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Grande irmão, de Lionel Shriver

Grande irmão: sobre obesidade 1

Pandora tem 40 anos, é casada com Fletcher, um carpinteiro de luxo, há sete anos, com quem tem dois filhos – na verdade, um casal de enteados, Tanner e Cody, que ela adotou como se fosse seu. Por muitos anos, teve uma empresa de bufê, portanto, desde sempre mantinha um relacionamento íntimo e profissional com a comida. Mas há pouco tempo ela precisou mudar de empreendimento, graças ao sucesso de bonecos artesanais que fabricava, duplicatas de pessoas reais com o intuito de zombá-las pelo o que elas tinham de mais irritante – os bonecos vinham com gravações que repetiam os bordões dos clientes.

A ironia de ficar famosa e rica pela produção de brinquedos de luxo caríssimos e totalmente personalizados não deixa de atormentá-la, que tem atitudes de falsa modéstia, como se ser reconhecida na rua fosse algo desagradável e ter conquistado uma fortuna, algo acidental e inesperado.

O pai de Pandora foi astro de uma comédia famosa dos anos 80 e até hoje é apegado ao resquício de fama e reconhecimento que a sua carreira decadente o proporciona, ensimesmado e resistente em cair no ostracismo. Ela e o irmão Edison, quatro anos mais velho, criaram uma forte união de companheirismo e desdém mútuo por Hollywood, a fama do pai e a série que teimava em imitar nas telas a vida e a família reais deles (ou eram eles que imitavam a série?). Edison, um pianista prodígio do Jazz, partiu para Nova York aos 17 anos tentar a carreira de músico, num ato típico de rebeldia. Pandora sempre admirou o irmão como um ídolo, mais irreverente, bem-sucedido, bonito e experiente. Ela mesma preferiu se mudar para o Iowa, no interior do país, estado natal dos avôs.

Enorme é a sua surpresa quando ela vai receber o irmão no aeroporto após quatro anos sem vê-lo e não consegue reconhecê-lo. Edison engordou três vezes o seu tamanho e conseguiu manter isso em segredo.

Estereótipos e fidelidade fraternal

Grande irmão foi publicado pela Editora Intrínseca no Brasil em 2013, com tradução de Vera Ribeiro. Tratando-se de Lionel Shriver, espera-se um livro denso e indigesto, principalmente por ser sobre um assunto tão polêmico (como sempre) quanto à obesidade mórbida, que intrinsecamente envolve outros temas incômodos, como preconceito, vício, problemas de saúde e psicológicos, autoestima, padrões de beleza e dieta.

A escritora (como sempre, de novo) não poupa na discussão de estereótipos complicados sem deixar de lado a seriedade e a imparcialidade em relação à temática – da mesma forma que relata comportamentos tidos como típicos de pessoas obesas, ela também lista os hábitos irritantes das pessoas macérrimas, bitoladas em alimentação e vida saudáveis. Nas duas pontas extremas, ambos carregam estereótipos desagradáveis, justos e injustos.

Mais do que um livro sobre obesidade, Grande irmão diz muito também sobre culpa e laços familiares. Fletcher é um cara saudável rigoroso com sua alimentação. Ele e Edison não se dão bem. Às vésperas de se despedir do irmão, sabendo que ele está se enfiando em um caminho sem volta, Pandora precisa decidir-se por ignorar o problema e seguir com sua vida ou tentar ajudá-lo, colocando o seu casamento em risco. Na hora da fidelidade, o que vale mais: os laços matrimoniais ou os de sangue? E mesmo que Pandora resolvesse ajudar o irmão, ela estaria  fazendo-o por altruísmo e amor fraternal ou para se livrar do sentimento de culpa e omissão?

“Em todas as gerações, pessoas num número surpreendentemente grande se imaginam gênios à espera de serem descobertos, e a ratificação dessa autoapreciação infundada na penumbra da idade adulta pode ser destrutiva. Detesto dizê-lo, já que me lembro dos tempos de colégio como lastimáveis, além de termos perdido nossa mãe na adolescência, mas a verdade é que Edison e eu crescemos mimados, deleitando-nos com o brilho lançado por um pai que todos os nossos colegas de turma reconheciam fora do set de gravação. O que faltou ao meu irmão, quando ele se aventurou sozinho aos dezessete anos, foi um bom pontapé no traseiro…”

Edison podia ser obeso e a sua aparência física automaticamente levar a uma série de pré-julgamentos desagradáveis. No entanto, o que vale notar é a sua personalidade dominante, o seu ego gigantesco, a sua prepotência e a convicção íntima e inabalável de ser especial. Ser viciado em comida, financeiramente falido e um profissional em decadência só fez aumentar a dor de cotovelo e o orgulho ferido de ver sua irmã caçula, sempre apagada e submissa, ganhar fama. Em suma, Edison era uma pessoa difícil e desagradável muito antes de engordar – da mesma forma que Fletcher já não gostava dele antes.

