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Meia-noite e vinte, de Daniel Galera

Meia-noite e vinte, de Daniel Galera

Em Meia-noite e vinte, Daniel Galera faz uma viagem ao passado, revisitando aspectos da sua própria juventude em uma ficção fluida e rápida de ler.

Publicado em 2016 pela Companhia das Letras, no mais recente livro do autor, três amigos se reencontram em Porto Alegre para o enterro de Andrei. Assassinado em um assalto durante uma das suas corridas noturnas, a morte de Duque, como era conhecido desde jovem, é uma perda para o mundo literário brasileiro, onde ele crescia como a maior promessa nacional.

Ele, Aurora, Emiliano e Antero se conheceram na faculdade e eram os responsáveis pela e-zine Orangotango, uma fanzine por email criada por Duque que ficou muito famosa no final dos anos 90, durante os primórdios da internet. Apesar de afastados há muito tempo, a morte do amigo reavive muitas lembranças e dúvidas nos três personagens.

Os personagens

Aurora é bióloga. Mora em São Paulo há alguns anos para seguir a carreira acadêmica. A solidão, a dedicação total aos estudos e a recusa da sua pesquisa por causa de motivos pessoais e mesquinhos de um professor da banca têm ocasionado nela alguns pensamentos pessimistas e até mesmo meio apocalípticos.

“Os anos passaram e, a partir de certo ponto, não saber o que fazer da vida passou a ser ruim, e havia algo de muito pior, que era não querer fazer mais nada.”

Emiliano é jornalista freelancer. Durante o enterro de Duque, ele recebe uma ligação de seu chefe oferecendo uma proposta de escrever a biografia do amigo. Relutante no início, ele topa o trabalho pelo dinheiro, o que o obriga a chafurdar nas memórias da época da e-zine.

Antero era um jovem metido a intelectual e revolucionário que acabou virando um publicitário hipócrita, mas muito, muito bem-sucedido. Ele tem um fortuna razoável, carreira astronômica, esposa e filho pequeno, mas é totalmente infiel, infantil e amoral.

Uma volta aos anos 90

Meia noite e vinte, mais novo livro da Galera

Meia-noite e vinte é uma volta sensacional aos anos 90, principalmente para aqueles que presenciaram a ascensão da internet no Brasil. Pelos seus personagens, Daniel Galera relembra desde o Soulseek ao ICQ, dando uma volta também por lugares já fechados em Porto Alegre que, com certeza, ele e amigos devem ter frequentado na juventude, quando mantinham a e-zine CardosOnline.

Esta é apenas uma das várias semelhanças da ficção com a vida real do autor. O próprio Galera, no bate-papo realizado pelo Sesc Campinas, disse que a obra é “inspirada em seus ecossistemas”.

“No auge da nossa popularidade tínhamos milhares de leitores, dezenas dos quais enviavam textos regularmente. Não durou nem dois anos, mas marcou nossas vidas. Como toda zona autônoma temporária, o Orangotango foi um soluço, um projeto fadado ao fracasso mas que infundiu uma energia tremenda na existência de todos os envolvidos.”

Mas ele também consegue fazer uso magistral de recursos eletrônicos atuais dentro da sua narração, fazendo com que o livro seja não só extremamente verossímil como também contrastante com as tecnologias dos anos 90.

Vulgaridade

Este é, sem dúvidas, o livro mais vulgar que eu li do Galera até agora. Desde a descrição detalhada de um vídeo pornô caseiro dos anos 90 que se tornou cult na internet até Antero procurando minuciosamente por uma sequência de vídeos pornôs para se masturbar, Meia-noite e vinte tem algumas cenas bem chulas, porém (e talvez por isso), realistas.

É como estar dentro da mente dos personagens, ouvindo os seus pensamentos mais vulgares, e isso é desconcertante. Na narrativa de Galera e na sequência introspectiva de pensamentos de seus personagens, a vulgaridade faz sentido e dá o tom à obra, mas fica aqui o aviso para quem sente-se desconfortável com um linguajar mais grosseiro.

Três mentes distintas

O que mais me assombra e encanta em Meia-noite e vinte é como Galera consegue criar três narradores em primeira pessoa tão distintos e bem construídos, que se tornam pessoas quase reais e tangíveis, mas frutos de uma só mente.

Trechos como a Aurora falando de sua pesquisa científica e a análise de Antero sobre o livro Os 120 dias de Sodoma me fazem admirar o tanto de pesquisa que Galera deve ter feito para criar este livro para escrever com tanta propriedade de coisas tão distintas – e me espanta um pouco a loucura que deve ser a sua própria mente quando está criando personagens como os de Meia-noite e vinte.

Aurora, Emiliano, Antero e Duque fazem parte da mesma juventude, que pegou uma transição tecnológica muito louca. Isto faz com que as suas memórias da adolescência e primeiros anos da vida adulta tenham um saudosismo e uma nostalgia mais marcantes, de outros tempos.

Livro saudosista e vulgar, Meia-noite e vinte

Trechos de Meia-noite e vinte

“Apertei o copo com força, querendo e não querendo quebrá-lo, num impulso semelhante à vontade cruel que às vezes sentíamos de esmagar um cachorrinho.”

“Milhões de anos de evolução desembocando em seres incrivelmente não adaptados ao ambiente do planeta, como demonstrava nosso sofrimento diante de mínimas alterações de temperatura ou falta de substâncias, uma vulnerabilidade humilhante a todo tipo de condição atmosférica, exposição a materiais e outros organismos, para não falar na ainda mais humilhante vulnerabilidade da nossa mente a qualquer baboseira, à ansiedade, à esperança.”

Sobre o autor

Brenda Bellani

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