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Precisamos falar sobre o Kevin, de Lionel Shriver

 

(Sobre como uma resenha nunca fará jus a um livro genial.)

Uma das delícias de reler um dos seus livros preferidos é perceber que ele é ainda melhor do que você se lembrava. Li Precisamos falar sobre o Kevin, da Lionel Shriver, em 2009, no meu último ano de faculdade. Em março deste ano, pedi um exemplar da obra entre as cortesias da Intrínseca porque há muito eu gostaria de relê-lo e de publicar uma resenha dele no SLET (que ainda nem estava em planos de existir quando o li pela primeira vez).

Precisamos falar sobre o Kevin é muito, muito melhor do que me lembrava. Acabo de relê-lo e, sem exagero, me sinto desolada por ter terminado e emocionada pelo dom de escrever de Lionel Shriver. O livro é também mais pesado e incômodo do que eu me recordava. Foi ele que fez com que eu me apaixonasse pela escrita de Shriver e ao mesmo tempo me iniciou em leituras que fugiam da minha zona de conforto.

Mulheres que não nasceram para ser mães

O livro são cartas de Eva destinadas ao seu ex-marido, Franklin. A mulher conta sobre o seu presente desolador como mãe de um assassino adolescente. A três dias de completar 16 anos, Kevin foi responsável por uma chacina com nove mortes em sua escola, no dia fatídico que Eva passa a se referir como a quinta-feira, e agora está preso em um centro de detenção para menores. E, em seu relato ao marido, retoma desde os derradeiros meses como um casal sem filhos, lutando para decidir se queriam ou não um primogênito.

Ela era dona de uma empresa que publicava guias de viagens a baixo custo e ela mesma se encarregava da maior parte das pesquisas, o que acarretava em meses e meses viajando pelo mundo. Era uma profissional muito bem-sucedida e tinha uma vida financeiramente confortável, fazendo muito mais dinheiro do que o marido. O seu casamento era maravilhoso e a sua maior fonte de felicidade.

Eva era e sempre foi perdidamente apaixonada por Franklin, mesmo no presente. O mesmo não pode ser dito em relação ao seu filho. Ainda acho difícil ler as partes em que Eva comenta o quanto ela se arrependia de ter engravidado e o quanto sua vida mudou para pior depois de virar mãe. Existem mulheres que nascem para a maternidade e outras não; Eva era um claro membro da segunda categoria.

O que mudou de 2009 para cá, desde a primeira vez que li Precisamos falar sobre o Kevin, é que eu não acho mais isto digno de crítica. Não há nada de errado em não querer ter filhos ou não sentir o “chamado da natureza” que dizem ser intrínseco a tantas mulheres. Ser mãe ou não, hoje, é opção, mesmo que a sociedade custe a insistir ser uma obrigação ou então a única razão para estarmos aqui neste mundo.

Sobre livros incômodos e a manipulação da narradora

Sete anos depois, ainda acho Eva uma personagem odiável (afinal, ela é uma criação da Shriver). Eva não só é incapaz de amar o próprio filho, como acha que Kevin veio para destruir tudo que havia de bom em sua vida, e aquele momento mágico em que a mulher carrega o filho no colo pela primeira vez e se torna milagrosamente uma mãe nunca aconteceu para ela.

Não só isso, ela é capaz de imaginar o pior dele e de todas as suas atitudes. Desde a recusa ao leite materno segundos após o seu nascimento, Eva acredita que Kevin e ela já travaram uma disputa deliberada que duraria os restos dos anos até a quinta-feira.

“Eu tinha infringido a mais primitiva das regras, profanado o mais sagrado dos laços.”

Além disso, outra coisa muito importante de se notar é a narração em primeira pessoa, sempre sujeita à manipulação do narrador-personagem. Mesmo Eva parecendo ser tão obscenamente franca em suas cartas a Franklin, o tempo todo nos questionamos quanto à veracidade de seus relatos.

A capa original e medonha do livro.

A capa original e medonha do livro.

Aos olhos de Eva, Kevin era uma encarnação do mal desde pequeno. No entanto, quanto é realidade dos fatos e quanto é a narradora querendo convencer o seu marido de que Kevin não era o garotinho maravilhoso que ele tanto idolatrava?

Ficamos entre três personagens dignos de pena e ódio, à mercê da narração de uma mulher extremamente inteligente, mas antipática, egocêntrica e partidária. Franklin mimou Kevin ao extremo, sem impor limite algum. Ele era o contrário absoluto de Eva, mesmo assim, o seu amor exagerado e seus diálogos alegres e artificiais eram ainda mais repulsivos aos olhos do filho do que o desprezo materno. E Kevin, um garoto amorfo, calculadamente dissimulado e indiferente, muito esperto e frio, e de índole duvidosa.