O homem, a comida e a obesidade

Grande irmão: sobre obesidade 2

Grande irmão é também um ensaio sobre a nossa relação com a comida: o nosso dia é marcado por refeições e os encontros sociais também giram em torno delas; comemorações devem ter algum prato especial e representativo, sem contar os brindes com bebidas alcoólicas. Comer é quase um passatempo. Um ato tão enraizado, humano e essencial à nossa existência que não paramos para entender o que ele representa. A relação do homem com a comida pode dizer muito mais sobre os nossos hábitos e personalidades.

“Lembro-me de haver lamentado, nesse aniversário, que qualquer tipo de ocasião festiva pusesse o ato de comer no centro. As reuniões eram rotuladas pelo que pudesse pôr na boca: vamos tomar um café, vamos nos reunir para beber alguma coisa, vamos jantar uma noite dessas. A própria cronologia do dia era marcada pelo que se ingeria – hora do café, hora do almoço, hora do jantar -, razão por que raramente se marcavam reuniões sociais para as onze horas da manhã ou as três da tarde.”

Possibilidades diferentes e rumos paralelos

Eu não me sentia tão traída com um livro desde Garota exemplar! Lionel Shriver já mostrou a sua desenvoltura em criar rumos paralelos à trama em O mundo pós-aniversário. Apesar de Grande irmão não seguir à risca a mesma fórmula, ela ainda dá um gosto de “e se…” tão desolador, que nos faz pensar nas grandes decisões que precisamos tomar na vida.

Por vários momentos, considerei Pandora a personagem mais cabeça dura que já li de Shriver, além de uma das mais inconsequentes e teimosas! A escritora foi muito esperta ao criar enteados para a protagonista ao invés de filhos de sangue, porque senão as decisões de Pandora com certeza teriam sido diferentes; afinal, a fidelidade matrimonial e a fraternal não superam a maternal (apesar de a própria escritora refutar esta máxima em Precisamos falar sobre o Kevin).

É mais uma obra incômoda e inquietante de Lionel Shriver, que a cada livro me faz considerá-la a melhor autora da atualidade. Mesmo assim, Grande irmão não conseguiu me arrebatar como Precisamos falar sobre o Kevin, O mundo pós-aniversário e Tempo é dinheiro.

Trechos de Grande irmão

Grande irmão: sobre obesidade 3

“Eu considerava a maioria das convicções uma diversão, e seu cultivo, uma vaidade, razão por que quase nunca lia jornais. Meu conhecimento de um assassinato no Líbano não traria a vítima de volta à vida, e, dado que primordialmente as notícias agravavam o sentimento de desamparo, eu achava surpreendente que tanta gente lhes desse atenção. A recusa em fabricar opiniões para consumo social me tornava uma chata, mas eu adorava ser chata.”

“Havia um ‘problema’ sobre o qual eu não esperava que os outros se solidarizassem comigo: era que, nos últimos tempos, eu vinha sofrendo de uma prostração insidiosa, que derivava de possuir tudo o que já havia desejado – até mais, na verdade.”

“Se o peso do meu irmão era sintoma de alguma coisa errada, também era o emblema de uma vaidade. Edison não era do tipo que se submetesse aos azares da vida com uma pancinha. Ruiria no mesmo estilo com que havia arquitetado seu sucesso: em escala grandiosa.”

“Desde que eu me entendia por gente, ele queria ser famoso. Por que alguém haveria de querer vender a milhões de pessoas a ilusão de conhecê-lo quanto não conheciam?”

“Talvez o maior favor que um cônjuge possa fazer ao outro seja fechar os olhos para o que o parceiro não consegue relevar.”

“- Também trabalhei duro. Se o parâmetro é esse, muita gente é ‘especial’. E há uma grande diferença entre sentir-se especial e sentir-se privilegiado. Cheio de direitos.”

Sobre o autor

Brenda Bellani

2 Comentários

  • Parabéns pela resenha, Brenda! Concordo muito! Me senti incomodada com a leitura porque, como comentei lá no insta, eu passei por uma fase obesa e é realmente muito estranho lidar com o preconceito e com julgamentos e estereótipos inevitáveis… =/ Mas como a gente sabe, em se tratando de Shriver, é um incômodo bom (existe isso? rs) porque ela toca na ferida mesmo, sem panos quentes. Os personagens desse livro me agradaram e me irritaram na mesma medida! rs Pra mim, “Precisamos falar sobre o Kevin” e “Grande irmão” são os melhores da autora, até agora; mas também gostei muito de “Tempo é dinheiro”. Falta eu ler “Dupla falta” e “A nova república”… ah, já sou fã de Shriver! 🙂

    beijo!

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