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Quando ler causa ansiedade

Quando ler causa ansiedade

O que fazer quando aquilo que mais gostamos também passa a ser um causador de ansiedade? Um passatempo, por definição, deve ser um lazer agradável que eu escolho, bem, para passar o meu tempo. Quando ele começa a me dominar e a se tornar uma obrigação, também começo a perder o gosto pela atividade.

Foi isso o que aconteceu com a leitura.

Chega de ansiedade

Já há algum tempo notei que a minha corrida contra mim mesma para ler mais em menos tempo estava me deixando mais ansiosa do que me dando prazer. Primeiro, eu não tinha liberdade total na escolha das leituras por causa das parcerias. Por muito tempo, eu lidei bem com a rotina de resenhar para poder receber mais livros – lather, rinse, repeat.

E assim fui indo, comprando e ganhando mais livros do que dava conta e depois escrevendo sobre eles…  Até chegar a um ponto insustentável.

Não trabalho com o mercado editorial, mas produzo conteúdo. Ou seja, eu já passo o dia inteiro no PC, escrevendo para um site. Depois de mais de quatro anos mantendo o blog além do trabalho, eu atingi meu limite. Não tinha mais forças para voltar ao PC no fim do dia e me dedicar ao SLET.

Isso me gerou uma ansiedade grande, além da sensação de derrota. O que deveria ser meu hobby acabou se transformando em uma obrigação e eu fui obrigada a repensar tudo.

Ler rápido para ler mais

Talvez eu deveria ter começado o post dizendo que eu sou ansiosa por natureza. A sensação não é novidade para mim. O que me estranhou foi acabar transformando meu hobby preferido, uma das coisas que eu mais amo na vida, em outra fonte de ansiedade, quando ele tem o potencial enorme de me ajudar a diminui-la, não o contrário.

Pequenos-grandes prazeres como escolher a minha próxima leitura estava me deixando mais ansiosa. Terminar um livro e não resenhá-lo também, assim como passar semanas sem sentir vontade de escrever para o SLET.

Acredito que o único propósito de ler mais rápido seria conseguir ler mais livros. É um argumento válido. Entretanto, eu precisei desacelerar para conseguir mudar os hábitos gananciosos e insustentáveis que vim desenvolvendo nos últimos anos.

Mudanças de hábitos: qualidade > quantidade

Quando ler causa ansiedade

Eu estou mudando meus hábitos de leitura. O propósito principal é tentar reencontrar o prazer de ler e também de manter o blog, sem pressa e sem pressão.

Uma das consequências dessa mudança foi perder as parcerias. Foi triste, mas, por outro lado, aliviou a necessidade de acabar logo minhas leituras. Além disso, me devolveu algo que até então eu nem havia percebido o quanto me fazia falta: escolher a próxima leitura.

Quero experimentar o slow read com os mesmos princípios do slow travel: preferir qualidade a quantidade e apreciar o momento, sem ânsia de partir para o próximo livro (ou ponto turístico).

Em viagens, se eu estou cansada, posso me sentar em algum parque e “gastar” uma tarde sem fazer nada, só observando o ambiente. Da mesma forma, quando bate o bloqueio da vontade de ler, o livro é um calhamaço ou a leitura é lenta, agora eu me policio a levar o tempo que precisar.

Desligar o celular e me dedicar cem por cento à leitura também é outro aprendizado demorado que eu pretendo transformar em hábito para diminuir este vício perigoso.

Além de tudo isso, com a mudança de cidade, passei a ter Chromecast em casa. Até o momento, eu vi mais séries do que li livros este ano.

Enfim, foram vários fatores que me obrigaram a repensar minha rotina e a reviver o hábito de leitura por diversão. Leva tempo e não vai acontecer de uma hora para a outra, mas já vejo progresso no meu bem-estar emocional.

6 anos do SLET

Mês passado, o blog completou seis anos de idade. Não posso dizer que eu o abandonei, porque de vez em quando publico algo. No entanto, o último ano foi de reformulação. O SLET ainda passa por uma reinvenção que eu não sei bem aonde vai dar.

O bom de ter um blog particular sem amarras é que ele pode tomar o rumo que quiser. No meu caso, eu não sei o que eu quero ainda.

Este ano eu ainda estou reconstruindo a minha rotina e me adaptando a um novo ambiente, que me oferece dezenas de opções novas de lazer e aprendizado. São Paulo é um fervilhão cultural.

