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Leitura compartilhada: nosso clube de leitura online

Clube de leitura online

Em 2020, recebi um convite de fazer parte de um clube de leitura online só de mulheres. Eu dificilmente recuso um convite para ler e falar sobre livros, então topei. Tem sido uma experiência gratificante e gostosa por todos os motivos óbvios, mas, mais especificamente, por ter um horário semanal para ver e conversar com as amigas, mesmo que online. Em meio à pandemia e isolamento (para quem ainda está fazendo, né?), isso fez bem à saúde mental.

Uma das características diferentes desse clube é que lemos juntas literalmente. Diferente do formato mais tradicional em que todos os integrantes leem um livro ao longo do mês e depois se reúnem para falar sobre ele, nós nos reunimos toda semana pelo Skype e cada uma lê um capítulo em voz alta.

Desde o início em 2020, com alguns hiatos forçados, concluímos quatro livros até agora:

  • Carta a minha filha, Maya Angelou
  • O voo do flamingo, Mia Couto
  • Perto do coração selvagem, Clarice Lispector
  • A volta do parafuso, Henry James

Quem me convidou para participar do grupo foi a Gabriela Morilia, colaboradora do SLET. A seguir, ela conta como surgiu o grupo. Nara e Joyce, as criadoras do clube, também compartilham abaixo o ponto de vista delas.

“Esse é o ponto mais forte do nosso grupo: a troca”, por Gabriela Morilia

Eu adoro como a vida é uma eterna rede, uma teia de pessoas que nos levam a outras pessoas, lugares, ideias… A meu ver, o nosso “clube do livro” nasceu lá em 2015, quando eu entrei no estágio e conheci a Joyce. Logo ficamos amigas e aos poucos descobrimos interesses em comum, entre eles, o amor pela leitura, mesmo gostando de gêneros literários diferentes.

Essa amizade me levou a uma outra, mesmo que sem intenção. Lembro que a Joy tinha começado a fazer pole dance e essa foi a inspiração que faltava para eu enfim me matricular para uma aula experimental – coisa que eu ensaiava há tempos. No meu primeiro dia, conheci a Brenda, que assim como eu, amava livros, Lady Gaga, estética emo e claro, pole dance: pronto, já nascia uma nova amizade.

Anos depois, no aniversário da Joyce (sempre ela, né?), fui apresentada a uma moça de cabelos coloridos, muitas tatuagens, por quem eu simpatizei logo de cara: a Nara. Ela era uma daquelas pessoas que é fácil conversar sobre qualquer assunto, qualquer MESMO.

Eu mal podia imaginar que em 2020 (também conhecido como ano mais louco da história mundial), em meio a uma pandemia, nossas histórias já cruzadas iam se esbarrar de vez. Sinceramente? Tem sido maravilhoso! A experiência de ler em conjunto com outras pessoas é diferente e muito prazerosa. Cada uma de nós tem um ponto de vista, uma bagagem de vivência para interpretar o texto de maneira única e ao menos para mim, esse é o ponto mais forte do nosso grupo: a troca.

Em meio a tanto caos, ter aquela “janelinha” na semana, tirar aqueles minutos para ler e falar sobre assuntos que amo com leveza, foi um porto seguro para não perder (de vez) a sanidade. E que assim permaneça.

“Ler já não precisa mais ser um ato solitário”, por Nara Marino

Ler é um ato solitário. É aquele momento em que você se fecha em você mesma, deixa o mundo lá fora não te perturbar, para entrar em um mundo desconhecido, totalmente novo.

Mas eis que surge um acontecimento no mundo real que te obriga a literalmente fechar a porta para o exterior. Ficar em casa, evitar aglomerações, ficar sozinha sem a companhia de outros pares, ou só daqueles que dividem o mesmo teto. Nesses momentos, em que o isolamento se faz necessário, a solitude opcional da leitura já não nos parece tão convidativa, já não apetece, já não nos consola; muito pelo contrário. Ansiamos pelo contato humano, criaturas sociáveis que somos.

