Livros

Mulherzinhas, de Louisa May Alcott

A obra Little Women de Louisa May Alcott foi publicada pela primeira vez em 1868. Com status de clássico, no Brasil ele era publicado como Adoráveis Mulheres (inclusive é esse o nome da adaptação aos cinemas de Greta Gerwig de 2019), mas agora todas as novas edições saíram com a tradução literal do título: Mulherzinhas.

O livro acompanha um ano na vida das quatro irmãs March durante a Guerra Civil Americana, enquanto o pai se encontra longe, alistado por decisão própria, e a mãe precisa trabalhar para sustentar a casa.

Todas têm personalidades marcantes: Meg, a primogênita de 17 anos, é sensata e responsável; Jo é impulsiva e gosta de se comportar como um menino; Beth é adorável e de uma timidez debilitante; e a mais nova, de apenas 12 anos, Amy é mimada e sarcástica.

Eu não sabia, mas essa é uma autobiografia. As personagens foram baseadas na vida de Alcott e em pessoas reais que conheceu. Mulherzinhas retrata os costumes e valores de uma época muito distante da nossa. Embora já tenha escutado chamarem o livro de feminista – e eu até entenda por que – tenho certa dificuldade em concordar.

Adoráveis Mulheres

Eu prefiro o título Adoráveis Mulheres porque condiz muito mais com a construção das personagens – além de Mulherzinhas me soar degradante.

As meninas March são mesmo criaturas adoráveis. Eu levei umas 100 páginas para me conectar com a história e senti que estava me afeiçoando às quatro apenas quando a trama conseguiu passar pelas suas personalidades caricatas e construí-las com um pouco mais de profundidade.

“Houve muitas risadas, beijos e explicações, do jeito simples e amoroso que faz desses festejos domésticos tão agradáveis no momento e tão doces um bom tempo depois.”

Meg e Jo decidiram trabalhar para ter certa autonomia e ajudar na casa. Beth não vai à escola porque não consegue superar a sua timidez, então estuda sozinha e ajuda nas tarefas domésticas. Amy é insolentezinha engraçada, gosta de palavras difíceis e de fazer um drama por tudo, além de desejar ser uma pintora de renome um dia.

A minha preferida é Jo. Ela escreve e almeja ser uma autora publicada. Para os padrões da época, não tem os modos de uma dama e a forma dela de “se rebelar” é se comportando como um menino. Essa era a única maneira de poder fazer o que quisesse, sendo homem. Hoje, o comportamento da Jo seria completamente normal. Ela desenvolve uma amizade muito bonita com o neto do vizinho, o jovem Laurie, com quem se diverte e prega peças nas demais.

A família March vive tempos difíceis. Mesmo assim, conseguem manter uma empregada e comida na mesa. Com o pouco que lhes sobra, elas pensam nos outros, ajudando a comunidade. A bondade das March não passa despercebida pelo velho Laurence, o vizinho rico e de bom coração, que acaba sendo o salvador das meninas enquanto o pai não volta da guerra.

Lições de moral

Mulherzinhas, de Louisa May Alcott

Os capítulos de Mulherzinhas funcionam como episódios de séries: contém uma história com início, meio e fim e que se conclui com uma liçãozinha de moral aprendida a partir da vivência de uma ou mais das personagens. Por exemplo: é importante perdoar, em dúvida recorra a Deus, extravagância corrompe as pessoas, entre outras.

Foram exatamente essas lições de moral que mais me incomodaram em Mulherzinhas. São bonitinhas e, claro, nos ensinam algo. No entanto, além de me soarem pudicas e simplistas, são condizentes aos padrões da época em que o livro foi escrito, portanto antiquadas.

Uma das lições, por exemplo, vem de uma conversa entre a Jo e a mãe sobre o comportamento genioso da filha. A Sra. March a ensina a refrear suas palavras e a se manter calma. É uma lição que, de fato, pode ajudá-la nos seus piores momentos. Mas da maneira que acontece no livro parece uma forma de repreender Jo por expressar o que sente. Mulheres não podem ter, muito menos demonstrar sentimentos negativos e devem ser sempre dóceis.

“A ambição de Jo era fazer algo muito grandioso. O quê? Ainda não fazia ideia, mas deixada isso para o tempo dizer e, enquanto esperava, sua grande aflição era que não podia ler, correr e andar a cavalo tanto quanto gostaria. Ela sempre estava entrando em apuros por causa do seu pavio curto, da língua afiada e do espírito inquieto, e sua vida era uma série de altos e baixos, que eram tanto cômicos quanto patéticos.”

À frente do seu tempo

Por outro lado, algumas coisas são mesmo à frente do tempo e dá para entender a importância de Mulherzinhas. O primeiro de todos é apenas o fato de ser escrito por uma mulher em 1880. Não só isso, é uma obra com protagonismo feminino.

Esses dois fatos já explicam por que o livro de Alcott tem seu espaço até hoje e isso me fez lembrar bastante o que diz Virginia Woolf em Um teto todo seu. A autora escreveu exatamente sobre o que ela sabia: ser uma mulher da sua época.

A mãe sustenta a família e duas filhas trabalham para ter o seu próprio dinheiro. Em uma das lições do livro, a Sra. March afirma que ela prefere ver as suas filhas solteiras ou casadas com homens pobres, mas felizes, a vê-las ricas, mas infelizes no casamento. Jo escreve contos e consegue publicá-los em um jornal com o seu próprio nome. E quando aparece um pretendente para Meg, os seus pais dizem que ela ainda é muito jovem e a deixam decidir o que é melhor para ela.

Outras obras para quem gostou de Mulherzinhas

Embora eu tenha tido uma relação divergente com o livro, eu recomendo Mulherzinhas para quem gosta de livros fofos, que dão um quentinho no coração, com personagens carismáticas e que retratam a vida em uma época tão diferente da nossa.

Em especial, recomendaria para quem gostou de outras obras como:

  • Pollyanna, de Eleanor H. Porter
  • O jardim dos esquecidos, de V.C. Andrews
  • A série Anne with an E (sei que é uma adaptação, mas eu não li os romances)

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Essa resenha é uma parceria com a Livraria Eureka. Visite www.livrariaeureka.com.br e siga também no Instagram: @eurekalivraria!

Sobre o autor

Brenda Bellani

Jornalista/tradutora/leitora.

2 Comentários

  • Já faz um tempinho que quero ler este livro e agora que eu li sua resenha e conheci um pouco mais da história, ele já vai ganhar um lugarzinho na fila. Estou com ebook, então está cada vez mais próximo o dia de conhecer esta grande obra da Literatura.

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