Quero retomar a ideia e a vontade de escrever sobre os eventos e lugares literários novos que conheço por aqui. Ainda me causa estranheza ir a um evento literário sem fazer anotações para poder escrever sobre ele depois no SLET. Mas eu precisava dessa adaptação sem o peso do compromisso.

Pela primeira vez, tive coragem de compartilhar textos autorais de ficção, pequenos contos e exercícios de escrita. Para uma ansiosa, dá para imaginar a síndrome do impostor que isso me causou. Apesar do medo, foi uma experiência boa e eu pretendo continuar.

Só não abandonei a conta do SLET no Instagram. Lá, continuei a compartilhar minhas leituras e a acompanhar outros leitores. Eu acho que o “bookgram” transformou a leitura, um hábito solitário por natureza, em uma atividade coletiva. E eu gosto muito desse grande “clube do livro” online.

Obrigada!

Por fim, quero agradecer quem ainda acompanha o blog, mesmo com o hiato, seja aqui ou nas redes. Seguimos juntos!

Sobre o autor

Brenda Bellani

Jornalista/tradutora/leitora.

15 Comentários

    • Oi, Lyan, obrigada por ler!

      É mesmo horrível. Quando menos percebi, nem vontade de ler eu tinha mais. Tem sido ótimo retomar o prazer em ler! <3

      Volte sempre,
      Brenda

  • Ainda bem que você conseguiu identificar algo que a deixava ansiosa e está conseguindo trabalhar isso.
    Às vezes sofremos com a ansiedade e não conseguimos identificar o que a está causando. Parabéns por não desistir do SLET.

  • Que coisa boa poder ler seu texto sobre esse assunto, que até chegamos a conversar um pouco sobre no sábado. Tem um parágrafo que acredito ser um dos mais importantes: “O bom de ter um blog particular sem amarras é que ele pode tomar o rumo que quiser. No meu caso, eu não sei o que eu quero ainda.” É exatamente isso! A gente escolhe os caminhos. Escrevemos para sermos lidas, mas a questão não é tanto sobre o que escrevemos, porque sempre haverá alguém para ler.
    Adorei seu blog e sempre passarei aqui <3

    • Oi, Tati, tudo bem? Muito obrigada por ler! Seja sempre bem-vinda ao SLET! <3

      É isso aí! Acho que o mais importante é escrever com carinho, independente do tema. Sempre vai ter alguém pra ler quando houver dedicação.

      Beijo!

  • Oi! Quero agradecer por ter escrito sobre esse assunto, pensei que estivesse sozinho nessa. É importante ter alguém que vivencie essa mesma triste realidade, ajuda a gente a ficar mais tranquilo e um ser à parte na sociedade, pois já me senti muito assim – o único que tivesse esse problema, e o resto de todos os leitores do mundo sempre tivessem uma leitura fluída e tranquila.

    Eu perseguia, até então, uma ideia muito enraizada de compensar o tempo e a quantidade de leitura que não fiz quando achei devido, na minha vida. Eu só vim ter um acesso mais significativo à leitura, na minha vida, há uns 2 anos. Foi quando peguei em algum livro e gostei do que estava lendo. Desde então, tenho progredido – ainda que hajam pedras no caminho e que me machuquem muito. A autocobrança e a ansiedade me fizeram mal por muito tempo. Somente com ajuda terapêutica melhorei isso, e mesmo assim, em março e abril deste ano me peguei tendo crises horríveis devido à minha insatisfação comigo mesmo em relação à leitura – eu me sentia mal por não conseguir ler, pois estava ansioso em função de outros problemas também(mas eu queria insistentemente ler, precisava “bater o ponto” para dizer que li), e quando batia a frustração, vixe… esse sentimento de derrota, de falhar mais uma vez só piorava tudo, porque minha ansiedade era maior na próxima vez em que eu pensasse que tinha de ler algo(meu pensamento era: você tem que ler), eu fazia da leitura uma obrigação, por uma questão de autocobrança.

    Mas isso é uma longa história para contar aqui. Então, em suma, só quero expressar meu alívio e satisfação de ver que não estou sozinho, e por você ter falado sobre isso. Sucesso!

    • Oi, Mikaedison, tudo bem? Muito obrigada por ler!