Não posso deixar de admirar Lionel Shriver por tocar com mestria em temas tão polêmicos. A história em primeira pessoa da mãe de um assassino juvenil. Uma mãe que não consegue amar o filho. A famigerada pergunta: por que Kevin foi capaz de uma atrocidade destas?

E aí cabe a antiga discussão do ovo e da galinha. Kevin já nasceu mau ou a criação sem afeto da mãe e o afeto exagerado do pai o transformaram no que ele é? Os pais são sempre os culpados? Algumas crianças já nascem más? Eva se vê obrigada a retomar a vida de seu filho desde o nascimento e a sua relação errática com ele e com seu marido tentando entender o que aconteceu para que tudo culminasse na quinta-feira, enquanto faz suas idas rotineiras e metódicas ao centro de detenção para visitar Kevin.

Claro que sentimos muita raiva do garoto e é isso que a narradora quer nos causar. Ela quer convencer Franklin de que estava certa o tempo todo – e acaba convencendo o leitor. Mas você vai se pegar duvidando de Eva, quando a certeza dela passa a uma clara obsessão. E se ela estiver errada? E se estiver sendo injusta com Kevin? Acho que nunca saberemos e esta é a característica mais genial do livro.

O que eu sei é que reler Precisamos falar sobre o Kevin me fez ter certeza de que este é, sim, o meu livro preferido.

Trechos de Precisamos falar sobre o Kevin

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“Com o tempo, a ordem acaba escorregando facilmente para a conformidade.”

“Aquela foi minha introdução à maneira como, cruzada a soleira da maternidade, de repente você se transforma em propriedade social, no equivalente animado de um parque público. Aquela frase tão recatada, ‘você agora está comendo por dois, querida’, nada mais é que uma forma de provocação, porque nem mais o jantar é assunto privado seu.”

“Ressentimento banal, é verdade, mas a maioria deles o é. E, por sua pequenez, me senti obrigada a reprimir. Por falar nisso, essa é a natureza do ressentimento, a objeção que não podemos exprimir. É o silêncio, mais que a queixa, o que torna a emoção tão tóxica, como os venenos que o organismo não expele com a urina.”

“Há um autoengrandecimento no lamaçal dessa mea-culpa, uma certa vaidade. A culpa confere um poder espantoso. E simplifica tudo, não só para os espectadores e vítimas, mas, sobretudo, para os culpados. Ela impõe uma ordem à escória. A culpa ensina uma lição muito clara da qual outras pessoas talvez possam obter consolo: se ao menos ela não…, e com isso torna a tragédia evitável. Talvez seja até possível encontrar uma paz muito frágil na aceitação da responsabilidade total, e às vezes vejo essa calma em Kevin. É um aspecto que seus guardiões confundem com impenitência.”

“Num país que não sabe diferir fama de infâmia, obviamente a primeira parece mais fácil de ser atingida.”

“Sim, porque, cada vez que Kevin se curva e agradece ao público no papel de Encarnação do Mal, ele incha um pouco mais. Cada injúria atirada na direção dele – niilista, moralmente destituído, depravado, degenerado ou torpe – avoluma sua estrutura magrela muito mais que os meus sanduíches de queijo jamais conseguiram. Não espanta que esteja encorpando. Ele come as denúncias do mundo no café da manhã.”

“Responder uma vida com uma vida sucessiva é apenas transferir o ônus do propósito para a geração seguinte: esse deslocamento nada mais é que um atraso covarde e potencialmente infinito. A resposta dos seus filhos, presume-se, será procriar também, e, ao fazê-lo, empurrar a própria falta de propósito para a prole seguinte.”

“Bem, o Kevin me apresentou a um país realmente estrangeiro. Disso eu posso ter certeza, já que a definição do local verdadeiramente estrangeiro é que ele instiga uma ânsia penetrante e perpétua de voltar para casa.”

Leia sobre a adaptação de Precisamos falar sobre o Kevin.

P.S.: Precisamos falar sobre o Kevin foi traduzido pela diva Vera Ribeiro e por Beth Vieira.

Leia a resenha de outros livros de Lionel Shriver:

SELO_BLOGSPARCEIROS_2015 (2)

Sobre o autor

Brenda Bellani

Jornalista/tradutora/leitora.

