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Como conseguir mais tempo para ler?, por Luma Kimura

Vou fazer uma confissão para vocês, quando a Brenda me convidou para escrever o guest post deste mês quase tive um surto de ansiedade. Ao mesmo tempo em que me senti super honrada com o convite, bateu o medão de não estar à altura do SLET, de apostar em algum assunto que poderia até ser mais intrigante, mas sobre o qual eu não tivesse muito conhecimento, e acabar falando alguma besteira.

Decidi que seria mais tranquilo escrever algo sobre o qual eu tivesse domínio, queria manter o assunto dentro da temática dos livros, considerei que perguntas que sempre recebo nas redes sociais podem dar uma boa ideia do que as pessoas têm curiosidade em saber. Então, por que não aproveitar a oportunidade para tentar responder a uma das perguntas mais frequentes, não é mesmo?

Deixa eu começar com uma pequena introdução para aqueles que não me conhecem e não acompanham minhas redes sociais: eu sou uma leitora voraz. Apenas como parâmetro: minha média nos últimos 5 anos é de mais ou menos 10 livros de aproximadamente 350 páginas cada por mês. Vejam bem, não estou dizendo que eu sou uma coisa de outro mundo (conheço pessoas que lêem muito mais e/ou muito melhor), mas também não vou fingir que não noto que estes números causam certa impressão.

Com bastante frequência as pessoas me questionam sobre meus hábitos de leitura, perguntam o “segredo” para conseguir ler tanto, pedem dicas e sugestões.

Lista de leituras concluídas em fevereiro de 2017. (Fonte: @lumakimura)30

Não vou me alongar em dicas gerais, até porque a Nádiaescreveu um ótimo post sobre isso aqui mesmo no SLET, vou me concentrar no que tenho percebido ser a principal queixa das pessoas: não ter tempo para ler. Minha proposta é compartilhar com vocês a minha experiência e o processo pelo qual passei para organizar o meu tempo e com isso, quem sabe, inspirar aqueles que procuram o “segredo” para conseguir ler mais.

E antes de criar muitas expectativas, vamos ser realistas e deixar uma coisa bem clara: não existe uma fórmula mágica, um truque que funcione com um simples estalar de dedos. O que existe é uma boa organização do tempo e isso implica em autoconhecimento e escolha, foco e concentração, criar hábitos e muita força de vontade.

Anos atrás fui voluntária em um experimento sobre gerenciamento do tempo para ajudar um amigo em um trabalho para a faculdade. Minha tarefa era simples (embora na prática tenha se mostrado muito mais difícil do que parecia): registrar o horário de início e término de todas as minhas atividades cotidianas durante um mês e no final contabilizar quanto tempo foi dedicado a diferentes áreas da vida.

Não sei exatamente como meu amigo usou os dados que passei para ele, mas sei que quando eu mesma fui dar uma olhada naquelas planilhas e gráficos levei um susto. Você já parou para pensar em quanto do seu tempo diário simplesmente escorre para o limbo, sem que você ao menos se dê conta disso, mesmo que sua rotina seja uma correria desvairada e você tenha a impressão de que não pára nunca?

Se você tiver a chance de encarar um experimento como este, eu recomendo – existem ótimos apps de celular para este fim que agilizam muito a tarefa e os resultados podem ser surpreendentes e esclarecedores. Mas se não quiser ou não tiver condições, não há problemas, o ponto aqui é outro: conhecer – de verdade – sua própria rotina.

Pense no seu “tempo livre”.

Não estou falando de horas de folga habituais, horários de almoço, feriados ou tardes preguiçosas de domingo, falo daquele tempo na fila do banco ou na sala de espera do consultório médico, do trânsito, do navegar infinito pelos canais da TV (ou pelo catálogo da Netflix) quando a gente se perde em opções e acaba não assistindo nada porque já gastamos tempo demais apenas nisso, daquela olhadinha rápida no Facebook que se transforma em horas enquanto somos hipnotizados e induzidos a descer a barra de rolagem para o infinito e além, stalkeando aquelas pessoas que, sejamos sinceros, não fazem diferença nenhuma nas nossas vidas (sério que o mimimi de todos esses “amigos” da sua lista é relevante para você?).

TBR Jar (Fonte: @lumakimura)

Outra pergunta que ouço muito é “quanto tempo por dia reservo para ler”. Para muita gente é justamente o que funciona e se você tiver condições, estabelecer esse tipo de meta ajuda muito! Eu não faço isso. Se tiver que pensar em horário marcado para ler, estamos na mesma situação, eu também não tenho tempo. O que faço é ter sempre um livro comigo, aproveito todo e qualquer minuto disponível para ler. Pode não parecer muita coisa, mas pensa comigo, quase ninguém tem períodos de uma ou duas horas sobrando, mas todo mundo tem aquelas lacunas de 10 minutos ao longo do dia. Se paro para ler nesses 10 minutos, umas 3 vezes no dia, olha só, já tenho meia hora aí.