      Desde que publiquei esse texto, tive certeza de que não estamos sozinhos. Tanta coisa pode estimular a ansiedade. Nesse caso, eu fico pensando em todos os livros que ainda não li e nos que ainda quero ler e, quando vejo, já estou mais desesperada para ler mais rápido do que sou capaz e isso é bastante frustrante.

      Mas foi ótimo identificar isso. Desde ano passado, que notei essa ansiedade, já melhorei bastante. Ainda gostaria de ler mais e mais e mais. No entanto, quando eu começo a ter esse sentimento, eu tento desacelerar e me focar na leitura do momento. Tem ajudado!

      Fiquei contente de ler que você teve ajuda terapêutica. Eu também tive e foi a melhor coisa que eu já fez por mim mesma! =)

      Novamente, obrigada por ler e por deixar o seu comentário. Vamos tentar voltar a aproveitar a leitura como a atividade gostosa, relaxante e enriquecedora que ele é!

      Abraço,
      Brenda

  • Passo por isso mas pela falta de tempo. Cheguei aqui justamente pois buscava alguém que sentia a mesma coisa. Tenho diversos hobbies, gosto de ler, de ver série, filme, jogar videogame, ao mesmo tempo namoro, faço 2 faculdades e trabalho 40h por semana. Sentir vontade de ler outros livros e sentir que estou preso em um devido a falta de tempo me causa ansiedade. O fato é que queria ler mais, mas simplesmente não consigo pela falta de tempo. Atualmente penso em comprar um abajur para o quarto e ler todo dia antes de dormir (ou quando der vontade). Têm livros que comprei que ainda não li, têm livros que sei que quero comprar e não compro porque não terminei os que já comprei, e ao mesmo tempo isso causa uma dificuldade em continuar lendo o que estou lendo, uma ansiedade em começar algo novo, e uma tristeza por não comprar o que quero comprar, mesmo sabendo que não conseguiria ler. Acho que isso é causado muito pela finitude da vida. Acontece. Um bom texto, obrigado!

    • Oi, Raphael, acontece mesmo! A gente quer abraçar o mundo e o ler, que costuma ser uma coisa prazerosa, acaba gerando mais ansiedade. Não sei se funciona com você, mas tipo, tentar estipular metas bem alcançáveis, como ler cinco por dia ou então 20 minutos antes de dormir, por um tempo seja uma ideia para readquirir o hábito.

      Essa pilha de comprar livro novo mesmo não tendo lidos os outros eu tenho também. Embora compre muito menos hoje em dia, ainda assim sinto que comprar um livro novo dá um ânimo pra ler mais ou mais rápido. Não acho ideal. Hahaha Mas rola às vezes.

      O que a gente precisa mesmo é aprender a não se cobrar né? Vc faz duas faculdades (DUAS!??) e ainda trabalha, vê série, namora. Natural não conseguir ler tanto como antes. Eu percebo, por exemplo, que quanto tô com vontade de ler bastante, eu não vejo série NENHUMA. É o que tem acontecido nesse começo de ano. Tenho lido muito, mas vendo zero séries.

      Obrigada por ler, espero que saber que mais gente passa por isso tenha ajudado um pouco. =)

  • Excelente reflexão! Todo fim de ano eu penso em me inscrever nas parcerias com as editoras, e no fim não me inscrevo justamente por medo da cobrança e obrigação de ler.

    • Obrigada, Denise! Ter parcerias foi uma experiência gostosa por alguns anos, mas que não estava mais funcionando para mim. Reconhecer isso foi chato, mas depois me senti muito melhor. =)

      Beijo e volte sempre,
      Brenda

  • Cara, amei esse post, sério. Precisava que alguém falasse sobre quando ler demais pode fazer mal. Eu me obrigava a ler muito, mas não estava com todo aquela entusiasmo. Fora que certas coisas podem nos atrapalhar como o ambiente barulhento, sono, ansiedade ou estresse e preocupação.

    • Que legal que gostou, Daniel! Como tudo na vida, até ler em excesso faz mal. Hahaha Acho que o problema é que acaba virando uma obrigação e uma disputa interna para ler sempre mais. E a gente acaba desrespeitando nosso tempo, nossa vontade e nossas fases. Porque a vontade de ler é cíclica e depende de vários outros fatores externos e questões pessoais.

      É um processo, mas acho que o ideal seria respeitarmos nosso tempo.

      Obrigada por ler e volte sempre,
      Brenda

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