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Especial Mini-Maratona: Garota, Interrompida, de Susanna Kaysen

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Susanna foi internada em um famoso e caríssimo hospício em Massachusetts em 1967. A internação foi voluntária, mas os motivos que a levaram até ela têm características de coação.

Susanna havia tentado o suicídio há alguns meses ingerindo pílulas com vodca, tinha um comportamento promíscuo – inclusive se relacionando com um professor casado -, e era depressiva. Durante uma consulta, o médico chamou um táxi, informou-a que seria uma boa ideia passar um tempo se tratando em um hospital,  colocou-a dentro do carro e instruiu o taxista para que não a deixasse sair no meio do caminho.

Transtorno de personalidade limítrofe

Susanna, na época com 18 anos, viveu por quase dois anos no Mt. Auburn Hospital, onde era submetida à medicação e tratamento psiquiátrico, e onde conheceu várias jovens que eram internadas por diferentes motivos: depressão, compulsão por mentira, vícios, esquizofrenia… Susanna depois descobriria que o motivo para a sua internação era transtorno de personalidade limítrofe.

“Afinal de contas, o que quer dizer personalidade limítrofe? Ao que parece, é algo que fica a meio caminho entre a neurose e a psicose: um psiquismo fraturado, mas não desmontado. Muito embora seja esse ‘o nome dado às pessoas cujo estilo de vida incomoda os outros’, nas palavras do meu psiquiatra”.

Garota, Interrompida, de 1993, publicado pela Única Editora no Brasil e traduzido por Márcia Serra, é a história real de Susanna. O livro é cheio de personagens que acabaram virando amigas da protagonista – e não se sabe o quanto delas e suas histórias é realmente real ou liberdade literária -, mas elas são bastante carismáticas. Entre elas, destaco Polly, uma menina muito doce e apaziguadora que ateou fogo em si mesma e tem o rosto e os braços todos queimados, e, é claro, Lisa. A problemática (papel que rendeu o Oscar de melhor atriz coadjuvante a Angelina Jolie há 15 anos) vivia fugindo do hospital e representava uma figura de liderança entre as demais internas. Lisa acaba roubando a cena no livro.

As melhores partes do livro pra mim são as que ela narra o diálogo que acontece na sua própria cabeça que a fazem acreditar que realmente tinha um problema, para que o leitor tente entender como funciona o seu transtorno. E também as partes em que ela nos faz duvidar da necessidade de sua internação: de como ela pode ter sido manipulada pelo médico e os pais; como, com o avanço dos estudos e tratamentos, o seu problema não era caso para um hospital psiquiátrico; e como o diagnóstico de seu transtorno era falho em 1967.

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Em um capítulo especialmente interessante, ela disseca, uma por uma, as características do transtorno de personalidade limítrofe. Algumas realmente batiam com o que ela sentia ou como se comportava na adolescência; outras eram genéricas, poderiam estar descrevendo apenas um adolescente problemático. Uma delas é, inclusive, machista: “A disfunção é diagnosticada com mais frequência nas mulheres”.

“Muitas disfunções, a julgar pela população hospitalar, eram diagnosticadas com mais frequência nas mulheres. Tomemos, por exemplo, a ‘promiscuidade compulsiva’. Com quantas mulheres um rapaz de 17 anos teria de trepar para ser rotulado de ‘compulsivamente promíscuo’? Três? Não. É pouco. Seis? Duvido. Dez? Parece mais possível. Provavelmente entre quinze e vinte, no meu palpite. Isso se algum dia colocarem esse rótulo nos rapazes, coisa que, se não me falha a memória, jamais se fez. E as garotas de 17 anos? Com quantos rapazes teria de ser?”

O livro é pequeno – não tem nem 200 páginas – e os capítulos são curtos. Assim, a leitura flui rápido e, apesar do tema, não é pesada.

A adaptação

Não havia assistido ao filme até então e o fiz apenas após ler o livro. Eu não gosto da Winona Ryder – talvez comece aí a minha implicância com a adaptação de Garota, Interrompida (2000). Eu gosto bastante da Angelina Jolie, mas até com ela eu fiquei implicada, porque o roteiro forçou a barra com as esquisitices da personagem. Muita coisa foi alterada da trama do livro. Como o filme acompanha a vida de Susanna, mudaram várias histórias narradas pela protagonista para que ela estivesse presente em todas as cenas.

Por exemplo: [SPOILER] Lisa foi a única pessoa que conseguiu entrar no quarto de Daisy (e ver todas as carcaças de frango embaixo da cama). Susanna nunca fugiu do hospital, muito menos estava presente no apartamento quando Daisy se mata.

Trechos de Garota, Interrompida

“À noitinha o choro se transformou em gritos. O entardecer é uma hora perigosa.”

“Nosso hospital era famoso e havia abrigado grandes poetas e cantores. O hospital se especializou em poetas e cantores, ou será que os poetas e cantores se especializaram em loucura?”

“…os analistas escrevem sobre um país que chamam de Mente, enquanto os neurocientistas informam sobre um país chamado Cérebro.”

“Uma das grandes satisfações da saúde mental (seja lá o que isso for) é a de precisar gastar muito menos tempo pensando em mim mesma.”

Sobre o autor

Brenda Bellani

Jornalista/tradutora/leitora.

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