16 Comentários

  • Poxa, quero muuuuito ler este livro! Eu tinha outra visão da mãe, achava que o menino era psicopata e ela que sofreria com ele, mas mesmo assim continuo querendo muito lê-lo. Essa visão que mencionei veio de outros comentários que li sobre o livro, obrigada pela resenha e por adicionar outra visão.
    Bjos!!
    http://1pedranocaminho.wordpress.com

    • Oi Val! Tudo bem? Eu também já li e ouvi muita gente dizendo que tem dó da Eva, principalmente as pessoas que apenas assistiram à adaptação. O filme pintou o Kevin como um psicopata, o que, convenhamos, ele é mesmo; mas eu acho que a narração em primeira pessoa da Eva no livro nos deixa com certa dúvida em vários momentos, porque ela é uma PÉSSIMA mãe. Ela odeia o Kevin. As coisas que ela fala em alguns momentos são revoltantes até demais! Depois de ler, por favor, me diz o que você achou e se sua visão sobre a Eva mudou! Acho essa discussão a melhor parte deste livro maravilhoso, cada um entende de um jeito e toma um partido diferente! <3

      Beijo e adoro te ver por aqui! =)

  • Não me canso desse livro. (só eu acho o título desse livro magnífico? Não só o título, é claro!) Como já te disse uma vez, eu sempre menciono esse livro quando estou falando de Literatura com alguém, tanto é que convenci minha professora da faculdade, que lecionava Literatura Inglesa, a lê-lo, e ela também amou o livro.
    Realmente nenhuma resenha consegue fazer jus à esse livro. Sinto que a resenha que escrevi na primeira leitura desse livro (já o li 3 vezes), parece um texto de uma criança do primário. Sua resenha tá muito boa, e você não poderia ser mais acertiva do que quando menciona: “uma personagem odiável (afinal, ela é uma criação da Shriver).” a autora é a melhor autora contemporânea, na minha modesta opinião, tanto é que estou tentando ler todos os livros publicados dela, restam apenas 2 😀 e não poderia ter tomado melhor decisão, a cada livro ela me surpreende ainda mais, quando eu acho que sei o limite da genialidade da autora, ela prova que pode ir além. O que mais me intriga é a forma como ela consegue colocar seus personagens além do bem e do mal, há tantos personagens dela que nos fazem ficar divididos, há tantos personagens odiáveis pelos quais você acaba torcendo.
    Ah Brenda, me dê cá um abraço! Não poderia ter lido coisa melhor que: “O que eu sei é que reler Precisamos falar sobre o Kevin me fez ter certeza de que este é, sim, o meu livro preferido”

    :’)

      • Joooe, você deve ser o maior fã brasileiro da Lionel Shriver! Haha E é ótimo ter companhia para idolatrá-la! Hahaha Essa mulher é um gênio! Como pode alguém escrever assim? Minha resenha não é digna de Precisamos falar sobre o Kevin; nenhuma resenha é. Eu escrevi o post assim que acabei. Hoje, relendo-o, eu já tinha mais um monte de coisas para escrever sobre ele (e eu ainda nem reassisti à adaptação)! Quanto ao que você disse: “Ela consegue colocar seus personagens além do bem e do mal”. É exatamente isso!!!

  • Oi, Brenda! Olha eu aqui! 😀 😀
    Terminei de ler o livro e não pude deixar de ler a sua resenha e conversar com você sobre esse livro GENIAL. Ainda me pego pensando na Eva e na angústia da sua vida como mãe.
    Durante a leitura eu tive muita pena da Eva, por tudo que ela abdicou da sua vida para ser mãe, uma coisa que ficou bem claro, nunca esteve nos planos dela. Os relatos tentando dela tentando mostrar ao marido os problemas de Kevin, e a omissão e passividade de Franklin me fizeram odiar esse personagem. Durante a leitura, enquanto Eva tentava encontrar um motivo para a doença do filho, eu pensava: é culpa desse marido que nada faz. E essa culpa que atribuí a Franklin ficou clara na postura do Kevin com o ele: o fingimento e o desfecho do pai. Para mim Kevin nunca amou o pai, ao contrário da do que ele sentia pela mãe. Não sei se posso chamar de amor o que Kevin tinha por Eva, mas com certeza existia uma ligação muito forte entre eles. Existia um motivo para as visitas quinzenais na prisão, para a espera do dia que o filho poderia voltar para casa, pelo “presente” que o Kevin dá para Eva na prisão e, principalmente, por ela não ter sido vítima do incidente.
    Eva era uma péssima mãe. Seu instinto maternal nunca chegou. Mas os dois estavam ligados, talvez pela loucura (em proporções diferentes rs) que assolou a vida de Eva depois da maternidade e a doença de Kevin.
    O título do livro também me chamou muita atenção, porque a história é contada por cartas direcionadas a Franklin, que nunca se importou com os problemas do filho. Sim, Franklin, é preciso falar sobre Kevin(s). Será que se se falasse sobre isso, o desfecho seria outro?
    Eu amei o livro e com certeza vou correr atrás de outros livros dela! Além de tantos debates que podem ser levantados, a escrita dela é maravilhosa e densa.

