Especial Evento Literário

XIII Fórum de Editoração: Escolhas e contrapontos do editor

O décimo terceiro Fórum de Editoração aconteceu em São Paulo no último sábado (21), na Unibes Cultural. Organizado anualmente pelos alunos do curso de Editoração da ECA-USP, o evento teve como tema “Expandir e lapidar: escolhas e contrapontos do editor” e contou com quatro mesas de discussões.

Esta foi a minha primeira vez no Fórum e, como sou formada em Jornalismo, não serei a melhor fonte para relatar os insights sobre a área de Editoração. No entanto, mesmo de uma diferente formação, achei o evento válido para todos que se interessam pelo universo editorial – sem contar que é gratuito e realizado em um sábado, o que facilita bastante.

Resolvi escrever este post com alguns tópicos interessantes discutidos nas mesas.

(Para saber os detalhes de cada mesa e seus respectivos participantes, visite a página do evento no Facebook aqui.)

Mesa 1: Entre outros mil, por que não o Brasil?

Fórum de Editoração 2017

Da esquerda à direita: Lila Zambon, Iuri Pereira (mediador), Daniel Lameira e Felipe Castilho.

Devido à minha viagem de ônibus de duas horas e mais meia hora de metrô até a Unibes, acabei pegando a primeira mesa pela metade. Uma pena, porque para mim foi a mais interessante.

Entre outros tópicos, os participantes discutiram sobre a aquisição de obras estrangeiras, a publicação e exportação de autores brasileiros e como se sair bem no mercado editorial.

“Os Estados Unidos são a maior indústria editorial do mundo e conseguem fazer os maiores lançamentos e também é o maior em internacionalização. Ao publicar um livro dos EUA, você está replicando a cultura deles que já é forte aqui. Por isso é importante trazer autores brasileiros [ao mercado nacional] para que a discussão seja sobre o nosso próprio meio”, opinou Lila Zambom, gerente de Marketing da Companhia das Letras.

Como exemplo, ela citou o livro Na minha pele, do ator Lázaro Ramos, lançado este ano pelo grupo e fez muito sucesso ao retratar a cultura negra, preconceito, respeito às diferentes, entre outras questões.

Alguém jogou na discussão o nome Paulo Coelho, que teve sua backlist – termo usado para se referir aos livros já lançados por uma editora há pelo menos um ano – toda republicada pela Companhia com novo projeto gráfico. “O Paulo Coelho acaba sendo uma porta de entrada para outros livros, uma iniciação”, explica Lila. Segundo ela, os autores brasileiros precisam se atentar à esta demanda de livros que funcionam como uma iniciação do leitor, algo que é bem suprido por séries juvenis internacionais, como Harry Potter e até mesmo 50 tons de cinza.

Da mesa, também participaram Daniel Lameira, editor de Aquisições da Intrínseca, com passagens pela Aleph, LeYa e FAC; e Felipe Castilho, escritor e editor da Plot!, o selo de quadrinhos da Astral Cultural. Os dois deram dicas de como começar no setor da Editoração. “O mais importante é conhecer o mercado do livro como um todo. No fim, é uma busca por demanda. A Aleph, por exemplo, só virou uma coisa viável agora, porque a ficção científica foi ignorada por muito tempo”, opina Daniel.

“Da aquisição ao caixa da livraria, tudo o que vocês se interessarem na sua vida vai fazer com que você seja um profissional peculiar”, é a dica do Felipe.

Mesa 2: A vez da voz – O livro com função social

Fórum de Editoração 2017, em São Paulo

Da esquerda à direita: Lia Urbini, Thiago Mio Salla (mediador), Aline Araújo e Laura Bacelar.

Nesta mesa, foi discutido o espaço da diversidade nas editoras e no mercado, com participantes da Editora Expressão Popular, da independente Ijumaa e da Malagueta, primeira editora focada em lésbicas do Brasil.

Laura Bacelar, antes de fundar a Malagueta, criou as Edições GLS, o primeiro selo editorial inteiramente dedicado às minorias sexuais, responsável pela publicação de títulos autoexplicativos. Um exemplo é o Como as mulheres fazem sexo, que nasceu porque Laura estava cansada de responder se as lésbicas transavam. O livro foi lançado na Bienal em 1998 e causou furor.  Outro exemplo bem-humorado e que também fez sucesso foi Como agarrar um marido – versão gay!

Em 2008, Laura resolveu fazer uma pesquisa no mercado editorial para contabilizar quantos livros de autoras abertamente lésbicas, nacionais ou internacionais, haviam sido publicados no Brasil no ano anterior. A sua pesquisa chegou ao número de zero obras. Foi aí que ela resolveu criar a Malagueta e acabar com essa falha no mercado.

Ela diz ter certeza de que alguns livros lançados tanto pelas Edições GLS quanto pela Malagueta seriam excelentes para um público específico (como, por exemplo, um livro que ajuda a entender “como ser gay”), mas acaba não vendendo bem.

“Quanto mais você é revolucionário em trazer algo que as pessoas precisam saber, menos vendem. É um paradoxo: é o que mais precisam, mas não sabem disso porque ainda estão no pensamento dominante da sociedade mesmo fazendo parte de uma minoria”, explica ela, citando como exemplo homossexuais que apoiam o Bolsonaro.

