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Quem tem medo do feminismo negro?

Quem tem medo do feminismo negro? é uma obra de amplo sucesso da Djamila Ribeiro. Uma coletânea de textos publicados originalmente na web, o livro da Companhia das Letras já tem mais de dez reimpressões e foi traduzido para outros idiomas.

Nele, a filósofa política conta um pouco da sua história na introdução e, nos artigos e crônicas, provoca reflexões sobre negritude, racismo, interseccionalidade, feminismo, entre outros temas.

É um livro extremamente necessário, em especial em um país que ainda nega seu racismo estrutural e onde três a cada quatro mulheres assassinadas são negras*.

Djamila Ribeiro e o feminismo negro

Essa foi a minha terceira obra da Djamila – em 2020, li Pequeno manual antirracista e Lugar de fala, dois livros que também deveriam ser leituras obrigatórias. Para quem leu um desses dois, já está um pouco familiarizado com os temas que a autora discorre em Quem tem medo do feminismo negro?.

Mesmo assim, recomendo a leitura. Pessoalmente, me fez refletir muito. (No entanto, se fosse indicar um livro para você começar a ler Djamila Ribeiro, eu diria Pequeno manual antirracista.)

4 coisas que você aprende: Quem tem medo do feminismo negro?

Reuni aqui quatro dos diversos aprendizados que o livro Quem tem medo do feminismo negro? lhe proporcionará. Espero que você fique com vontade de ler também!

1. Não existe racismo reverso

“Racismo é um sistema de opressão e, para haver racismo, deve haver relações de poder. Negros não possuem poder institucional para ser racistas. A população negra sofre um histórico de opressão e violência que a exclui.”

Racismo é uma questão de opressão e poder por anos a fio. O povo branco não sofreu a opressão que o negro sofreu com a escravidão, portanto, ser chamado de palmito, por exemplo, é de mal gosto ou sem noção, mas não é racismo.

“Sofrer, todos sofrem, faz parte da condição humana, mas opressão é quando um grupo detém privilégios em detrimento de outro. Ser chamado de palmito não impede que a pessoa desfrute de um lugar privilegiado na sociedade, não causa sofrimento social.”

Desde sempre, a referência de beleza vendida é branca. Quando você faz algum comentário negativo em relação a algum branco, você não está reforçando estereótipos de séculos ou que coloquem a vida da pessoa em risco como a dos negros.

2. Ser contra sacrifício em religiões de matriz africana é hipocrisia

Quem tem medo do feminismo negro?, Djamila Ribeiro

“É sabido o modo desumano como os animais são tratados nos grandes abatedouros e pela indústria da carne. Logo, faz sentido proibir o sacrifício nessas religiões enquanto a indústria fatura bilhões? Fora isso, católicos comem peru no Natal, peixe na Semana Santa, e alimentos com carne são vendidos em quermesses.”

Ser contra o sacrifício de animais em religiões de matriz africana é uma grande hipocrisia enquanto ainda se comer carne. Pare para pensar quantos frangos você come por ano. E aí?

Nas religiões africanas, há uma razão prática e sagrada para os animais serem sacrificados – embora para nós leigos pareça ser “à toa”. Depois da oferenda aos orixás, eles viram refeições e a pele de carneiros, por exemplo, é usada para fabricar instrumentos musicais.

“No dia em que os homens deixarem de ter na mesa galinha, galo, carneiro, porco, boi… naturalmente esses animais deixarão de ser ofertados aos deuses.”

Por experiência própria, já fui contra. Mas, depois de me tornar vegetariana (e no meu caso foi exatamente pela causa animal, embora haja inúmeras razões para deixar de comer carne), parei para pensar na grande hipocrisia e no racismo embutido nesse pensamento.

Se você cresceu em religião católica, como eu (mesmo que não praticante), com certeza já ganhou um frango assado em uma quermesse. Se o bicho já está morto e assado, aí tudo bem? E o peru de Natal, aí pode? Enquanto houver sacrifício em massa de animais na indústria alimentícia, ser contra o sacrifício religioso só por ser de matriz africana não faz sentido.

3. Falar apenas em feminismo universal é insuficiente

“(…) o discurso universal é excludente, porque as mulheres são oprimidas de modos diferentes, tornando necessário discutir gênero com recorte de classe e raça, levando em conta as especificidades de cada uma.”

Não há como negar a importância do feminismo, mas falar dele como universal não é suficiente. Não tem como pensar no ser mulher quando cada uma de nós tem uma vivência diferente no mundo. E a universalização da categoria “mulheres” sempre representou a mulher branca de classe média.

Enquanto o feminismo lutava para que as mulheres pudessem votar ou trabalhar sem a permissão do marido (que foram lutas essenciais, sem dúvidas), as mulheres negras nem eram vistas como mulheres e trabalharam desumanamente como escravas por séculos.

Já ouviram o discurso “E eu não sou uma mulher?” da Sojouner Truth, considerado uma das primeiras falas do feminismo negro? Então…

Uma mulher negra diz que é uma mulher negra. Uma mulher branca diz que é uma mulher. E um homem branco diz que é uma pessoa.”

Ouvi isso num episódio do podcast Calma, Gente Horrível. Não sei de quem é a autoria, mas só ela já é suficiente para entender a necessidade de se falar em feminismo negro e em diferentes vivências da mulher.

4. As cotas raciais são necessárias

“Cota é uma modalidade de ação afirmativa que visa diminuir as distâncias, no caso das universidades, na educação superior. Mesmo sendo a maioria no Brasil, a população negra é muito pequena na academia. E por quê? Porque o racismo institucional impede a mobilidade social e o acesso da população negra a esses espaços.”

Quando surgiu a discussão, eu era uma adolescente e fui contra. Eu acreditava que o certo seria melhorar o sistema educacional como um todo. Eu era jovem, ingênua e ignorante em relação a causas sociopolíticas e sobre a própria história do país.

Djamila explica que o investimento no ensino de base deve existir juntamente com as cotas raciais, que funcionam como medidas emergenciais temporárias para diminuir essa exclusão da população negra no meio acadêmico.

“Após quatro séculos de escravidão no Brasil, em que a população negra trabalhou para enriquecer a branca, incentivou-se a vinda de imigrantes europeus para cá. Tiveram acesso a trabalho remunerado, e muitos deles inclusive receberam terras do Estado brasileiro – o que não deixa de ser uma ação afirmativa. Se hoje a maioria de seus descendentes desfruta de uma realidade confortável, é graças a essa ajuda inicial.”

Segundo um estudo do Ipea, se o Brasil começasse a melhorar efetivamente a educação de base, demoraria aproximadamente cinquenta anos para que ela fosse de fato de qualidade e atendesse a todos. Até lá, Djamila questiona, quantas gerações mais seriam condenadas se as cotas não existissem? E sabemos muito bem que educação não é prioridade do governo.

Quem tem medo do feminismo negro?

E, afinal, quem tem medo do feminismo negro? Quem nega as diferentes formas de ser mulher. “Para quem é o feminismo então? É necessário entender de uma vez por todas que existem várias mulheres contidas nesse ser mulher e romper com a tentação da universalidade, que só exclui.”

* Dado do Monitor da Violência.

Sobre o autor

Brenda Bellani

Jornalista/tradutora/leitora.

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