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Sobre reler Harry Potter e o Cálice de Fogo

Em Harry Potter e o Cálice de Fogo, o protagonista já é um adolescente de 14 anos. Como o mundo mágico já não é nenhuma grande novidade para ele nem para o leitor, J.K. Rowling precisa nos entreter de outra forma. É aí que entra o Torneio Tribruxo (ou Triwizard Tournament). E o que isso significa?

Há muito tempo sem uma nova edição, devido aos perigos mortais enfrentados pelos campeões, o Torneio é uma disputa entre três grandes escolas de magia, cada uma representada por um estudante, feita em três fases que devem colocar à prova os conhecimentos, talentos e coragem dos participantes. O responsável por selecionar o estudante mais digno e adequado de cada escola é o Cálice de Fogo. O recipiente aceita apenas que candidatos acima de 17 anos submetam o seu nome e ele seleciona apenas um campeão por escola.

Após selecionar Cedrico Diggory, um Lufa-Lufa de Hogwarts (personagem já apresentado no terceiro livro da série), a meia-Veela Fleur Delacour, da Beauxbatons, e o jogador profissional de Quadribol Viktor Krum, da Durmstrang, para a surpresa de todos, o Cálice ainda escolhe um quarto nome… HARRY POTTER!

As desgraças não se cessam…

Verdade mesmo é que eu duvido que os leitores realmente tenham se surpreendido com a seleção “ilegal” de Harry, afinal todo tipo de desgraça acontece com ele. Apesar de o menino gostar de ouvir conversa alheia e de tentar resolver problemas que não são dele (como já escrevi aqui), muita coisa ruim acaba o atingindo ou o ameaçando sem que ele tenha culpa nenhuma.

Nesta releitura, tenho notado o quanto o protagonista não tem participação nas desgraças: não provoca nada e mesmo assim as coisas acontecem. Quando sobreviveu ao ataque de Voldemort, ele tinha apenas um aninho de idade e não entendia nada do que se passava. Mesmo assim, desde então, automaticamente ele passou a ser alvo de atenção e de ameaças de morte.

“…Hagrig sighed suddenly, looking back down at him with a worried expression on his face. ‘School champion… everythin’ seems ter happen ter you, doesn’t it?’”

Senti muita pena dele neste livro, da forma com que ele é simplesmente jogado no torneio, sem ao menos querer participar, e do quanto ele sofre de ansiedade a cada tarefa, tendo que enfrentar coisas muito acima da sua idade e capacidade mágica – além da zombação da Sonserina e o ciúmes de Ron. Espantou-me também a apatia dele e do Dumbledore quando o nome dele surge do Cálice. Ele não tentou se safar da tarefa, o que me faz pensar em duas possibilidades: ou secretamente ele queria participar, ou era orgulhoso demais para não participar.

A leitura muda com o passar dos anos

Temo em admitir que não achei O Cálice de Fogo tão legal quanto eu me lembrava ou talvez a leitura tenha sido diferente desta vez, com quase 30 anos. Eu ainda amo o livro, principalmente o seu final, que é assustador e emocionante (eu chorei de novo com a leitura). Amo também como a J.K. Rowling consegue manter o mistério do livro até o final – eu nunca adivinharia quem era o culpado – e todos os demais segredos secundários. No entanto, a leitura foi mais arrastada do que esperava e não me senti tão envolvida com as tarefas do Torneio Tribruxo quanto na pré-adolescência.

Realmente, o Harry recebe muita ajuda durante o livro todo, apesar de ele mesmo ter que executar as tarefas sozinho – e não eram nada fáceis! Mas é no final que ele mostra do que é capaz e também, acredito, é a primeira vez, mesmo com tudo que já passou nos livros anteriores, que ele realmente comprova a sua coragem. (Apesar de, mesmo neste momento, ele receber uma ajuda do “além” – uma cena muito emocionante.)

Você só assistiu aos filmes?

Peguei sem querer o começo da adaptação na TV, assisti apenas aos seus primeiros 20 minutos e não aguentei mais. Havia me esquecido de como o filme é ruim! Não tem explicação nenhuma, poucos diálogos reveladores ou informativos, e cenas animadas e forçosamente cômicas totalmente desnecessárias.

Se eu conseguir fazer uma coisa que preste com este post, que seja isso:

Se você só assistiu aos filmes e ainda não leu os livros, você não tem noção do TANTO que está perdendo!

