Escritores Especial

Sobre John Green e transtornos mentais

Tartarugas até lá embaixo, novo livro do famoso autor de romances juvenis, John Green, encerra-se com os seus agradecimentos. No finalzinho, para fechar o livro, ele diz:

A sua mente pode achar que não. Os seus pais e familiares podem achar que é frescura. Os seus amigos podem se afastar. Mas há cura sim! O que a atrapalha é o preconceito e a ignorância em relação aos transtornos mentais. Se os aceitássemos como fazemos com qualquer outra doença, procuraríamos ajuda assim que os sintomas começassem a aparecer.

Histórico de depressão

Foi exatamente o que eu fiz. Minha família tem histórico de depressão e síndrome do pânico. Minha avó materna passou um longo período de cama com uma depressão gravíssima na década de 60, quando isso era considerado “doença dos nervos” ou “frescura” – A redoma de vidro e Garota, interrompida estão aí de prova de como a doença era tratada neste período.

Metade das mulheres da minha família já passou por terapia. Ao invés de ignorar o meu histórico e esperar que os sintomas começassem a aparecer, eu também procurei uma psicóloga. Trato com ela há três anos e foi a melhor coisa que já fiz por mim.

Outra coisa comumente mal vista é o uso de medicamentos para o tratamento de doenças psicológicas. Se tem pessoas que precisam tomar remédio para pressão alta ou diabetes a vida inteira, porque não para tratar da saúde mental?

Não há nada que indique claramente que o principal ocasionador dos transtornos de Aza foi a morte do pai, mas com certeza um evento traumático como este pode potencializar a doença, principalmente quando a mãe da menina morre de medo de perdê-la também, mas não sabe como ajudá-la. Porque é realmente muito difícil entender como a mente de alguém com TOC e outros problemas psicológicos funciona.

Para quem vê de fora, a solução parece simples. Está triste? Fica feliz. Tem pensamentos compulsivos? É só “parar de pensar”. Quando, na verdade, ninguém tem controle real sob a própria mente. Policiar os próprios pensamentos negativos ou compulsivos é um exercício diário.

Experiência real

A principal razão de John Green ter conseguido tratar sobre o assunto de uma forma tão tocante, realística e não-romantizada é porque ele mesmo já passou pelos problemas de Aza. O autor sofre desde criança de problemas mentais crônicos, como o TOC, e quando sua protagonista toma gel antisséptico está apenas revivendo na ficção algo que já aconteceu com ele na vida real.

“Optei escrever sobre o que me é familiar”, diz ele em uma entrevista. “A literatura pode nos fazer menos sozinhos, e talvez nos ajude a nos entendermos melhor”.

Personagens como a Aza são importantes não só para que as pessoas que passam pelos mesmo problemas se identifiquem e entendam que não estão sozinhas, como também para ensinar e instigar a empatia nas pessoas que ainda se baseiam em ideias estereotipadas, romantizadas ou preconceituosas.

A romantização dos problemas psicológicos

Como comentei na resenha, o meu trecho preferido do livro diz:

“…ao meu ver, transtornos mentais são muito superestimados. A loucura, na minha experiência limitada, não vem acompanhada de superpoderes. Não estar mentalmente saudável não torna uma pessoa portadora de uma inteligência sublime, do mesmo modo que uma gripe não o faz. Sei que era para eu ser uma detetive brilhante, mas na verdade sou uma das pessoas menos observadoras que conheço.”

A indústria do entretenimento insiste em proliferar um estereótipo de personagens com distúrbios mentais que possuem uma inteligência acima do padrão, como se a doença os transformasse em indivíduos peculiares e “sobrenaturais”.

Os exemplos são diversos. Aqui vão três deles:

  • Lisbeth Salander, da coleção Millennium;
  • Artur, do livro O sorriso da hiena;
  • Spencer Reid, de Criminal Minds;

Você já havia notado este estereótipo? Conhece outros exemplos?

Todos estes personagens sofrem de algum tipo de problema psicológico, como TOC, mas ao mesmo tempo (ou até mesmo graças ao problema) possuem uma perspicácia, inteligência e raciocínio excepcionais (não é à toa que os três são detetives!). Esse estereótipo é tão prejudicial quanto o de que depressivos são loucos ou desequilibrados.

Pensar em si mesmo

Como Daisy faz questão de apontar, Aza não parece se importar com a vida da amiga e passa a maior parte do tempo pensando nela mesma.

– Holmes, um dia você ainda vai ganhar o Prêmio Nobel por Arrogância Extrema, e eu vou morrer de orgulho” (Fala de Daisy em Tartarugas até lá embaixo.)

O problema é exatamente esse. Os transtornos fazem com que as pessoas vivam presas em suas próprias mentes e não de uma maneira opcional e narcisista. Esta é uma das características da doença, extremamente bem ilustrada por John Green no livro.

Em Garota, interrompida, Susanna Kaysen, que foi internada por transtorno de personalidade limítrofe, diz:

“Uma das grandes satisfações da saúde mental (seja lá o que isso for) é a de precisar gastar muito menos tempo pensando em mim mesma.”

O filme O mínimo para viver (que, por sinal, é excelente), sobre pessoas com distúrbios alimentares, tem uma personagem secundária que é anoréxica e está grávida. Ao aceitar a gravidez como um incentivo para se tratar, ela afirma que “vai ser bom se preocupar com alguém além de si mesma”.

As pessoas que sofrem com qualquer tipo de transtorno mental viram reféns dos pensamentos negativos e compulsivos. Não é uma escolha. Na verdade, elas têm a escolha de aceitar a doença e procurar ajuda. Mas este nem sempre é um passo fácil a ser dado, afinal, há ainda todo o preconceito e a vergonha relacionados ao assunto.