Mesa 3: Além do 14×21 – Saindo do tradicional no projeto gráfico

Fórum de Editoração 2017, dos alunos da ECA-USP

Da esquerda à direita: Paulo Chagas, Chico Homem de Melo (mediador), Gustavo Piqueira e Graziella Beting.

Esta mesa foi um pouco complicada. Os dois primeiros convidados trouxeram apresentações longas de projetos gráficos no meio editorial e acabaram ultrapassando o limite de tempo sem que houvesse realmente uma discussão entre eles. Uma delas era Graziella Beting, editora da Carambaia.

Para mim, o Fórum já foi válido só por ter conhecido a Editora Carambaia. Com o slogan “As edições que as obras merecem”, a proposta é publicar “furos literários”: obras esquecidas de grandes autores ou grandes obras de autores esquecidos e outras que serão relevantes para sempre – como Dom Casmurro.

Meus Deus, cada edição mais maravilhosa! Não tem como não se apaixonar: primeiramente, a Carambaia publica o nome do tradutor NA CAPA; segundo, eles imprimem apenas mil edições da obra e cada exemplar é enumerado manualmente. A cada novo lançamento, eles trabalham com designers gráficos diferentes, que precisam ler a obra e sugerir um projeto condizente à proposta do livro. A partir deste esquema, nascem edições deslumbrantes.

Um belo exemplo é Jaqueta Branca, de Herman Melville, com projeto gráfico do Estúdio Margem. As capas foram todas feitas em cianotipia, uma técnica que consiste na junção de duas soluções químicas na qual o papel será mergulhado, depois colocado para secar em um lugar escuro e então exposto à luz ultravioleta com objetos sobrepostos. A técnica foi aplicada capa a capa, resultando em mil exemplares um diferente do outro.

Imagem: carambaia.com.

E este é só um exemplo entre vários projetos encantadores que a Graziella apresentou durante a mesa. Por estes detalhes maravilhosos que as edições da Carambaia são praticamente itens de colecionador – e o preço condiz com a proposta.

(Fiquei maravilhada com a edição de O testamento de um excêntrico, de Jules Verne.)

Mesa 4: Da internet à estante – A nova economia do livro

Da esquerda à direita: Diana Passy, Fabrício Valério, Daniela Senador (mediadora), Hélio Puglia e Mayra Sigwalt.

O tópico condutor da quarta mesa foi o marketing digital: como usar a internet e as redes sociais a favor do mercado editorial? Foi interessante ver o contraponto dos representantes de editoras – Diana Passy, do Marketing da Seguinte, e Fabrício Valério, gerente editorial da V&R Editoras – com alguém do universo dos booktubers – Mayra Sigwalt, do All about that book e co-fundadora do clube de assinaturas Turista Literário.

“O marketing digital foi a maior mudança no mercado editorial. Há poucos anos, você não tinha contato com quem lia. Antes não tinha esse feedback direto do leitor”, aponta Diana como o principal feito da relação que a internet e as mídias proporcionaram entre editora e leitor. “O feedback com os blogueiros me ajudou a entender o que estava faltando no selo. Já publicamos livros que foram sugeridos por leitores.”

O mesmo contato direto com os leitores também ajuda Mayra e sua irmã na curadoria do Turista Literário. “Jovens leitores são muito passionais, mas se você não fizer como eles gostariam, eles vão te apedrejar e te enterrar. A expectativa das pessoas é a parte mais difícil de lidar com este público.”

Estandes da Edusp, Carambaia e Lote 42 durante o Fórum.

Outro tópico interessante desta mesa surgiu de uma pergunta da plateia: o que eles acham do uso de emojis e nomes de redes sociais em livros da literatura juvenil? Esta discussão me lembrou bastante o bate-papo com o Daniel Galera no Sesc Campinas, onde ele comentou que para um romance contemporâneo ser verossímil ele deve incluir as tecnologias atuais e quaisquer outros recursos e referências da época – como os apps, por exemplo.

“Usar imagens e nomes de redes sociais é uma coisa que fica datada no texto muito fácil”, opina Diana. Mayra inclusive citou Os 27 crushes de Molly como exemplo de obra cheia de referências atuais que possivelmente não funcionarão bem daqui uma década.

Fabrício citou um livro de soft porn lançado pela V&R (mas não citou o nome) que tinha uma linguagem original bem “street”, com gírias e tudo o mais. A tradutora conseguiu manter o estilo no português e o editor considerou o trabalho muito bom, mas a tradução foi duramente criticada pelos leitores. Segundo ele, há algo de “sagrado nos livros” e certas coisas não devem ser feitas nesse meio.

O preço dos livros digitais também entrou em pauta. Por que eles ainda não tem descontos mais substanciais em relação ao preço do exemplar físico? “O eBook tem todo o mesmo trabalho de um livro físico. Os únicos custos eliminados são os da impressão e distribuição”, explica Diana, o que representa 30% do valor de produção. Além disso, nos eBooks, o repasse ao autor é maior.

Para finalizar e mostrar a potência do marketing digital, Diana propõe a seguinte pergunta: Onde você ficou sabendo sobre o último livro que você comprou?

As chances de ter sido em algum site, blog, canal ou rede social são bem grandes.

Sobre o autor

Brenda Bellani

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