Tradução

Quando o tradutor é muito fã do autor traduzido

Umas duas semanas atrás, eu vi um link compartilhado pelo perfil oficial do Neil Gaiman no Twitter. Tratava-se de um post chamado On Translations na página do autor no qual ele responde a uma pergunta feita por um professor de Tradução da University of Nottingham, no Reino Unido. Klaus ministra um programa extracurricular sobre tradução cultural e, durante o curso, os estudantes precisam fazer um exercício prático de análise e tradução da parte final do livro The Graveyard Book, do Gaiman (no Brasil, O livro do cemitério).

Na versão original da obra, há uma música que deve soar como uma canção de ninar. A dúvida do docente é sobre como o próprio Gaiman gostaria que um tradutor trabalhasse com este trecho específico para manter a essência do final na língua de chegada.

A resposta de Neil Gaiman é bem interessante. Ele dá dica aos tradutores e também diz que não se importa quando eles entram em contato para tirar dúvidas e fazer perguntas diretas sobre suas obras durante o trabalho de tradução.

No entanto, um parágrafo específico me chamou a atenção. Nele, o autor critica o trabalho feito por um tradutor em uma das primeiras edições de Stardust em francês:

“I don’t want the translators inserting themselves between the reader and the book. (There was an early French edition of Stardust, where the translator decided that the book was an allegory based on John Bunyan’s The Pilgrim’s Progress, and added notes to make sure the reader understood this.) I don’t want things mistranslated in ways that, in these days of Google, there is no excuse for. (That same French Stardust translator thought, and footnoted, that the Unseelie Court was a complex pun based around Un-, See and Lie, and not a division of fairies.)”

Segundo Gaiman, ele não gosta quando o tradutor interfere na relação entre o leitor e o livro. Neste caso comentado no parágrafo, o tradutor para a língua francesa escreveu várias notas de rodapé dando a entender claramente que Stardust era baseado em O peregrino, de John Bunyan, e também usou as notas para explicar uma palavra (Unseelie) de maneira errônea.

Interferência do tradutor literário/fã na leitura

Pareceu-me que este tradutor específico não só estava tentando “interferir” na leitura, como Gaiman mesmo diz, mas também aparecer, ser notado. (O uso de notas do tradutor é um assunto interessante e eu gostaria de escrever sobre isso em outro post à parte.)

Apesar de toda tradução literária (toda leitura, na verdade) ser uma interpretação, o profissional mencionado deixou transparecer opiniões pessoais em suas notas, algo que seria evitável se ele pesquisasse mais sobre a obra de Gaiman (apesar de estarmos nos referindo a uma obra publicada originalmente há quase 20 anos) ou então até mesmo verificasse diretamente com o escritor. Sinto como se este tradutor específico, por meio das notas, quisesse chamar a atenção para algo que só ele havia notado em Stardust ou então que estivesse fazendo uma crítica ao autor por “copiar” a narrativa de O peregrino.

Não sei exatamente se este seria o caso e, com certeza, as razões para este tipo de interferência devem ser variadas, mas acredito que isso possa acontecer quando o tradutor sente-se ligado intimamente ao autor ou à obra por ser fã. Um potterhead traduzindo J.K. Rowling, por exemplo, provavelmente se sentiria tentado a explicar todas as palavras inventadas pela autora, seus sentidos, etimologia, importância de alguns acontecimentos para a história, etc. Porque se não for explicado, como é que o leitor recém introduzido à série entenderá a genialidade da autora?

Talvez entenda e talvez não. No caso da negativa, cabe a ele conversar com outros fãs, pesquisar na web, entrar em fóruns… E é assim que surgem os fandoms. Não é trabalho do tradutor, por mais que ele admire a obra, “mastigar” o texto para o leitor.

Leia o post do Neil Gaiman na íntegra aqui.

Clarice Lispector e a laranja

Há também o tradutor/acadêmico que se “introduz” na obra do autor. Lembro-me de uma história contada durante a pós-graduação sobre a tradutora Hélène Cixous, que foi responsável por introduzir Clarice Lispector ao público francês nos anos 70. De tanto estudar a autora brasileira, ela se considerava a voz da Lispector na língua francesa.

Estudiosa do feminismo, Cixous acabou dando novos significados particulares às obras de Lispector, inclusive traduzindo maçã, em A maçã do escuro, para laranja, no que ela chama de “tradução voluntária”:

“Sou culpada também de tradução voluntária […] Na tradução da maçã (para laranja), eu tento me denunciar. Um jeito de agarrar a minha parte. Da fruta. Da fruição. […] Tornando-me simples como uma maçã, justa como a bondade de uma maçã. Eu tenho a inocência frágil, acidental, nervosa. […] Longe da laranja, eu não me perdoo o escrever. Escrevo para pedir perdão. Escrevo também a laranja para pedir-lhe perdão por não estar madura para ela.”

De certa forma, os estudos a fizeram se sentir íntima da autora e, com a intimidade, ela passa a acreditar que entende a mente da pessoa melhor do que os outros.

Existem alguns posts disponíveis na web que falam sobre Hélêne Cixous e os seus estudos sobre Clarice, como esta entrevista, este trabalho acadêmico e esta crítica bem peculiar escrita por Marilene Felinto para a Folha e publicada em 1999, intitulada “Um surto lésbico-literário”.

Você já sentiu este tipo de interferência do tradutor em alguma obra?

Sobre o autor

Brenda Bellani

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