    Beeeeijos

    • [SPOILERS]
      Joana, eu AMEI esse seu comentário! Primeiramente, obrigada por ler o post e compartilhar sua opinião comigo! É por isso que eu amo TANTO esse livro, ele permite tantas opiniões, tantas discussões e tanto pano pra manga! <3 Com certeza, Franklin é um dos principais responsáveis pela quinta-feira e o mais engraçado é que o erro dele foi amar demais, proteger demais. E isso foi pior para o Kevin do que o desprezo e o ódio que a mãe sentia por ele. Realmente, é triste de ver o quanto a Eva deixou de ser ela mesma após virar mãe, mas a escolha de ter tido Kevin foi dela! No entanto, os motivos foram TODOS errados: para agradar e manter o marido, para responder a "grande questão", para ter com quem gastar a fortuna dela, para ter mais assuntos… Acho que eu foquei demais nas controvérsias de Eva na minha resenha por ficar incomodada de ouvir tanta gente dizer que ficou morrendo de dó da Eva depois de assistir ao filme, porque a adaptação foi parcial (como quase sempre, né?), e a protagonista tem a sua grande parte de culpa na criação de Kevin – que eu acredito ser psicopata desde o nascimento mesmo. Mas a chacina da quinta-feira aconteceu por intermédio dos três – pai, mãe e filho – por razões diferentes! (A própria Eva comenta em diferentes ocasiões as várias vezes que ela deu audiência para os adolescentes que cometiam essas chacinas e, quem sabe, com isso pode ter implantado a ideia na cabeça do Kevin.)
      Esta última visita ao Kevin no finalzinho do livro ME QUEBRA!!! É tão sensacional! Shriver constrói os dois personagens maravilhosamente, tanto a Eva quanto o Kevin, e você já tem uma opinião formada sobre os dois, aí chega esta cena final e pronto… Ela desconstrói todas as suas opiniões formadas deles! Afinal, Eva era uma mãe e Kevin um adolescente vulnerável e carente de atenção como qualquer outro.

      Sério, posso escrever por horas sobre esse livro… Hahahaha

      • Eu concordo com a sua opinião também rs. Eva me parecia uma mulher forte e independente, viajava o mundo, tinha um trabalho que amava, e de repente ela abdicou de tudo isso para ter um filho que ela nunca quis.
        Com certeza Eva teve a sua culpa no evento fatídico da quinta-feira, por não querer ser mãe e com isso carregar um ódio pelo Kevin, e o Franklin com a sua condição de não saber o que é ser pai!
        Esse livro é realmente sensacional! Toda hora vai surgir uma nova informação para discutirmos! huahauhahaua

        Olha, tem uma passagem que eu marquei no livro que eu gosto muito: “mas, por baixo dos níveis de fúria, espantei-me, quando descobri, havia um tapete de desespero. Ele não era louco. Era triste.” (pag 279).

        Em breve vou ler O mundo pós-aniversário 😀
        Quero ler tudo que ela já escreveu!
        Beijão!

  • Acabei de ler o livro. (Há uns 5 minutos)
    Mas não vou conseguir falar sobre ele sem ser em voz alta, então nem vou me enrolar aqui.
    Vou só dizer q é extraordinário em tudo, do começo ao fim.
    Faz a gente ter todo tipo de sentimento. Pqp.

    Vou ler os outros dela agora.
    Obrigada pela indicação.

    • Oi Andreza! Nossa, 5 minutos! Você deve estar mesmo sem palavras. É o que o livro causa na gente, né? É embasbacante! Shriver tem um talento único.

      Fico muito feliz que tenha gostado! Obrigada por vir me contar o que achou! =D

      Beijo,
      Brenda

  • Nesse livro usam a palavra Homossexualismo, vendo o livro em inglês não existe nada que possa permitir esse tipo de tradução. Eu vejo que ouve um erro das partes das tradutoras ao usar uma palavra que é um termo pejorativo e ofensivo para os homossexuais. Tirando isso eu gostei bastante do livro mas desde que eu percebi esse detalhe, fiquei bem incomodada.

    • Nossa, Bárbara! Eu realmente não notei isso durante a minha última leitura! De quando é a sua edição do livro? Espero que tenham mudado isso nas edições atuais, porque é um erro mesmo! A história do livro já é incômoda demais pode si só.

  • Ezra Miller é um ótimo ator, é muito talentoso e bonito, não há filme que não me surpreenda. Ainda não tive oportunidade de ver o filme, mas muita gente já me recomendou. Eu amo os filmes, especialmente onde participa Ezra Miller lembro dos seus papeis iniciais, em comparação com os seus filmes atuais, e vejo muita evolução, mostra personagens com maior seguridade e que enchem de emoções ao expectador. Eu recomendo em a liga da justiça Desfrutei muito sua atuação. A historia está bem estruturada, o final é o melhor. Se ainda não tiveram a oportunidade de vê-lo, eu recomendo. Adorei!

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