érica, que se sente como um caso de caridade – como se Clementine fosse forçada a ser sua amiga.

Acho esta parte bem interessante. Parece-me comum termos amigos de longa data que são tão diferentes da gente que às vezes chega até a irritar, mas que nós amamos muito.

…na verdade, ‘tóxica’ era uma descrição precisa do que Clementine sentia tantas vezes na presença de Érika: a enorme irritação que lhe demandava muito esforço para combater e esconder, a decepção consigo mesma, porque Érika não era má, cruel nem burra, era apenas irritante, e a reação de Clementine àquilo era totalmente desproporcional, portanto, a envergonhava e frustrava.”

Além de discutir as amizades de infância, Moriarty, como sempre, trata de temas muito curiosos e instigantes, como, por exemplo, as tragédias que podem acontecer em questão de segundos. Todos estamos sujeitos a elas! E, quando por infortúnio acontecem, a quem devemos culpar? O que acontece quando um pequeno descuido ou desatenção tem consequências desastrosas? É possível se perdoar?

Outro tema tratado é o transtorno do estresse pós-traumático, as suas causas e sintomas. Eles podem ser identificados na aftermath de qualquer tipo de acidente ou susto – não só na de situações extremas como o vivido por veteranos de guerra e sobreviventes de ataques terroristas.

Revelações a conta-gotas

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A fórmula de Moriarty, neste livro, funciona e não funciona ao mesmo tempo. A autora australiana com certeza sabe prender o leitor do início ao fim, revelando os inúmeros segredos da trama em dose homeopática. Este é o aspecto que eu mais gosto nas obras da Moriarty. Ela consegue lidar com uma série de informações e cliffhangers.

No entanto, neste caso específico, senti como se a história pudesse ter sido desenvolvida mais rápido, sem necessidade de tanta enrolação – algo inédito para mim com os livros da autora.

Sobre o autor

Brenda Bellani

2 Comentários

  • Brenda! Adorei sua resenha 🙂 Depois que eu li “Pequenas grandes mentiras” fiquei impressionada com a escrita da autora e quero sim ler os demais livros dela 🙂 Quando eu vi esse lançamento fiquei mais curiosa ainda, rs … Gostei muito da sua sinceridade no final! Bjos

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