Escritores Especial

Elena Ferrante e leituras que levam a outras

Elena Ferrante e leituras que levam a outras

Como já escrevi aqui no SLET, eu adoro identificar como os livros chegam até mim, seja por indicação no Instagram ou em eventos literários. Em alguns casos, no entanto, uma leitura leva a outra e se complementam, como é o caso da minha experiência com Elena Ferrante.

1. A amiga genial, de Elena Ferrante

“Depois acrescentou uma frase que vou guardar para sempre: ‘A beleza que desde pequena Cerullo tinha na cabeça não encontrou saída, Grego, e foi parar toda no rosto, nos peitos, nas coxas, na bunda, lugares por onde passa depressa e é como se nunca tivesse existido’. Nunca a tinha ouvido dizer um palavrão, desde que a conhecia. Naquela ocasião disse ‘bunda’ e depois grunhiu: ‘Desculpe’. Mas não foi aquilo que me espantou. Foi o remorso, como se a professora estivesse reconhecendo que algo de Lila se perdera justamente porque ela, como professora, não a tinha protegido e desenvolvido bem.”

Tudo começou em fevereiro de 2020, quando finalmente li A amiga genial, primeiro livro da tetralogia napolitana da autora italiana. Não foi uma leitura rápida, mas me conquistou e fez com que eu seguisse para os outros três livros com avidez e curiosidade, amando cada um deles.

Para quem segue o SLET no Instagram não é nenhuma novidade que a tetralogia napolitana da Ferrante é uma das coisas mais incríveis que eu li na vida. (E, apesar de saber que é errado, afinal, cada um tem seu gosto, ver gente falando mal dela ainda me dói um pouco.)

Emocionada com a capacidade da autora de escrever sobre a complexidade humana essa série de formação – as contradições, os medos, as relações, o envelhecer –, eu me interessei em me aprofundar ainda mais na experiência. E foi assim que eu cheguei à…

2. Elena Ferrante: Uma longa experiência de ausência, de Fabiane Secches

 Elena Ferrante: Uma longa experiência de ausência

“É uma experiência de fronteira, riqueza psíquica que poucos autores conseguem descrever com tamanha complexidade.”

Essa obra é um ensaio baseado na trabalho de conclusão de mestrado da Fabiane Secches sobre os livros da Elena Ferrante, em especial a tetralogia. Comprei meu exemplar na Livraria Megafauna e devorei em uma semana.

Como eu já tinha lido praticamente todos os livros da Ferrante até então, foi interessantíssimo entender os vários fatores psicológicos (formação inicial de Fabiane) e referências por trás de cada obra. Basicamente, é um livro enaltecendo uma das minhas escritoras preferidas, não tinha erro (risos).

Mas foi uma parte específica que me chamou a atenção: sobre Dias de abandono. Esse era o único romance ainda não havia lido da Ferrante. A Fabiane esmiúça o comportamento e a experiência limítrofe de Olga, a personagem central, até o fundo do poço nos dias que sucedem a partida de seu marido.

A autora também relaciona o conteúdo de Dias de abandono da Ferrante com o livro Laços, do também italiano Domenico Starnone. Duas obras que conversam (e corroboram para as várias hipóteses sobre a verdadeira identidade de Elena Ferrante, mais sobre isso abaixo).

Por isso, quando acabei o livro da Fabiane Secches, com a memória ainda fresca, decidi ler Dias de abandono em uma madrugada de insônia.

3. Dias de abandono, de Elena Ferrante

Dias de abandono, de Elena Ferrante

“Uma noite após a outra escrevi cartas para Mario, mesmo sem saber para onde enviá-las. Eu esperava que mais cedo ou mais tarde teria como entregá-las a ele, eu gostava de pensar que ele as leria. (…) Naquelas cartas, longuíssimas, eu me esforçava para manter um tom sensato, coloquial. Dizia-lhe que estava reexaminando minuciosamente a nossa relação e que precisava da sua ajuda para entender em que havia me equivocado.”

