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Semana da Mulher: A redoma de vidro, de Sylvia Plath

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Talvez você seja como eu, e conheça apenas a história trágica do suicídio da famosa poetisa norte-americana, Sylvia Plath. Ela se matou aos 30 anos colocando a cabeça dentro do forno com o gás ligado. Em apenas três décadas conturbadas, ela construiu uma carreira admirável como um dos nomes femininos da poesia norte-americana. O seu único romance, A redoma de vidro, publicado em 1963 (o ano de sua morte) foi o meu primeiro contato com o trabalho dela. Pesquisando sobre o livro depois de terminá-lo, soube que a história é semi-autobiográfica. Li a tradução de Chico Mattoso, publicada no Brasil pela Biblioteca Azul em 2014.

Para mim, A redoma de vidro poderia ser dividido em duas partes:

Primeira parte:

Esther, 19 anos, está estagiando em uma revista feminina sobre moda, literatura, comportamento, etc. em Nova York como convidada, juntamente com outras jovens promissoras de todos os Estados Unidos. Elas estão hospedadas em um hotel só para mulheres e frequentam muitos eventos da revista e outras festas. Esther tem uma carreira escolar/acadêmica exemplar, mas sente-se desmotivada. Ela não está aproveitando a experiência em Nova York como imaginava que aproveitaria, muito menos sabe o que fazer quando o estágio acabar e ela tiver que voltar para a universidade.

Esther gosta de vivenciar coisas diferentes, observar o comportamento alheio e tem um caráter um pouco dissimulado – ela gosta bastante de mentir, é persuasiva e inventa personagens os quais interpreta com muita convicção.

Segunda parte:

Com o término do estágio em Nova York e a recusa em um curso que ela esperava ser admitida, Esther se vê obrigada a voltar para casa e esperar pelo término das férias de verão. Todas as possibilidades à sua disposição, no entanto, a desagradam.

A protagonista não se sente atraída por nenhuma das duas principais opções que uma mulher tem ao se tornar adulta nos anos 60: desistir de uma carreira e virar esposa/mãe/dona-de-casa; ou optar por uma carreira convencional. Esther queria ser algo mais extraordinário – uma poetisa de sucesso ou uma professora universitária –, mas sofre com a pressão de todos os lados: da universidade, da editora na revista, da mãe, dos vizinhos, da sogra…

Ela não consegue lidar com o possível fracasso – não tem conseguido dar andamento à sua tese sobre Finnegans Wake de James Joyce e não quer cursar as disciplinas obrigatórias da graduação.  Assim, aos poucos, a menina cai em uma depressão profunda.

Da ponta de cada galho, como um enorme figo púrpura, um futuro maravilhoso acenava e cintilava. Um desses figos era um lar feliz com marido e filhos, outro era uma poeta* famosa, outro, uma professora brilhante, outro era Ê Ge, a fantástica editora, outro era feito de viagens à Europa, África e América do Sul, outro era Constantin e Sócrates e Átila e um monte de amantes com nomes estranhos e profissões excêntricas, outro era uma campeã olímpica de remo, e acima desses figos havia muitos outros que eu não conseguia enxergar. Me vi sentada embaixo da árvore, morrendo de fome, simplesmente porque não conseguia decidir com qual figo eu ficaria. Eu queria todos eles, mas escolher um significava perder todo o resto, e enquanto eu ficava ali sentada, incapaz de tomar uma decisão, os figos começaram a encolher e ficar pretos e, um por um, desabaram no chão aos meus pés.”

Internação psiquiátrica e temas atuais

Eu não esperava pelo rumo que a história tomou (afinal, ainda não sabia ser um romance autobiográfico). Esther acaba internada em uma clínica psiquiátrica por alguns meses, onde vive isolada de todos. (A impressão que me dava, a cada capítulo, é que Esther cavava um buraco cada vez mais profundo e se afundava sem volta.)

A narração em primeira pessoa é ora divertida, graças ao sarcasmo e as mentiras de Esther, ora angustiante, nos momentos em que a protagonista sente-se perdida em suas dúvidas. A jovem discorre muito também sobre o que se é esperado do comportamento feminino em sua época – o que é considerado promíscuo, como seria o ideal guardar-se para seu futuro marido, mas não esperar que os homens façam o mesmo. Esther saía com muitos garotos, na maioria das vezes, despretensiosamente, mas também havia se envolvido em um namoro longo com Buddy, um futuro médico internado em uma clínica de tratamento para tuberculose. Ela fala bastante do garoto durante o livro todo, normalmente com rancor e desprezo – tanto por ele quanto pela mãe dele.

Apesar de escrito nos anos 60, A redoma de vidro tem temas aplicáveis à atualidade, como a pressão entre os jovens para decidir o futuro, para atingir o sucesso prematuro e as diferenças entre gêneros (e uma pontinha em questões feministas).

