Eu não recomendo Livros

Bem-vindo à vida real, de Christian McKay Heidicker

Jaxon é um adolescente fora de forma e viciado em games. Ele mora em Salt Lake City, nos EUA, com o pai e a madrasta, que é apenas poucos anos mais velha que ele e bitolada em exercícios e alimentação saudável. Acho que nem precisa dizer que os dois não se dão muito bem. Numa tarde, para tirá-lo um pouco de dentro do quarto, ela e o marido forçam Jaxon a ir a um posto para lavar o carro da família. A contragosto, ele sai de casa. O que ele menos esperava era conhecer uma garota bonita, interessante e que ri de suas piadas no posto. Mas é o que acontece. Mais do que isso, Serena aceita jantar com ele em quatro dias. Só que a menina não tem celular, nem Facebook, toda a garantia de que o encontro realmente acontecerá são o horário e o local combinados entre eles.

Ao chegar em casa, Jaxon descobre que o melhor dia de sua vida está prestes a se tornar o pior: o pai e a madrasta contataram uma clínica de reabilitação para viciados em games para buscá-lo e interná-lo. E é assim que ele vai parar na Vídeo Horizontes.

Jogo da vida

Bem-vindo à vida real, de Christian McKay Heidicker, é um dos lançamentos young adult da Editora Intrínseca, traduzido por Glenda d’Oliveira.

Dentro da clínica, Jaxon passa a ser Miles Prower e se une a uma das três guildas do local, os Fury Birds, formada por Fezzik, o líder gigantesco e amigável; Meeki, uma asiática mal humorada e lésbica; Aurora, uma menina etérea, tímida, de cabelos brancos; Sopa, um pré-adolescente que imediatamente vira a sombra de Miles, atendendo a todas as suas vontades; e Zxzord, que foi internado junto com Miles e provavelmente é viciado em heroína.

A Vídeo Horizontes utiliza-se de métodos similares a jogos para reabilitar seus internos, mas com atividades que ajudam a ganhar habilidades socais e hábitos saudáveis. Cada atividade completada com sucesso concede pontos à pessoa. Comer salada no almoço = 1.000 pontos; concluir uma aula de exercício = 10.000; vencer uma competição = 250.000. Quem conseguir completar um milhão pode deixar a clínica. Com os dias contados para o seu jantar com Serena, Miles quer atingir algo inédito na Vídeo Horizontes: conquistar todos os pontos necessários em quatro dias e sair a tempo de ir ao primeiro encontro da sua vida. Para isso, ele precisa não só participar das atividades, como também vencer todas elas.

Sobre referências a games e lições de moral não aprendidas

O livro é totalmente recheado de referências a games, de Zelda a World of Warcraft e League of Legends. O método “gamificado” da clínica é um prato cheio para as piadas e brincadeiras com os jogos, como se o pessoal internado estivesse vivendo em um game na vida real. Miles com certeza acredita estar em um jogo, passando por fases e chefões para resgatar a sua princesa. Além de romantizar Serena, o menino cria uma realidade paralela, como se os dois já fossem um casal, simplesmente porque a menina riu de suas piadas e não o rejeitou logo de cara, como costuma acontecer com todas as garotas.

“-Se pensarem um pouco mais a respeito, os jogos só abordam a parte inicial dos relacionamentos, não é? Resgatando a princesa do castelo e tudo o mais.”

Como de costume, há uma razão para Miles/Jaxon ser viciado em videogames e jogos virtuais, assim como todos os demais integrantes da guilda, que é revelada aos poucos. Miles tem diversas oportunidades de melhorar durante a sua estadia na clínica, de se conectar com outras pessoas, fazer amizades “na vida real”, emagrecer e adquirir novos hábitos artísticos e saudáveis. No entanto, o garoto não está interessado em nada disso – e ele não mede esforços para conseguir atingir o seu objetivo, mesmo que isto signifique trapacear, mentir e abusar da boa vontade alheia.

Trama insossa

Eu pedi este livro de cortesia em abril porque eu gosto bastante dos livros young adult lançados pela Intrínseca, mas estava com receio de não achar tanta graça por não ser interada no mundo dos games. Com certeza, este livro é bem mais indicado para as pessoas que entenderiam todas as referências do livro, o que não é o meu caso. Entretanto, acho que isso não atrapalhou a minha leitura. O que me incomodou mesmo em Bem-vindo à vida real foi a trama óbvia e o narrador mesquinho e infantil.

O livro segue um modelo padrão de um protagonista totalmente isolado e imaturo que tem a chance de crescer ao longo dos acontecimentos. Mesmo assim, neste aspecto, até que a trama chega a surpreender um pouco devido à relutância de Miles em melhorar. Mas isso atrapalha um pouco também, porque o livro tem personagens carismáticos, especialmente Fezzik, Aurora e Sopa, mas achei que eles poderiam ter sido melhor explorados, caso Miles estivesse realmente disposto a conhecê-los. Tudo é resultado da infantilidade e despreparo do protagonista à vida real. [SPOILER] O que faz o final ser realmente irônico: Miles acaba o livro em um encontro, mas não tem nada de romântico. [FIM DO SPOILER]

À medida que o livro vai chegando ao clímax, tive a impressão de que o autor perdeu um pouco o controle da trama, sem saber muito bem o que fazer com seus personagens, deixando-me com a sensação de pontas soltas.

Bem-vindo à vida real não me conquistou. No entanto, eu o recomendaria às pessoas que gostam e entendem de videogames e jogos online.

5 romances young adult da Editora Intrínseca que eu recomendaria:

  1. A culpa é das estrelas, de John Green;
  2. Para todos os garotos que eu já amei, de Jenny Han;
  3. Antes que eu vá, de Lauren Oliver;
  4. Simon vs. a agenda homo sapiens, de Becky Albertally;
  5. Selva de gafanhotos, de Andrew Smith.

Sobre o autor

Brenda Bellani

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