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Ninguém nasce herói, de Eric Novello

Ninguém nasce herói, do autor nacional Eric Novello, é uma distopia ambientada em São Paulo, no Brasil atual. Apesar de ser um livro de ficção, infelizmente, a realidade de seus personagens não parece tão distante da nossa.

Publicado pela Seguinte, o selo jovem da Companhia das Letras, o romance tem de fato as suas pinceladas juvenis, mas traz uma forte base política e social como pano de fundo.

Catarses criativas

Chuvisco tem 20 e poucos anos, é formado em Letras, faz frilas como tradutor e tem um grupo de amigos bem próximos. Gabi é a versão de Chuvisco de saia, estudante de medicina; Amanda quer ser cineasta e o seu irmão, Cael, está começando a ser reconhecido pelo trabalho como ator. A turma é completada pelo extrovertido Pedro e por Dudu (com quem Chuvisco tem uma rixa misteriosa desde a adolescência, mas ninguém mais do grupo sabe sobre isso).

O protagonista desde cedo sabia que a sua imaginação não era comum. Às vezes, inventava coisas esdrúxulas e não conseguia mais distinguir entre real e fantasia. Foi Dr. Charles, um psicólogo que o acompanhou por anos, quem o ajudou a entender e controlar esses acessos, que passaram a chamar de catarses criativas. Quase como uma forma de tratamento, Chuvisco começou a gravar vídeos na internet sobre o seu “problema” e acabou se tornando um YouTuber de certa fama.

Talvez por causa do controle regrado de sua mente e comportamento – ele não pode beber muito álcool, por exemplo –, Chuvisco não desenvolveu outras partes de sua personalidade, como a sexualidade.

O governo fundamentalista do Escolhido

Lendo assim, parece mais um romance juvenil como qualquer outro, no entanto, a história de Ninguém nasce herói me deu mais medo do que qualquer obra do gênero de terror lido nos últimos meses.

Novello conseguiu diferenciar o seu livro ao criar um presidente autoritário, teocrata e corrupto, a quem todos chamam de Escolhido e que conseguiu implantar, depois de manobras políticas, o fundamentalismo no país. De repente, tudo que vai contra a “palavra de Deus” é proibido nacionalmente – até mesmo livros e músicas.

O Brasil vive uma onda de violência e ignorância só vista antes durante a Ditadura. Cael é negro e Pedro é gay, e isso já basta para que corram risco de morte. Quem manifesta-se contra o governo é severamente punido pela polícia.

Os fanáticos e bitolados formaram um grupo violento autointitulado Guarda Branca para sair espancando e matando cidadãos de grupos de qualquer minoria. Em resposta, criou-se o Santa Muerte, um grupo de resistência e mídia independente que tem como objetivo expor o governo.

Com ele, surge também a dúvida: é válido combater violência com violência? É o que Chuvisco e seus amigos vão descobrindo ao longo do livro.

Realidade nem tão distante

“Do jeito que vai o país, um livro de terror é um amigo mais sincero que um de autoajuda.”

É característico das distopias pegar fatos reais da atualidade e potencializá-los à beira do insustentável. É por isso que Ninguém nasce herói é convincente e assusta.

Não é difícil de acreditar que o Brasil inventado por Novello possa se tornar verdade, se as coisas degringolarem só um pouquinho. Principalmente quando a nossa Câmara dos Deputados tem, hoje, uma bancada religiosa de peso e notícias como essa e essa passam a ser corriqueiras.

Apesar do tom juvenil, alguns trechos que nos remetem diretamente à nossa realidade chegam a ser sufocantes e genuinamente preocupantes.

A amizade em tempos violentos

O que Chuvisco percebe em tempos de violência e desilusão é que só há uma coisa capaz de superar os problemas: o apoio e o amor de seus amigos. Esta é a maior resistência. E, de certa forma, o enfatismo do valor da amizade consegue ser uma das coisas mais bonitas do livro e também a mais cansativa.

“Não canso de pensar que é aqui, nessa doses constantes de afeto, que se encontra a resposta para derrotar o fanatismo alimentado pelo Escolhido.”

Chuvisco foi amparado por sua turma em diversos momentos – até mesmo em questões de vida ou morte – e ele também os ajuda como e sempre que pode. De fato, ele mesmo diz não haver nada que não faria por seus amigos. Mas, ao mesmo tempo, alguns acontecimentos são encarados por eles como DRs de amizade quando na verdade se tratam de questões muito sérias.

Lá para o final do livro, eu já estava um pouco enjoada dos acessos de amor e preocupação de Chuvisco pelos seus amigos e vice-versa – e preferiria que a relação afetiva dele no livro tivesse sido mais desenvolvida. Entretanto, de maneira geral, a amizade deles é bastante convincente e serve de fio condutor para a trama.

Ninguém nasce herói é um livro juvenil, com características comuns ao gênero, mas que também causa um incômodo e uma reflexão importante dignos de distopia. Ou seja: atende muito bem à sua proposta.

Trechos de Ninguém nasce herói

“Numa época em que preconceitos velados são gritados com orgulho, não me espanta que tenha sido ele o eleito.”

“É esse o ponto ao qual chegamos, o de comemorar não sermos mortos pela polícia, distribuir livros sem acabar presos, não ter ninguém pulando em nosso pescoço e nos condenando à danação eterna por pensar diferente.”

“Com o escolhido no poder, toda a insanidade é permitida. Uma análise mais fria o revela como um estrategista consciente dos seus atos. O projeto religioso é, não canso de repetir, um projeto de poder. O perigo, ou o maior deles, é o ambiente de fanatismo e instabilidade social que o Escolhido cultiva em seu entorno para que continue sendo necessário, um falso ídolo da ordem, enquanto se enche de dinheiro vindo da corrupção.”

Sobre o autor

Brenda Bellani

2 Comentários

    • Ana, apesar de o livro realmente ser juvenil e ter, como sempre, alguns dramas dos personagens, as partes que descrevem o estado atual do país são assustadoras. Não estamos muito longe da realidade fictícia narrada por Novello! Isso é muito triste e preocupante! =(

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