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Sobre Animais noturnos: a adaptação de Tony e Susan

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O filme Animais noturnos começa com mulheres obesas nuas dançando animadamente, em câmera lenta, com pom-poms de cheerleaders. Se você se sente desconfortável com nudez, fica aqui a dica para não se assustar logo no início. Eu, com certeza, não esperava por isso e me perguntei o que aquilo tinha a ver com o livro. Será que eu estou me esquecendo de algum detalhe da obra lida há duas semanas? Mas não estava. Esta foi apenas a forma inusitada escolhida por Tom Ford para começar o seu filme. E digo seu porque é mesmo: roteiro, produção e direção.

(Antes de continuar, talvez seja melhor você ler a resenha de Tony e Susan, livro que inspirou o filme Animais noturnos.)

Ford é estilista. A sua carreira de sucesso na área da moda transparece nitidamente em seu filme: nos figurinos e na maquiagem, nos cenários, no uso das cores… Quando acompanhamos a Susan, o filme tem toda uma ambientação sombria e luxuosa. Amy Adams está ótima e há uma evidente separação entre a sua personagem na juventude, mais relaxada e despojada, e na fase adulta atual, imponente, madame, triste e perdida.

Susan

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A história de Susan foi a que mais sofreu alterações em comparação à obra literária. No livro, mesmo com toda a sua capacidade, ela era dona de casa por opção, dava algumas aulinhas universitárias de inglês, tinha três filhos e aparentava ser mais submissa ou conformada com o rumo que ela mesma escolheu para a sua vida. Apesar de eu ter gostado da transformação que Ford proporcionou à Susan no filme, obviamente, a vida dela é contada em mais detalhes no romance, principalmente os motivos para a separação dela e de Edward. Mas, sim, a mulher era ambiciosa e os planos do ex de se tornar autor não a satisfaziam mais. Edward era romântico, no entanto, Susan dá a entender que ele era quase um caso perdido – queria desesperadamente ser autor, mas não parecia ter talento para isso.

O livro de Edward

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As partes mais fiéis e também as melhores do filme são as de Animais noturnos, o livro de Edward, ex-marido de Susan, interpretado por Jake Gyllenhaal, que também é Tony Hasting, o personagem principal do romance. A sua atuação está em perfeita sincronia com o livro. Enquanto sua família é abordada violentamente pelos três integrantes do carro, tudo o que ele consegue fazer é gaguejar e tentar acalmar os ânimos sem sucesso.

Mas quem se sobressai é Aaron Taylor-Johnson como o nojento e inescrupuloso Ray. A cena inteira dele na privada ao ar livre até o soco de Tony é tão bem interpretada que poderia ter pulado direto de dentro do livro (e nem existe aquela cena da privada no romance)! Ele não tem motivos para atormentar famílias inocentes à beira da estrada a não ser o fato de que ele é um psicopata disfarçado de vagabundo. E dos mais espertos! A premiação de Aaron como melhor ator coadjuvante em filme de drama no mais recente Globo de Ouro foi merecida.

Michael Shannon também ficou perfeito como o xerife Bobby Andes, um personagem quase caricato. (O ator me deixou pasma com a sua pequena, mas chocante participação em Foi apenas um sonho. Desde então, eu acredito que um dia esse cara ainda ganha um Oscar.)

O choque entre vida real e ficção

Na resenha, eu já havia dito que às vezes sentia como se estivesse lendo um roteiro de cinema durante a leitura de Tony e Susan. Esta é uma história que funciona melhor na tela. Portanto, aconteceu algo bastante raro: eu gostei mais da adaptação do que do livro!

Acho que a frase chave do filme/livro é esta dita por Edward:

“Ninguém escreve sobre outra coisa senão sobre si mesmo.”

animais-noturnos1Eu não consigo me lembrar de Susan dizendo que Edward costumava chamá-la de “animal noturno” por causa de sua insônia. No entanto, em comparação ao livro, no filme tudo tem de ser mastigado, e a ligação entre a vida real – o término de Edward e Susan, as coisas terríveis que ela fez para ele – e o romance Animais noturnos fica muito mais clara. O marido rejeitado talvez tenha criado a trama brutal e perversa de Animais noturnos para expressar como ele se sentiu naquela época. Afinal, ninguém sabe escrever sobre outra coisa a não ser si mesmo.

Sobre o autor

Brenda Bellani

Jornalista/tradutora/leitora.

2 Comentários

  • Muito, muito boa história. Isso não faz de “Animais Noturnos” um filme enfadonho ou desinteressante. O fato é que as duas tramas chamam a atenção, embora a história do livro seja muito mais intensa – e valeria um filme apenas sobre ela! Além disso, os cortes que intercalam as tramas são muito bem orquestrados, e aqui vale dar destaque aos match cuts que aumentam ainda mais a fluidez da narrativa e as lembranças da protagonista. Se Amy Adams consegue dar profundidade na tristeza de Susan, é Jake Gyllenhaal (A recomendação, deixo este filme: http://br.hbomax.tv/movie/TTL603379/Demolicao é o melhor de Gyllenhaal) que se destaca com praticamente três personagens diferentes já que um deles sofre algumas mudanças ao longo de um período. Michael Shannon, Aaron Taylor-Johnson e Laura Linney também se destacam, embora seja um pouco exagerado que Linney faça o papel da mãe da personagem principal, quando qualquer atriz um pouco mais velha conseguiria fazer o mesmo com mais veracidade.

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