Por favor, não deixem se enganar pelas adaptações. Os livros têm tanta informação deixada de fora nos filmes e essenciais para a compreensão total da trama, que é rica, extremamente bem escrita e impressionantemente assombrosa.

Considerações sobre a releitura de Harry Potter e o Cálice de Fogo:

(ATENÇÃO: Spoilers!)

  • Pela primeira vez alguém admite – no caso, Hermione – que, mesmo sendo adorável, Hagrid não era um professor adequado para o cargo. Admitir isso parece traição! Mas, no geral, Dumbledore não é a melhor pessoa para escolher os membros de seu corpo docente. Um exemplo óbvio é o Snape: um mágico claramente poderoso e hábil, mas sem ética profissional nenhuma, abusando de seu poder como professor para fazer diferença absurda entre os estudantes e até mesmo os ameaçando fisicamente.

“Professor Snape, who seemed to have attained new levels of vindictiveness over the Summer, gave Neville detention, and Neville returned from it in a state of nervous collapse, having been made to disembowel a barrel full of horned toads.”

  • Voldemort é cheio de si e obcecado pelo poder. Apesar de sua aparência monstruosa, ela é um personagem muito real.
  • Uma prova da crueldade de Rowling: ela constrói um personagem perfeito como o Cedrico – bonito, inteligente, corajoso, educado, nobre, justo, de caráter impecável- para depois matá-lo impiedosamente. Parece que é proposital só para os leitores sofrerem ainda mais.
  • Eu acho assustadora e doentia a imagem de homens adultos, autointitulados Comensais da Morte, rindo da tortura e da dor de um garoto de 14 anos. E o “engraçado” é que Harry é mais corajoso que todos aqueles homens juntos!

The Death Eaters were laughing again. Voldemort’s lipless mouth was smiling. Harry did not bow. He was not going to let Voldemort play with him before killing him… he was not going to give him that satisfaction…”

  • Eu não me lembrava do tanto de dicas sobre a trama dos próximos livros que a Rowling dá em O Cálice de Fogo. Ela fala sobre os trabalhos do Voldemort para atingir a imortalidade (uma menção óbvia às Horcruxes = “I, Who have gone further than anybody along the path that leads to immortality. You know my goal – to conquer death”); a comunicação mental entre Dumbledore e Snape; o poder de proteção da casa dos Dursley; a sala secreta de Hogwarts que se transforma no que você precisar; entre outras.
  • Acho incrível como a Rowling consegue criar personagens que representam uma comunidade/classe toda: Rita Skeeter é a personificação de jornalistas abelhudos e sensacionalistas, preocupados mais com a fama do que com o compromisso com a verdade; e Cornélio Fudge é a representação de políticos manipuladores, preocupados mais com o poder e a própria reputação do que com o bem geral.

“’You are blinded,’ said Dumbledore, his voice rising now, the aura of power around him palpable, his eyes blazing once more, ‘by the love of the office you hold, Cornelius! You place too much importance, and you always have done, on the so-called purity of blood! You fail to recognize that it matters not what someone is born, but what they grow to be!”

  • Relendo Harry Potter, é desconcertante notar a semelhança da trama com a situação atual dos Estados Unidos e suas leis imigratórias, que os transformam em “nós”, americanos (“bruxos sangue puro”), e eles, os estrangeiros (“trouxas” e “sangue sujo”). Sem contar a semelhança óbvia com o Holocausto.
  • Pela primeira vez eu pensei que, no mundo real, o Harry poderia ser uma pessoa tão atormentada que ele teria o histórico comum de um jovem que comete atentado na escola – órfão, solitário, alvo de ódio e bullying rotineiro… Logo depois de ter este pensamento, cheguei exatamente neste trecho do livro: “It was a state of nervouness so advanced that he wondered whether he mightn’t just lose his head when they tried to lead him out to his dragon, and start trying to curse everyone in sight”.
  • Hermione conquista cada vez mais o coração dos leitores! Ela com certeza é a melhor personagem em termos de caráter e tem uma enorme parcela no sucesso de Harry no Torneio. Neste livro, ela ainda acha tempo para defender os direitos dos elfos domésticos e vira a crush do Viktor Krum!

“She seemed to be taking the library’s lack of useful information on the subject as a personal insult; it had never failed her before.”

Sobre o autor

Brenda Bellani

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