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Daniel Galera no Sesc Campinas

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No dia 18 de agosto, Daniel Galera foi o convidado da nova edição do projeto “O que você está lendo?” do Sesc Campinas, que traz bimestralmente um autor nacional para recomendar alguma obra que esteja lendo no momento ou que tenha marcado a sua vida.

Nascido em São Paulo mas criado em Porto Alegre, onde reside atualmente, Daniel Galera (à esquerda, na foto) é autor de cinco romances, entre eles Barba ensopada de sangue e Cordilheira, e responsável também por 25 traduções – inclusive de obras de David Foster Wallace e Zadie Smith.

Galera recomendou Noite dentro da noite, lançamento de Joca Reiners Terron, um romance metade autobiográfico, metade fantasia, que é, segundo Galera, uma síntese de todas as obras do autor cuiabano.

Noite dentro da noite, de Joca Reiners Terron

Joca tinha uma editora independente, a Ciência do Acidente, que lançou obras de alguns renomados escritores brasileiros contemporâneos, como Marçal Aquino. Noite dentro da noite, publicado pela Companhia das Letras em 2017, é o seu sexto romance. Para Galera, trata-se de seu magnum opus.

Noite dentro da noite

(Imagem: Companhia das Letras.)

“Claramente, a gente vê que é um livro ambicioso, até pelo tamanho. Eu conheço o Joca muito bem, hoje em dia, a gente é muito amigo e eu acompanhei os vários anos que ele ficou trabalhando nesse livro. Foi um trabalho super difícil e exigente para ele, que ficou imerso e teve várias dificuldades no caminho. E o livro que resultou é extraordinário”, ele relata.

No romance, narrado em segunda pessoa, Joca volta a trazer relatos de sua infância e família no Mato Grosso, em uma história que se passa em um intervalo de décadas, misturando realidade e ficção – inclusive uma entidade monstruosa que permeia a trama inteira sem nunca ser descrita a contento.

É uma literatura bem fantástica, que flerta com gêneros, como horror e ficção científica, mas “tem uma espinha dorsal intimista”, como o próprio Galera explica.

O autor americanense Luiz Biajoni, que mediava a conversa, espantou-se com o gosto de Galera por fantasia e ficção científica, gêneros tão distintos dos de seus romances. “A gente é o escritor que a gente pode ser. O que me empolga como leitor não é a mesma coisa que eu posso escrever”, respondeu Galera.

Cardoso Online, a fanzine por email

Galera e Biajoni relembraram os tempos de Cardoso Online, mais conhecido como COL, uma fanzine online enviada por email (ou mailzine), nos primórdios da internet. “No começo a internet não era bem assim, não existia nem blog. O email era a principal forma de comunicação”, relembra.

O COL contava com mais sete autores; chegou a ter mais de 5.500 assinantes fixos e mais de 270 edições, mas acabou em 2001. Para Galera, foi um privilégio ser lido por esse número de pessoas e a fanzine foi um laboratório importante para a sua carreira.

Da experiência, surgiu a editora independente Livros do Mal, em 2001, em parceria com Daniel Pellizzari e Guilherme Pilla, todos ex-colunistas da mailzine. Nos seus três anos de vida, ela lançou obras do Galera, Pellizzari e também do Joca.

Você sabe o que é fanzine? O SLET explica!

Sobre cultura pop e romances contemporâneos

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O mediador perguntou, durante a conversa, qual a importância ou a necessidade da citação pop dentro da literatura (relembrando do autor inglês Nick Hornby, do sensacional Alta Fidelidade, como uma referência no assunto).

“Esta era uma discussão bem viva na época que eu me tornei escritor, no final dos anos 90. Eu acho que é tudo uma questão de verossimilhança. Tem autores que – o Nick Hornby era um deles naquela época – propositalmente trazem a cultura pop, principalmente a música, como um assunto e fazem como um índice da psicologia do personagem. Mas, para além disso, eu acho que tem outra questão. No mundo contemporâneo, pelo menos no ocidental e democrático, dominado pelo capitalismo e consumo, não incluir as referências de cultura pop em uma certa medida é escrever em um mundo que não existe.”

Galera citou críticas de que a menção de bandas ou outros nomes da cultura pop limita o livro a uma época, eliminando-o da proposta universal e atemporal da literatura. “Esta crítica é idiota”, diz ele.

“Se você pega todo cânone literário, não havia cultura pop antes de sei lá qual década, mas havia outros universos culturais que não são mais os nossos e que estão sendo referidos o tempo inteiro. Quando Thomas Mann passa 30 páginas escrevendo sobre violinos Stradivarius, eu não toco violino e o instrumento não faz mais parte do meio em que eu vivo, mas é interessante. Não precisa ser uma coisa do meu mundo.”

O autor salientou o fato de que se o romance se passar na vida contemporânea, em algum momento da história, os personagens precisarão fazer referência ao celular, trocando mensagens ou e-mails, ou então usando aplicativos atuais e qualquer outro recurso eletrônico ou comportamental que sejam um marco da atualidade, para que o romance seja minimamente verossímil e realista.

O desafio é fazer com que a inserção destes aspectos não seja enfadonha na narração. Afinal, ficar com a cara enfiada em um celular já é chato na vida real!

Meia-noite e vinte
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Novo romance de Daniel Galera. (Imagem: Companhia das Letras.)

O seu mais novo romance, o Meia-noite e vinte, publicado em 2016 pela Companhia das Letras, acompanha a narração em primeira pessoa de três amigos no final da década de 90. Eu ainda não li o livro, mas, escutando o autor falar sobre ele, pareceu-me um flerte com a autoficção.

“Os personagens do Meia-noite e vinte, embora não retratem pessoas reais, são um tanto inspirados no meu ecossistema em Porto Alegre nos anos 90, justamente na época do Cardoso Online. São estudantes de jornalismo e publicidade”, explica.

No livro, há uma fanzine por email chamada Orangotango, que, segundo Galera, é um aceno evidente ao COL e o que ele significou naquela época. “Uma das coisas que eu faço no Meia-noite e vinte é olhar um pouco para trás, para o que significou aquele momento do Cardoso Online, a chegada da internet e todas as mudanças políticas e econômicas que aconteceram em torno daquele mundinho.”

Rotina de escritor

Daniel Galera escreveu Barba ensopada de sangue em ordem cronológica, página a página, do início ao fim (algo que me soa surreal e admirável). Já para o seu último romance, ele não precisou de nenhuma escaleta, mas juntou um volume “doentio” de fragmentos pré-escritos que depois precisou colocar em uma estrutura quer fizesse sentido.

Hoje, ele não está trabalhando em nenhuma ficção. “Não escrevi nenhuma linha de ficção depois do último livro”, confessa. O que ele fez foi se atarefar com outros trabalhos, como a tradução do novo romance de Zadie Smith, porque, segundo ele, a inspiração e a vontade de escrever sempre aparecem quando ele menos tem tempo para isso.

Você já leu algum livro do Daniel Galera? O que achou?
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Daniel Galera autografou seus livros e tirou foto com o público após o bate-papo no Sesc Campinas.

Visite o site oficial do autor.

Sobre o autor

Brenda Bellani

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