Eu recomendo Livros

O livro dos Baltimore, de Joël Dicker

o-livro-dos-baltimore

O livro dos Baltimore, de Joël Dicker, é sobre uma família rica, poderosa e gananciosa de Baltimore, nos Estados Unidos – os Goldman. Saul é um advogado competente; ganha todos os seus casos e é rotineiramente encontrado trabalhando em seu escritório de madrugada. Sua esposa Anita é bela e uma respeitada médica de um dos mais importantes hospitais dos EUA. Hillel, o filho único, é inteligente e sagaz; aos 12 anos, já entendia tudo sobre política e história. Encrenqueiro, mas educado e desenvolto, o garoto Woody foi acolhido na família como um filho ainda criança.

Estes são os Goldman-de-Baltimore, abastados, mas sempre dispostos a ajudar. O romance é narrado em primeira pessoa por Marcus, um escritor renomado graças ao sucesso do seu primeiro livro. Ele é um Goldman-de-Montclair, sobrinho de Saul e Anita.

“O apelido ‘Goldman-de-Baltimore’ era a contraparte do que meus pais e eu éramos com relação ao nosso endereço: os Goldman-de-Montclair, Nova Jersey. Com o passar do tempo e a maneira de falar, eles tinham se tornado os Baltimore, e nós, os Montclair. (…) Mas o que, a princípio, era apenas uma maneira de nos identificar, acabara se tornando a expressão de superioridade dos Goldman-de-Baltimore até no seio do próprio clã.”

Ser um Baltimore era sinônimo de luxo. Marcus sempre amou e admirou os tios e passava todos os feriados e férias com a família, desejando ser um deles. Ele e os primos Hillel e Woody formavam a Gangue dos Goldman – leais, inseparáveis e melhores amigos.

Segredos e ganância

o-livro-dos-baltimore3

O livro dos Baltimore é um romance suíço, lançado no Brasil pela Editora Intrínseca com tradução diretamente do francês para o português de André Telles. Marcus, o narrador, começa a contar a sua história do presente, em 2012, já famoso e bem de vida. Mora em Nova York e tem uma casa na Flórida, onde gosta de ir para escrever.

Logo no começo, já entendemos que ele perdeu os dois amados primos em uma tragédia a qual ele costuma chamar de o dia do Drama. No entanto, o que realmente aconteceu com os primos e toda a família dos Goldman é contada ao longo de mais de 400 páginas. Mas, acredite: você nem as sente passar!

Marcus conta a história dos Baltimore desde os anos 70, intercalando passado e presente irregularmente. Ao analisar a história de seus tios e primos, o escritor começa a desenterrar segredos muito bem guardados. Por trás de toda a magnanimidade e carisma dos Goldman-de-Baltimore, Marcus encontra histórias de ganância, ciúmes, brigas, traição e perdão. Sofrendo ainda com a perda dos primos, ele busca também por redenção – será que poderia tê-los salvado?

“Por que escrevi? Porque os livros são mais fortes que a vida. São sua mais bela revanche. São as testemunhas da inviolável muralha do nosso espírito, da inexpugnável fortaleza da nossa memória.”

Além disso, outra indagação que não pode deixar de ser feita é como Marcus conseguia relatar com tantos detalhes acontecimentos que não presenciou. Será que ele estava apenas exercendo a sua profissão de escritor deixando que a sua imaginação preenchesse as lacunas da história?

Personagens sheldonianos e narração envolvente

“Cheguei a me perguntar se, quando criança, fora eu que sonhara no lugar deles. Se, no fundo, eu os percebia de uma forma diferente do que eles eram na realidade. Será que de fato tinham sido aquelas criaturas fora do comum que eu tanto admirara? E se tudo aquilo não tivesse passado de uma criação da minha mente? E se, desde sempre, eu mesmo fosse meu Baltimore?”

Os personagens de Dicker têm um quê de Sidney Sheldon: são ricos, atraentes, talentosos, inteligentes, suspeitosamente bem-sucedidos, e muito gananciosos. A sua narração é envolvente e ele consegue lidar com vários personagens, fatos, datas e cenários sem que o leitor se sinta perdido em tanta informação. Eu, particularmente, apenas preferiria que ele não tivesse se prolongado tanto e tão detalhadamente na infância de Hillel – principalmente na dificuldade dele no colégio e o bullying que sofria. Esta foi a parte mais maçante, apesar de engraçada em alguns momentos.

Como o narrador vai revelando os segredos a conta-gotas, eu me senti presa à leitura o tempo todo, querendo saber o que aconteceu com cada um dos Goldman e o que era o tão tenebroso Drama que atormenta Marcus. Ele também está tentando retomar o seu romance com a sua paixão de juventude, mas o leitor não sabe o que aconteceu de tão grave para separá-los no passado.

Alguns personagens têm ações e tomam decisões meio duvidosas na trama, mas isso serve para nos deixar com aquela sensação de tragédia que poderia ter sido evitada. E eu gosto quando o livro me faz sofrer com seus personagens. Trágico e bem-humorado ao mesmo tempo, O livro dos Baltimore me deixou com muita vontade de ler a outra obra de Joël Dicker, A verdade sobre o caso Harry Quebert.

A edição da Intrínseca está maravilhosa; a capa é aveludada e linda, com uma arte lúgubre e misteriosa. O que os Baltimore escondem por trás das portas da mansão?

Trechos de O livro dos Baltimore

o-livro-dos-baltimore2

“As pessoas imaginam que um escritor leva uma vida muito tranquila. Ainda recentemente, um dos meus amigos, ao reclamar da duração do seu trajeto diário entre casa e escritório, me disse: ‘A rigor, você acorda de manhã, senta-se à mesa e escreve. E pronto.’ Não respondi nada, certamente abalado ao constatar que, no imaginário coletivo, meu trabalho consista em não fazer nada. As pessoas acham que você fica de pernas para o ar. Na verdade, é justamente quando não está fazendo nada que você trabalha mais.”

“Na pronúncia do léxico familiar, meus avós acabaram associando às suas entonações os sentimentos privilegiados que atribuíam aos Baltimore: ao sair de suas bocas, a palavra ‘Baltimore’ parecia cunhada em ouro, enquanto ‘Montclair’ parecia desenhada com gosma de lesma. Os elogios eram para os Baltimore; as críticas, para os Montclair.”

“Ao me lembrar disso hoje, sinto raiva de mim mesmo por não ter deixado que ela me desse dez beijos sempre que eu viajava. Também sinto raiva de mim mesmo por ter passado tanto tempo longe dela sem me lembrar de como nossas mães são efêmeras e por não ter repetido vezes suficientes que a amava.”

“- As lembranças ficam na cabeça. O resto não passa de entulho.”

SELO_BLOGSPARCEIROS_2016

Sobre o autor

Brenda Bellani

Deixe um Comentário