Escritores

A mulher e a maternidade na literatura: sobre Lionel Shriver e Elena Ferrante

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É estranho como é incômodo e desnorteante quando uma autora escreve abertamente sobre coisas que todos preferem ignorar ou esconder. Como, por exemplo, o lado ruim da maternidade. A sua face assombrosa, nua e crua: e se você não amar o seu filho? E se você não levar jeito para ser mãe?

Maternidade é uma representação da feminilidade, da força da mulher e do maior laço de amor existente entre as relações humanas – uma conexão física e emocional. Aí aparecem duas mulheres extraordinariamente talentosas com as palavras e quebram todos estes paradigmas.

A mãe que não ama o filho

Lionel Shriver, uma das melhores escritoras da atualidade, chocou o mundo com o seu livro Precisamos falar sobre o Kevin, sobre a mãe de um jovem psicopata. Apesar de a maioria das discussões se focarem no menino e a sua psicopatia, o romance de 2007 é um ensaio sobre a relação de uma mãe incapaz de amar o próprio filho – e o pior: narrado em primeira pessoa. Eva é descaradamente sincera ao enxergar sempre o pior em Kevin. E aí fica a dúvida: ela já sabia desde cedo que Kevin era psicopata ou a ausência do amor materno ajudou Kevin a virar o que ele é?

Sem nunca termos uma resposta definitiva, fica a certeza de que o romance magistral de Shriver expõe o que há de mais cruel e vergonhoso no relacionamento entre uma mãe e seu filho. Ele deixa o leitor com a sensação de privacidade invadida, de que alguns segredos deveriam permanecer guardados na santidade do lar, no âmago da família. (Mas se os segredos da família Khatchadourian tivessem sidos expostos antes do massacre, o destino de Kevin e de suas vítimas não teria sido diferente?) E é por ser tão incômodo – um tapa na cara– que Precisamos falar sobre o Kevin é tão genial.

Leia a resenha de Precisamos falar sobre o Kevin.

A mãe descontrolada

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Aí entra em cena Elena Ferrante, a autora italiana anônima que escreve com um pseudônimo. Ela criou também, em A filha perdida, um romance narrado em primeira pessoa sobre uma mulher inteligente, estudiosa, acadêmica, independente… E mãe. Uma mulher que nasceu para ser tudo, menos para cuidar de crianças.

É difícil de entender o propósito da interferência da protagonista no rumo das coisas durante o romance. No entanto, fica mais fácil de compreendê-la se você enxergá-la apenas como uma mulher descontrolada. Ela não se dava bem com as filhas e pelo jeito não as amava, e ver uma mãe, ainda mais tão jovem, ter um relacionamento bom com a filha a deixava mal e amarga. Pra mim, ela quis desestruturar a jovem e provar pra ela mesma que maternidade não é fácil; que toda mãe está à beira do precipício. Que toda mulher se anula completamente a partir do momento que tem filhos.

Leia a resenha de A filha perdida.

Mulheres reais?

Estas personagens são menos mulheres por não terem o “instinto natural” de ser mãe? Elas são ficcionais, mas representam inúmeras personagens da vida real. Talvez estas obras não fossem tão incômodas se passássemos a compreender que maternidade é uma escolha. Mesmo assim, elas ainda continuariam a ser geniais!

5 livros publicados pela Intrínseca que falam sobre maternidade de formas não convencionais:

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  1. Caixa de pássaros, de Josh Malerman
  2. Claros sinais de loucura, de Karen Harrington
  3. Primatas da Park Avenue, de Wednesday Martin
  4. Pequenas grandes mentiras, de Liane Moriarty
  5. Um mais um, de Jojo Moyes

P.S.: Este tema foi sugerido pela Editora Intrínseca para a Semana Especial do Dia Internacional da Mulher.

Sobre o autor

Brenda Bellani

6 Comentários

  • Oi Brenda! Nossa, esse é um tema que particularmente me interessa muito, já que eu não tenho vontade de ser mãe e, aparentemente, isso é visto como um “bicho de sete cabeças” pelos outros… mas enfim, esses dois livros que você citou são excelentes mesmo! Precisamos falar sobre o Kevin – que foi realmente um tapa na cara, um soco na boca do estômago, e eu também achei genial); e A filha perdida, que eu li no finalzinho do ano passado justamente por indicação sua, por ter visto aqui no seu blog 🙂 e também gostei demais… enfim, é fato que maternidade não é o mar de rosas que muitos querem pintar, mas que bom que é uma escolha, né. Não seremos menos mulheres por escolher não vivenciar esse “amor incondicional”, muito pelo contrário: é preciso ter muita coragem pra assumir não ter o tal “instinto maternal” que a grande maioria afirma ser intrínseco.
    ótimo post, como sempre!

    beijos!

    • Oi Angela, tudo e você?

      “é preciso ter muita coragem pra assumir não ter o tal ‘instinto maternal’ que a grande maioria afirma ser intrínseco” = DISSE TUDO!

      Muito obrigada por ler! <3

      Beijo,
      Brenda

  • Olá, Brenda!!

    Não tive a oportunidade de ler “A Filha Perdida”, mas li “Precisamos falar sobre Kevin” e mesmo me considerando uma mulher de cabeça aberta, em vários momentos me peguei um pouco chocada. Não estamos acostumados a presenciar esse tipo de realidade. Acredito que tudo que envolve as mulheres é muito romantizado, os relacionamentos, a maternidade, e essas autoras foram geniais mostrando que não é assim. O caminho para mudar esse pensamento é longo, se é que um dia vai acontecer, mas é muito bom saber que existem mulheres dispostas a mostrar o outro lado. Ótimos texto e lindas fotos! Bjus!

    • Talita, sua linda, muito obrigada por ler! <3

      Eu também fiquei muito chocada em vários momentos de Precisamos falar sobre o Kevin. Livros como esse e o da Ferrante fazem exatamente isso que você falou: desmascaram um pouco ideias romantizadas e estereotipadas. É claro que maternidade é lindo, mas nem tudo são flores. Tem sempre o outro lado e ele também deve ser ouvido e respeitado.

      Beijo,
      Brenda

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