Dias de abandono se tornou o meu romance preferido da Ferrante depois da série napolitana. Extremamente incômodo (senão não seria Ferrante, não é mesmo?), a autora nos joga dentro da mente de Olga, em sofrimento após ser deixada pelo seu marido. Até então ela tinha sua vida regrada de esposa e mãe, dedicada a servir, embora tivesse uma carreira antes dos filhos.

Ao se ver no papel clichê de esposa trocada por uma mulher mais jovem, Olga perde absolutamente tudo que mantém a sua vida nos eixos. E o marido que esperava um comportamento mais compreensivo dela (ou pelo menos conciliatório) é pego de surpresa pela sua revolta acusadora e incansável.

Largada para cuidar sozinha dos dois filhos pequenos e um cachorro, Olga não consegue sair da espiral de rancor e incredulidade. Em especial, o dia fatídico em que um monte de coisa dá errado no livro foi um dos capítulos mais angustiantes que já li na vida.

Depois de acabar Dias de abandono, a curiosidade foi maior e comprei logo em seguida o eBook de Laços.

4. Laços, de Domenico Starnone

Laços, de Domenico Starnone

“Por favor, assim que ler esta carta, volte para casa. Ou, se ainda não sentir à vontade, me escreva explicando o que está acontecendo. Vou tentar entender, prometo.”

Esse foi meu primeiro contato com a obra de Domenico Starnone e confesso que só soube dele por causa da Elena Ferrante. Há hipóteses de que ela é a esposa do autor, Anita Raja, ou então que ele próprio é a Ferrante.

Todos esses boatos são corroborados pelo fato de Dias de abandono e Laços serem obras totalmente complementares – que dialogam entre si. Depois de lê-las, é inevitável acreditar em uma dessas hipóteses.

Laços é narrado em primeira pessoa por Aldo, um senhor casado há décadas com Vanda. Ao voltarem de férias, encontram o apartamento revirado e destruído. Organizando seu escritório, ele reencontra cartas antigas da esposa e mergulha em lembranças passadas de quando a abandonou para viver com uma mulher mais jovem.

É quase como se lêssemos o ponto de vista do marido de Dias de abandono, mas anos após o ocorrido, agora dois senhores de 70 anos.

Não bastasse essa semelhança básica (além de também terem um casal de filhos), Laços começa com cartas de Valda a Aldo, escritas na época em que estiveram separados. Acontece que Olga, em Dias de abandono, insone e incrédula, passa a escrever cartas ao marido de madrugada, questionando-o por suas ações. Ela quer entender onde errou, o que aconteceu para ser deixada.

Só que nós não lemos as cartas de Olga em Dias de abandono. Ela apenas as menciona. No entanto, o início de Laços é como se essas cartas reaparecessem e pudéssemos lê-las na íntegra.

Eu fiquei passada com a semelhança, não só da trama, mas também da escrita dos dois livros. Depois de concluir Laços, eu devo dizer que fico tentada a acreditar em uma das duas hipóteses sobre a identidade de Elena Ferrante.

Mas isso importa mesmo? Como a própria autora já disse:

“Acredito que os livros, uma vez que tenham sido escritos, não têm qualquer necessidade de seus autores. Se eles têm algo a dizer, vão encontrar cedo ou tarde seus leitores”.

Os livros de Elena Ferrante, obviamente pelo seu sucesso, têm algo a dizer.

E agora?

Agora, em algum momento esse ano, todas essas leituras citadas acima me levarão à Frantumaglia: os caminhos de uma escritora, livro que reúne por cartas, entrevistas e trechos inéditos da autora.

Mídia complementar:

Escute esse episódio do podcast 451 MHz, da revista Quatro Cinco Um, com Maurício Santana Dias, tradutor de Ferrante e Starnone no Brasil que, inclusive, teve contatos pessoais com Domenico e Anita.

Sobre o autor

Brenda Bellani

Jornalista/tradutora/leitora.

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