A metáfora para a depressão

Plath3“Eu sabia que devia ser grata à Sra. Guinea, mas não conseguia sentir nada. Não teria feito a menor diferença se ela tivesse me dado uma passagem para a Europa ou um cruzeiro ao redor do mundo, porque onde quer que eu estivesse – fosse o convés de um navio, um café parisiense ou Bangcoc –, estaria sempre sob a mesma redoma de vidro, sendo lentamente cozida em meu próprio ar viciado.

A redoma de vidro é uma metáfora para a depressão da protagonista. Esther diz sentir-se sufocada por uma redoma que a cobre. Ela pode ver o exterior e tudo que se passa ao seu redor, mas não consegue se livrar do invólucro que a prende e dificulta sua respiração. Em última análise, a redoma de vidro é a mente de Plath. Não importa onde ela esteja ou o que ela faça, vai sempre continuar presa dentro de sua mente depressiva.

É uma metáfora para a mente de qualquer pessoa, na verdade, mesmo de quem não sofre de depressão. Qualquer pessoa vive aprisionada pela sua própria consciência, suas próprias ideias e pensamentos incessantes.

Sylvia Plath, uma garota, interrompida

A história e os sintomas de Esther me lembraram muito Susanna, de Garota, Interrompida, por vários motivos: ambos são romances autobiográficos; Esther e Susanna sofriam de depressão; as duas protagonistas narram a história em primeira pessoa; ambas tentaram se matar quando jovens e passaram pela experiência de internação em uma clínica psiquiátrica; ambas têm comportamentos que podem ser classificados como personalidade limítrofe; as duas histórias se passam nos anos 60; as narradoras são jovens inteligentes e promissoras, e ambas querem ser escritoras.

Assim como em Garota, Interrompida, A redoma de vidro nos faz perceber o quanto o tratamento psicológico evoluiu desde a década de 60. A própria Plath, assim como sua personagem fictícia, foi internada por depressão e passou por tratamento de eletrochoques. O que teria acontecido com ela se vivesse nos tempos atuais? Talvez o seu fim tivesse sido menos trágico e precoce. Susanna teve tempo para pesquisar sobre a sua doença e publicar a sua história anos após a sua internação. O futuro de Esther é incerto (apesar de uma ou outra dica durante todo o livro), mas a história de Plath é amplamente conhecida e não durou muito mais tempo após o lançamento de seu único romance.

Trechos de A redoma de vidro

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“Pensei em me enfiar nos lençóis e tentar dormir, mas aquilo me atraía tanto quanto enfiar uma carta suja e rabiscada num envelope novo e limpo. Resolvi tomar um banho quente de banheira. Deve haver um bocado de coisas que um banho quente não resolva, mas não conheço muitas delas.”

“Percebi que recebíamos essa montanha de presentes porque elas funcionavam como propaganda, mas eu não conseguia me fazer de desentendida. Eu adorava ser coberta de mimos.”

“- Você nunca vai querer ter um bebê. Não deviam deixar as mulheres verem isso. Seria o fim da raça humana.” (Falando sobre o parto normal.)

“A única coisa que o artigo não parecia levar em conta eram os sentimentos da garota. Podia até ser legal manter-se pura e casar com um homem puro, mas e se depois do casamento ele confessasse que não era puro (…) Eu não conseguia suportar a ideia de uma mulher ter que seguir uma vida pura enquanto o homem vivia uma vida dupla, uma pura e outra não.”

“Comecei a entender como os misóginos conseguiam fazer as mulheres de bobas. Eles eram como deuses: invulneráveis e poderosos. Eles desciam à terra e desapareciam. Era impossível colocar as mãos neles.”

“Minha mãe havia dito que a cura para alguém que passava muito tempo pensando sobre si mesma era ajudar pessoas que estivessem em situação muito pior, e Teresa me arrumou uma vaga de voluntária no hospital local.”

“Claro que eu não acreditava em vida após a morte, na concepção da virgem, na inquisição ou na infalibilidade daquele Papa com cara de macaco, mas o padre não precisava saber de nada disso. Eu podia apenas me concentrar no meu pecado, e ele me ajudaria a me arrepender. O único problema era que as igrejas, mesmo a igreja católica, não tomavam conta de toda a sua vida. Você podia se ajoelhar e rezar o quanto quisesse, mas ainda assim teria que fazer três refeições por dia, ter um emprego e viver no mundo.”

P.S.: A redoma de vidro foi adaptado para o cinema em 1979, dirigido por Larry Peerce. Desde 2010 há rumores sobre uma nova versão estrelada por Julia Stiles, mas não achei nenhuma informação sobre estreias.

*Este é o segundo livro que leio “a poeta”. Não sabia que também servia como substantivo feminino!

Sobre o autor

Brenda Bellani

Jornalista/tradutora/leitora.

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