Eu recomendo Livros

O curso do amor, de Alain de Botton

O curso do amor é o segundo romance do filósofo suíço Alain de Botton, famoso mundialmente por suas obras de não-ficção. O livro é uma análise do casamento fase a fase e a desmistificação do romantismo.

Apesar de ser um romance, O curso do amor – e aqui, “curso” tem significado de percurso – é quase um livro de autoajuda filosófico, da melhor maneira possível. Com certeza, foi o melhor livro que li este ano e eu não vou conseguir fazer jus à sua genialidade.

A obra proporciona diversas reflexões incríveis e importantíssimas sobre a forma com que nos relacionamos com aqueles que escolhemos para passar o resto de nossas vidas. O livro tem tantas passagens interessantes, que eu quase acabei com os meus post-its para marcá-lo.

Ficção quase não-ficção

Alain de Botton criou um casal quase como uma alegoria para poder analisar, por meio do relacionamento ficcional dos dois, as nuances totalmente reais de um casamento.

Rabih é um homem de trinta e poucos anos, vindo do Oriente Médio e formado em arquitetura. Ele conhece a escocesa Kirsten, uma mulher séria e profissional, em uma reunião de trabalho em Edimburgo. A partir deste momento, os dois começam a desenvolver uma paixão, que se transforma em amor e depois em uma relação estável.

Ambos possuem traumas de infância: a mãe de Rabih morreu de câncer quando ele tinha apenas oito anos; o pai de Kirsten abandonou a família quando ela era menina. Esse e outros acontecimentos da infância e da criação dos dois influenciaram muito as suas vidas adultas e também a forma com que os dois se relacionam entre si.

E isso acontece com absolutamente todas as pessoas.

“Na realidade, essas brigas ‘por nada’ são raras no casamento de Rabih e Kirsten. As pequenas questões, de fato, são apenas grandes questões que ainda não receberam a devida atenção. As brigas cotidianas são os fios soltos que se agarram a contrastes fundamentais da personalidade deles.”

As fases do casamento

Como o próprio nome indica, o livro acompanha o caminho do amor, dividido em cinco partes: Romantismo, Para sempre, Filhos, Adultério e Além do romantismo.

Logo no primeiro capítulo, o autor faz um resumo de tudo que vai acontecer na vida de Rabih e Kirsten. Eles vão se casar, ter dois filhos, um deles vai trair e, em anos de casamento, vão amar e odiar, ter vontade de matar um ao outro e, por vezes, de se matar. Mas casamento é assim. Tudo se resume a esta frase do livro:

“O amor é mais habilidade do que entusiasmo.”

O curso do amor analisa todas as nuances de um casamento com a lupa da filosofia e da psicologia, a fim de entender minuciosamente comportamentos, reações, atos e consequências desta união monogâmica. Alain destrincha seus personagens até sobrar apenas uma carcaça exposta, com a qual todos e qualquer um podem se identificar.

O curso do amor, Alain de Botton

As análises de Alain vêm em itálico entre a narração em terceira pessoa.

(Para mim, uma das melhores partes está no final, quando ambos já atingiram a maturidade e Rabih finalmente se sente preparado para o casamento, e Alain lista suas razões para se sentir assim.)

Leitura obrigatória

O curso do amor é uma leitura obrigatória para quem já casou ou ainda pretende se casar um dia. É um livro difícil de ler, belo e dolorosamente realístico, daqueles que você precisa parar constantemente para refletir. Enxergamo-nos um pouco em Rabih e em Kirsten, porque são, como cada um de nós, pessoas cheias de manias, medos e imperfeições.

A vida é decadente. Nós envelhecemos, o amor vira rotina, passamos a aceitar a mediocridade como natural, nossos filhos crescem e partem… Mas nós podemos viver uma vida muito boa e gratificante se soubermos entender o outro e, acima de tudo, os nossos próprios sentimentos.

Conseguir ser sincero consigo mesmo é o primeiro passo para a autocompreensão. Vivemos à procura de entender todos ao nosso redor (ou até mesmo culpá-los pelos nossos próprios defeitos), mas a verdade é que se nos dedicássemos a nós mesmos primeiramente, o convívio com os demais seria muito mais descomplicado e menos frustrante.