É um ciclo vicioso que precisa e deve ser interrompido.

O que você acha sobre o assunto? Conte-nos sua opinião nos comentários! =)

Sobre o autor

Brenda Bellani

6 Comentários

  • Ahhhh, que texto ótimo! <3
    Obrigada por compartilhar sobre a depressão na sua família. Eu também procuro terapia para evitar problemas que sei serem recorrentes na minha, isso é muito importante.
    Engraçado, eu não pensei que o transtorno de Aza pudesse estar ligado à morte do pai. Imagino que seja uma possibilidade, mas às vezes o transtorno simplesmente existe, não?
    E eu gostei muito da Daisy, inclusive quando ela chama Aza de egoísta. Acho que isso faz parte da não-romantização do transtorno mental. Ao mesmo tempo em que Aza tem, sim, seus motivos para ser tão fechada em si mesma, ela tem que saber lidar com os outros. Daisy faz um esforço para conviver com ela, mas é claro que é difícil. Gosto que o livro mostre os problemas da amiga também, e que no fim elas se resolvam, porque se amam acima de tudo.
    Só mais um comentário: minha mãe é fã de Criminal Minds, e não sabia das dificuldades das pessoas com TOC; ela realmente achava que elas conseguiriam ser muito focadas na investigação, como a série mostra.
    Vou compartilhar o post. 🙂

    • Ahhah, Babi! Muito obrigada por ler e compartilhar o post! 😀

      A terapia é uma das melhores partes da minha semana! Haha Em três anos, ela já me ajudou tanto, que eu nem saberia explicar. É uma pena que as pessoas ainda a enxerguem como “coisa de louco”, porque eu acredito que todo mundo deveria fazer terapia! Hahaha

      Acho que o transtorno pode simplesmente existir, sim, apesar de não ter conhecimento aprofundado de suas causas. A minha avó, por exemplo, teve uma infância muito difícil. Ela perdeu mãe, pai e avó em questão de dois anos e cresceu praticamente desamparada. Com certeza, tudo isso influenciou a sua doença e consequentemente influenciou a forma com que ela criou as filhas, que também já sofreram com depressão e síndrome do pânico. Para mim, sempre pareceu que uma coisa levou a outra. No entanto, minha mãe e minhas tias vivenciaram a doença em uma época mais lúcida e bem informada; e agora eu e minhas primas vivemos em uma época melhor ainda, em que procurar ajuda ANTES dos sintomas aparecerem é mais comum e bem aceito. Então as coisas vão melhorando! =)

      Adorei a Daisy! Também achei essa parte muito importante sobre a amizade das duas. Não é fácil sofrer de distúrbios, não é fácil conviver com alguém que sofre de distúrbios, mas um pode aprender muito com o outro! E o final do livro!? Eu achei tão lindo!

      Eu só conheço o Spencer, de Criminal Minds, por causa da minha mãe, porque ele é o personagem preferido dela! Hahaha Fiquei um pouco em dúvida se ele cabia nestes exemplos, porque, pelo que pesquisei, ele tem esquizofrenia e síndrome de Asperger, e as pessoas com esse transtorno realmente costumam desenvolver habilidades incomuns (por exemplo, memorizar sequências ou ter conhecimento aprofundado sobre algum assunto bem específico). Mas quando parei para pensar nestes personagens, percebi que todos eram detetives! Exatamente como a Aza fala no meu trecho preferido! Hahaha

      Enfim… Muito obrigada pelo comentário! Este tema dá muitas discussões interessantes! Haha

      Beijo,
      Brenda

  • Ai, que post maravilhoso <3
    Outro personagem da ficção que é romantizado é o Sheldon de Big Bang Theory e o próprio Sherlock. São personagens que claramente sofrem de problemas psicológicos, mas como são super inteligentes e "super-humanos", isso é visto como algo legal ou (no caso do Sheldon) como chacota.

    Da primeira vez que li a sinopse de Tartarugas pensei "ai, lá vem mais um livro sobre saúde mental de alguém que não sabe nada sobre isso", mas logo fiquei feliz de ver que o John Green se baseou em experiências próprias. Que mais autores façam isso!

    Beijos Brenda :*

    • Obrigadaaa, Marina! <3

      Eu cheguei a acrescentar o Sheldon nesta listinha, mas acabei tirando pra deixar apenas os três que são detetives. Mas com certeza ele é um exemplo perfeito da romantização dos problemas psicológicos.

      Acho que Tartarugas até lá embaixo consegue retratar muito bem o diálogo interno de alguém que sofre de distúrbios mentais. Outros livros superestimados sobre o tema não conseguem fazer isso (como Por lugares incríveis, por exemplo). Acho isso tão importante, pra tentar acabar com os preconceitos que ainda existem.

      Beijo,
      Brenda

  • Tratar a depressão ou qualquer outro tipo de transtorno é fundamental. Já ouvi todo tipo de comentário. Que psiquiatra é médico de loucos, que ficamos escravos dos remédios, que pagamos para uma pessoa ouvir nossas fofocas… Quando se é diagnosticado e alguém fala que o seu transtorno pode ser controlado, você quer mais é que os comentários se explodam. Ninguém quer ter ou sofrer de algum transtorno, então vamos cuidar sim. Já sofri muito com Transtorno do Pânico, com TAG (transtorno da ansiedade generalizada), e depressão decorrentes desses outros transtornos. Hoje, me cuido e vivo uma vida normal. Com medicamentos e terapias. Ainda bem que a medicina e as terapias avançam cada vez mais. Minha mãe sofreu muito num tempo em que transtornos mentais eram tratados com muita estranheza e preconceito.

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