Entrevistas Especial

Psicóloga explica perfil e comportamento de stalkers

Entrevista com psicóloga sobre perfil de stalker

Em Eu sei onde você está, de Claire Kendal, Clarissa é atormentada diariamente por um stalker. O que significa e quais são as causas deste comportamento obsessivo? O SLET quis saber a resposta de uma profissional.

Por ser um assunto intrigante e importante, entrevistamos Nádia Helena Marciano, psicóloga clínica, a fim de explicar o perfil de um stalker. Tornar-se o alvo de uma obsessão acontece com mais frequência do que imaginamos e, no Brasil, stalkear – o verbo inventado pelos brasileiros para o ato de perseguir alguém – não é um crime, apenas contravenção penal.

A intenção de informar sobre o assunto é, primordialmente, conscientizar e, talvez, entendendo um pouco mais sobre o comportamento, as causas e as ações de stalkers, prevenir de se envolver com pessoas que possam apresentar o perfil.

Existe um nome exato para este tipo de comportamento obsessivo ou doença? E o que a caracteriza?

A nomenclatura utilizada para pessoas com obsessão por outras é STALKERS. Também pode ser chamado de TRANSTORNO DE PERSONALIDADE DEPENDENTE ou TRANSTORNO OBSESSIVO COMPULSIVO.

Na década de 90 ,houve um estudo alemão na Universidade de Darmstadt que definiu o perfil stalkers como aquele que persegue e invade fanaticamente a privacidade de uma pessoa próxima ou distante, com a justificativa delirante de que sua vítima é ligada a ele pelo destino e que por isso, a qualquer custo tem que haver aproximação e relacionamento.

O componente psicológico de onipotência faz acreditar que vai superar a resistência da vítima e convencê-la de que ela também necessita desse relacionamento. Comportamentos stalkers são atrelados à busca do preenchimento de vazios existenciais e autorregulação do equilíbrio interno. Busca-se no outro, numa atitude inconscientemente projetiva, toda a satisfação desejada para si.

Há como identificar e evitar com antecedência o contato ou a intimidade com pessoas com esse perfil?

A maneira como as pessoas lidam com as crises de relacionamento indicam se o sentimento pelo parceiro é de amor ou obsessão. A intensidade dos sintomas, a forma que se manifestam e os prejuízos causados à própria vida e à vida do outro caracterizam o comportamento obsessivo compulsivo.

A obsessão é egoísta, vigilante, inconsequente, desrespeitosa, agressiva, perturbadora, excessivamente ciumenta, invasora, perigosa e paranoica (desconfianças e suspeitas infundadas).

No amor há tranquilidade, compreensão, respeito, preocupação com o bem estar do outro, sinceridade, diálogo, confiança e parceria.

Infelizmente é relativamente fácil cair no assédio tão bem articulado de um stalker. Quando sua vítima suspeita de algo mais patológico, certamente já está muito próxima e acessível ao agressor; e muitas vezes já movidas por sentimentos de apego, atração, ansiedade, sufocamento psíquico, vergonha de expor situações inaceitáveis e até mesmo dependência emocional a ponto da vítima achar que precisa daquele relacionamento sem o qual não saberia viver…

Esse comportamento da vítima é chamado de co-dependência psíquica e indica um sofrimento emocional intenso.

Os perseguidores representam realmente uma ameaça física? É comum a obsessão passar de perseguição para violência e agressão?

O stalker é carente e irracionalmente agressivo pelo fato de haver um desejo geralmente impossível de ser correspondido na mesma intensidade. Seus pensamentos persecutórios passam a dominar a mente, gerando pânico diante da possibilidade de ser frustrado pela pessoa escolhida.

A fixação na vítima gera sentimentos antagônicos de amor e ódio. Portanto, é fato que podem acontecer manipulações e agressões em diferentes níveis e até mesmo crimes passionais.

Há desequilíbrio químico no comportamento stalker?

Pesquisas indicam que sim. O excesso da substância química chamada Dopamina influencia desordenadamente a motivação e o desejo; ao passo que a diminuição da Serotonina desencadeia estados de depressão e ansiedade. Mais de 60% deles são deprimidos, vivendo constantes oscilações de humor com sentimentos de frustração, rejeição e pensamentos destrutivos.

A busca do alívio desses sintomas é a crença ilusória de que sua “salvação” e satisfação estão no relacionamento com a pessoa escolhida, a qual preencheria irrestritamente suas necessidades.

Como eles “escolhem” as vítimas? Há algum tipo de padrão?

A perseguição pode acontecer com qualquer um. Depende do significado que o stalker dá para a pessoa. Pode ter um simbolismo de amor idealizado, de poder, sucesso, fama ou mesmo de santidade.

É mais comum o stalking vir de ex-cônjuges inconformados com relacionamentos fracassados. Com desconhecidos, representam a minoria, mas são públicos alguns casos de perseguição a personalidades famosas como John Lennon, Madonna, Jennifer Lawrence e mais recentemente a modelo brasileira Ana Hickmann.

Existem agora os obsessivos online, ou cyberstalking. Mensagens por celular, emails, seguir em redes sociais são novas formas de perseguição compulsiva. Por esses meios, torna-se possível saber detalhes, hábitos e localização das vítimas.

A orientação é que as pessoas procurem evitar exposições desnecessárias da vida pessoal e para aquelas já envolvidas em algum tipo de abuso, perseguição ou ameaça busquem garantir-se de sua segurança física em primeiro lugar e procurem apoio psicológico para tratar possíveis danos emocionais causados pela situação e prevenir recorrências.

Sobre o autor

Brenda Bellani

2 Comentários

  • Oie Brenda =)

    Hoje está cada vez mais dificil confiar em alguém =( A internet trouxe muitas coisas positivas, mas as vezes acho que as negativas se sobressaem, infelizmente.

    Eu tenho muito medo da exposição em que vivemos hoje, ainda mais quando você muitos vezes não percebe que o “inimigo” está ao seu lado.

    Beijos;***
    Ane Reis | Blog My Dear Library.

    • Oi, Ane!

      Com certeza! Apesar de todos os seus benefícios, a internet gerou um nível de exposição voluntária inacreditável, o que facilita o contato com pessoas com esse tipo de comportamento, infelizmente. Foi isso que mais me interessou em entrevistar a psicóloga: todos estamos sujeitos a este tipo de obsessão.

      Beijo e muito obrigada por ler,
      Brenda

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