“O que faz com que as pessoas se comuniquem bem é, basicamente, a capacidade de não se intimidar com os aspectos mais problemáticos ou incomuns do próprio temperamento. Elas conseguem encarar sem problema algum sua raiva, sua sexualidade e suas opiniões impopulares, estranhas ou fora de moda sem perder a autoconfiança ou desmoronar de vergonha. São capazes de falar com clareza porque desenvolveram uma percepção inigualável do que é aceitável nelas.”

Não tem como acabar esta leitura intacto.

Trechos de O curso do amor

Trechos de O curso do amor

“A pessoa com maior probabilidade de nos destruir é exatamente aquela com quem nos casamos.”

“O êxito de qualquer relacionamento deve ser determinado não apenas pelo grau de felicidade de um casal quando juntos, mas pelo grau de preocupação de cada um dos parceiros com a eventualidade de não estar em nenhum relacionamento.”

“Casamento: aposta promissora, generosa e infinitamente agradável feita por duas pessoas que ainda não sabem quem são ou quem poderia ser a outra parte, comprometendo-se com um futuro que não são capazes de conceber e que, com muito cuidado, se eximiram de investigar.”

“Nós aceitamos a complexidade – e assim damos espaço às discordâncias e à paciente resolução delas – em quase todas as áreas importantes da vida: comércio internacional, imigração, oncologia… No entanto. Quando se trata da vida doméstica, tendemos a presumir fatidicamente que ela será fácil, o que nos incute uma tensa aversão a negociações prolongadas.”

“Sem paciência para a negociação, o resultado é a rispidez: a raiva que se esqueceu de onde veio.”

“Kirsten quer um relato minucioso porque é assim que enfrenta a ansiedade: seu negócio é se agarrar aos fatos e organizá-los. Não quer revelar quanto está preocupada.”

“A irritação dos filhos, sabe também, tem um papel importante a desempenhar: é o que garantirá que um dia saiam de casa.”

“O errado da paixão é mais sutil: a incapacidade de ter em mente a verdade fundamental da natureza humana: todo mundo – não apenas nossos atuais parceiros, cujas múltiplas falhas conhecemos tão bem -, mas todo mundo mesmo vai apresentar algo substancial e enlouquecedoramente errado quando passarmos mais tempo por perto, algo tão errado que tornará ridículos aqueles sentimentos arrebatadores do início.”

“Declarar que o amado é ‘perfeito’ só pode ser um sinal de que não conseguimos entendê-lo.”

Sobre o autor

Brenda Bellani

6 Comentários

    • Este livro tem tantas frases memoráveis e totalmente verdadeiras! *.* É daqueles que você precisa reler pra poder absorver tudo, sabe?

      Obrigada por ler, Talita! <3

      Beijo,
      Brenda

  • Desde que você postou que estava lendo este livro fiquei aguardando por essa resenha! Eu descobri esse livro na Revista QuatroCIncoUm é já tinha ficado muito interessada. Amei sua resenha e posso garantir que a minha vontade de ler esse livro só aumentou. Atualmente estou muito interessada em obras que tenham alguma relação tanto com psicologia quanto filosofia, e fiquei muito feliz que o lado filósofo do autor se fez muito presente nesta obra. Com certeza este livro está no topo dos meus livros desejados. Mais uma vez parabéns pela resenha.

    Beijos!

    • Ah, muito obrigada por ler! <3 Que bom que ficou com vontade de ler o livro! Também tinha escutado falar muito bem dele e não me decepcionei! A forma com que ele escreve um romance usando a psicologia e a filosofia como base é muito interessante, Thaís! Por isso que tem uma pegada de não-ficção, sabe? É um livro pra ler com calma, refletir, aprender, crescer. Excelente!

      Obrigada, flor! Volte sempre!

      Beijo,
      Brenda

    • Êeee, fiquei muito contente que você vai ler por causa da resenha! \o/ Espero que goste, Thaís! <3 Não é um livro facinho de ler, sabe, mas nossa! Quantas reflexões importantes! Eu amei!

Deixe um Comentário