Surge aí uma saída, um pequeno conforto que, se anteriormente não era levada a sério, agora parece ser o único refúgio do leitor: um clube de leitura. A ideia me surgiu como que do nada, e encontrou eco em outras leitoras que, como eu, não tinham experimentado tal coisa, mas que resolveram embarcar.

Lemos um livro juntas, cada uma lendo um capítulo, e somos obrigada a aquietar nossa curiosidade e esperar a próxima semana para dar continuidade à história. Surgem debates, interpretações, trocas de experiências e recomendações de autores que nunca ouviu falar. Um conforto em meio ao caos silencioso de uma quarentena.

Ler já não precisa mais ser um ato solitário.

“O clube de leitura me tirou de uma única história”, por Joyce Conde

O que ninguém sabe é que muitas vezes os livros foram meus melhores amigos, logo eu, uma pessoa fácil de fazer amizades e mega entusiasmada. Mas também tive meus momentos de solidão e virei melhor amiga de personagens e me simpatizei com as jornadas dos escritores. A partir daí nunca mais tirei um livro da cabeceira.

Só que chegou 2020, um ano aterrorizante que botou a minha vida de cabeça para baixo e, o que era o meu prazer, se tornou uma dificuldade. Não conseguia ler um parágrafo, meu foco se tornou a pandemia. O medo do que nos esperava tomou conta de mim. Afundei-me ainda mais na minha solidão. A exaustão me fez desejar deitar em minha cama não acordar no dia seguinte.

A saída? Um clube de leitura sugerido pela Nara, uma amizade que surgiu pela generosidade. Éramos voluntárias na mesma ONG que cuidava de gatos resgatados. Foi um dos maiores presentes que a vida me deu. Organizamos um grupo, convidamos amigas que convidaram amigas e viramos amigas. Amigas que embarcam em histórias com pontos de vistas diferentes e que ajudam uma a outra a crescer, a evoluir, a abrir a mente.

O clube de leitura, para mim, é muito mais do que umas horas lendo um livro em companhia, mas um resgate, que me tirou de uma única história e me colocou em meio a três heroínas: Gabi, Nara e Brenda. Mulheres, leitoras, donas de si, que me inspiram a cada trecho do livro em que paramos para refletir.

5 motivos para participar de um clube de leitura

Clube de leitura online

Nossa confraternização online de final de ano em 2020.

Com base na nossa experiência e nos relatos acima, eu diria que as principais razões para participar de um clube de leitura são:

1. Ler

O mais óbvio de todos é ter um momento específico para ler na semana. Se você tem uma rotina corrida ou não tem o hábito de ler, essa é uma forma boa de começar na companhia de outras pessoas.

2. Debater o livro

Ao ler juntas, acabamos debatendo os capítulos e ouvindo diferentes opiniões sobre o livro. Cada uma interpreta a história de alguma forma e, assim, a experiência de ler, além de deixar de ser solitária, também é enriquecida por uma conversa multilateral.

3. Conversar

Algum tópico do livro vai acabar gerando uma conversa que vai levar a outro tópico. Quando menos percebemos, passamos duas horas conversando. Às vezes isso faz com que a gente leia menos naquele dia? Sim (risos). Mas, como a Gabi disse, a troca é a melhor parte.

 4. Sair da zona de conforto literária

Essa é uma forma também de sair da sua zona de conforto literária sem precisar, por exemplo, assinar um clube do livro. Ao decidir pela próxima leitura conjunta, pode acabar escolhido um livro que você talvez nunca pensaria em ler se não fosse pelo grupo. Assim você tem acesso a novas obras, autores e gêneros.

5. Fazer amizades que também gostam de livros

Ao participar de um grupo de leitura, em especial de for de algum com pessoas novas, você pode acabar fazendo amizades que também gostam de ler e falar sobre livros. Caso o seu clube seja com pessoas que você já conhece, é a chance de vê-los com regularidade.

Sobre o autor

Brenda Bellani

Jornalista/tradutora/leitora.

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