Sim, eu sei. Ler assim picadinho não é a mesma coisa. Eu me considero sortuda porque para mim é natural, consigo focar muito bem a minha atenção na leitura mesmo que o mundo esteja afundando ao meu redor e fazer valer aqueles 5 minutinhos. Há um pouco de treino nisso (de qualquer maneira tente, não custa!), mas não funciona para todo mundo e não é mais do que um ponto de partida.

Pense nas suas prioridades.

Ninguém tem tempo para tudo o que quer fazer. Sim, eu leio muito, mas também sou apaixonada por cinema e gostaria de ter tempo para assistir mais filmes. Na maioria das vezes escolho ler porque é o que quero, conheço minhas vontades, portanto fico confortável com isso, elimino a ansidade causada pelo pensamento de que “eu deveria estar fazendo outra coisa” e a leitura – ou qualquer outra atividade – rende melhor. Tudo é questão de escolha, optar por um caminho em detrimento de outro é inevitável, a questão é descobrir se as suas escolhas são justificadas e estão de acordo com os seus desejos ou se é apenas um hábito inconsciente que você mantém sei-lá-porquê.

Pare de procrastinar.

Ok, citar procrastinação é golpe baixo, pior ainda porque não tenho nenhuma dica tiro-e-queda para resolver o problema. Houve um tempo em que eu me considerava a rainha da procrastinação e sei que dizer “pare com isso” é o mesmo que nada, mas estou aqui mencionando o assunto porque não poderia deixar de fora o aspecto que é, em 90% dos casos, a base dos problemas de organização pessoal. Não tem jeito, é arregaçar as mangas e brigar consigo mesmo, facear não só a procrastinação da leitura em si, mas de todas as outras tarefas que acabam se estendendo demais por causa da enrolação.

Se ainda cabe uma dica extra:

Dê uma chance às novas tecnologias.

Sou como a maioria dos bookaholics (com o plus de ser uma apaixonada pelo “vintage”), os livros físicos impressos ocupam o lugar de destaque no meu coração. Torci bastante o nariz para os ebooks e os audiobooks durante muito tempo, mas me rendi quando descobri as possibilidades que eles podem nos proporcionar.

Fonte: @lumakimura (Instagram)

O Kindle fica sempre na minha bolsa, carrego para todo lado, é perfeito para aqueles 10 minutos “de folga” inesperados, levo comigo centenas de títulos pelo peso de um livro de bolso. Se um e-reader não é uma opção, uma alternativa são os apps de leitura para celular, existem zilhões de opções para todos os gostos e também cumprem muito bem a tarefa.

Os audiobooks (e os aplicativos text-to-speech) têm sido meus companheiros durante boa parte do dia e é graças a eles que não dependo apenas do “tempo livre” para fazer minhas leituras (ouviduras?) avançarem. Quanto do seu dia é dedicado a tarefas mecânicas, aquelas que você não pode ignorar mas nem precisa pensar para realizar? Gosto de “ouvir livros” quando estou fazendo faxina ou cuidando dos afazeres domésticos, durante uma séries de exercícios físicos, fazendo as unhas ou a maquiagem, brincando com os livros de colorir… praticamente qualquer atividade que não exige, necessariamente, um raciocínio focado.

É claro que cada caso é um caso. Cada um tem sua vida, sua rotina, suas obrigações, seu ritmo, sua disposição. A dica de ouro, aquela mágica que realmente vai funcionar é conhecer a si mesmo, saber o que você quer, estar confortável com suas escolhas e concentrar todos os esforços em superar aquilo que te desvia do objetivo. Ao menos até que o hábito esteja enraizado e a paixão te pegue de jeito, porque daí, amigos e amigas, o esforço desaparece, ler muitas páginas por dia se transforma em uma parte natural do nosso dia, às vezes até uma necessidade que não conseguimos ignorar.


Luma Kimura, Indaiatuba/SP. Especialista em TI tentando conciliar a profissão digital com a preferência pelas tecnologias analógicas e arcaicas. Mantém um blog pessoal desde 2002, é uma leitora voraz, apaixonada por gatos, pela chuva, pelo canto do uirapuru e pelo sotaque britânico. Pseudo-fotógrafa, pseudo-escritora, pseudo-artesã. Introspectiva com forte inclinação à misantropia, procura manter a promessa que fez a si mesma de nunca se deixar calejar a ponto de perder o prazer com as coisas simples da vida.

Sobre o autor

Brenda Bellani

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