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O que significa “tartarugas até lá embaixo”?

Tartarugas até lá embaixo, John Green

Você achou o título do novo romance de John Green peculiar (para não dizer estranho)? Pois saiba que existe uma explicação para “tartarugas até lá embaixo”. Na verdade, existe uma historinha.

Um dia, um cientista famoso estava dando uma palestra sobre astronomia. Ele explicava a origem e formação do nosso planeta e o movimento da Terra em torno do sol. Quando chegou a hora de ouvir as perguntas da plateia, uma senhora levantou-se e disse que tudo aquilo que ele havia ensinado estava errado. Na verdade, a Terra é plana e se sustenta sobre o casco de uma tartaruga gigante. O físico então perguntou: E a tartaruga está em cima do quê?

A senhora respondeu: Outra tartaruga. São tartarugas até lá embaixo.

(Ou, em inglês, Turtles all the way down, que é o título original do livro.)

Regressão infinita

Não se sabe a origem exata da ideia de que o planeta é sustentado por infinitas tartarugas gigantes, mas definitivamente não foi John Green quem inventou a expressão.

Stephen Hawking popularizou a anedota ao relatá-la em seu livro Uma breve história do tempo (também da Intrínseca), de 1988 – e, segundo ele, acredita-se que o famoso físico palestrante seria Bertrand Russell. Há muitas versões da mesma história. Algumas, por exemplo, creditam-na a William James, um dos pais da psicologia moderna.

Trata-se de ideia mitológica sobre o problema da regressão infinita na cosmologia, um movimento perpétuo. Para algo acontecer, é necessário que um outro evento semelhante tenha ocorrido para causá-lo; e para este outro ter ocorrido, um evento deve ter acontecido primeiro para ocasioná-lo e assim por diante em uma regressão infinita. É como colocar um espelho em frente ao outro!

Complexo, né?

O termo é usado em outros campos, mas quase sempre com o mesmo sentido de algo infinito, como na programação, quando um programador trabalha com código que parece não ter fim ou em outras situações (que uma mente leiga como a minha não compreende).

Espiral e matrioskas

Tartarugas até lá embaixo, John Green

Em Tartarugas até lá embaixo, de John Green, Aza imaginava a sua luta interna como uma espiral (por isso o desenho na capa do livro). Quando seus pensamentos compulsivos surgiam, era como se rodassem e rodassem infinitamente, até que ela se encontrava presa na espiral de pensamentos, lá embaixo, sem conseguir parar. Neste ponto, sua mente já estava totalmente desligada da realidade, do mundo exterior.

Daisy, a melhor amiga da protagonista, conta a história da senhora na palestra de física e das tartarugas para Aza.

“- São só umas tartarugas até lá embaixo, Holmes. Você está tentando encontrar a primeira tartaruga, mas não é assim que funciona.”

Tentar encontrar um motivo ou o final para a espiral só deixava Aza pior. São só tartarugas até lá embaixo, infinitamente. Não há bem em procurar pela última, porque ela não existe.

Outra metáfora muito legal usada no livro são as matrioskas:

“Muitos pensamentos eu não quero pensar, muitas coisas que não quero fazer, é mais ou menos isso. Quando procuro o que eu sou, nunca encontro. Como as matrioskas, aquelas bonecas russas, sabe? As bonecas são ocas e, quando abrimos uma delas, tem outra boneca menor dentro, e assim por diante, todas ocas até a menor delas, que é sólida. Só que dentro de mim… acho que não existe a última. Só bonecas ocas, uma menor que a outra.”

Todas as metáforas – espiral, tartarugas ou matrioskas – servem para chegar a mesma conclusão: não existe um eu sólido.

Cada pessoa é um eu infinito, cheio de camadas e mais camadas.

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Sobre John Green e transtornos mentais

Sobre o autor

Brenda Bellani

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