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Tartarugas até lá embaixo, de John Green

Tartarugas até lá embaixo, de John Green (Blog SLET)

Aza é uma adolescente comum. Vive com a mãe, vai à escola, tem uma melhor amiga, dirige um carro velho que já foi de seu pai… No geral, leva uma vida tranquila. Mas por que então ela tem a sensação constante de descontrole?

Em Tartarugas até lá embaixo, o novo livro de John Green, publicado pela Intrínseca e traduzido por Ana Rodrigues, Aza perdeu o pai quando criança e desde então mora sozinha com a mãe, que é professora na escola onde ela estuda. Sua melhor amiga, Daisy, é espirituosa e escreve fanfics de relativa fama sobre Star Wars nas quais Rey vive um relacionamento com o Chewbacca. As duas se encontram com frequência após a escola, principalmente para jantar no Applebee’s usando cupons de desconto.

Mesmo com uma vida ordinária, a menina tem quase certeza de que ela é ficção. A começar pelo fato de não ter controle nenhum sobre a sua vida, muito menos sobre seus próprios pensamentos. Até mesmo o horário do intervalo escolar é decidido por um sinal que ninguém sabe quem determinou quando tocar.

Milionário desaparecido

Um milionário chamado Russell Picket que mora numa mansão próxima à casa de Aza está foragido e há uma recompensa de cem mil dólares para quem der qualquer informação à polícia sobre o seu paradeiro. Daisy lembra que Aza conhece o filho do homem, Davis. Os dois frequentaram o mesmo acampamento na infância, para crianças que perderam um dos pais. A amiga decide que as duas irão até à casa dele tentar encontrar alguma prova relevante para conquistar a fortuna.

Ao reencontrar Davis, Aza relembra o quanto o menino é interessante e os dois acabam reatando a amizade, que logo se torna algo mais. No entanto, é óbvio que os dois não estão na melhor fase para começar um romance: Aza tem tido crises constantes e Davis precisa se preocupar com o irmão mais novo e com a própria sensação completa de abandono – além de já ter perdido a mãe muito cedo, o pai desapareceu sem se preocupar em dar notícias.

Enquanto Daisy se ocupa em tentar descobrir algum furo na busca pelo pai de Davis, Aza e Davis começam a se envolver. No entanto, mesmo que exista o aspecto de romance juvenil no livro, Tartarugas até lá embaixo é muito mais do que isso.

Diálogos internos

Apesar da trama ser interessante, com as peculiaridades e bizarrices comuns às obras de John Green (por exemplo: se Pickett morrer, ao invés de sua fortuna passar a ser dos filhos, ela será dedicada ao estudo de sua tuatara), o mais incrível de Tartarugas até lá embaixo é a forma com que o escritor conseguiu tratar do TOC e transtornos mentais de sua personagem principal.

Aza até que tenta levar uma vida comum, mas ela vive em constante guerra com o seu próprio cérebro. Ela tem mania de abrir um corte no seu dedo médio e depois ficar obcecada com a higienização do machucado.

Os parágrafos de diálogos internos são muito tocantes.

Trecho de Tartarugas até lá embaixo, de John Green

É como se duas ou mais pessoas habitassem a mesma mente e discordassem o tempo todo. Aza sente-se uma prisioneira em sua própria cabeça. E é muito fácil de se identificar com isso! As obsessões e transtornos mentais têm vários níveis, fases e intensidades. Green conseguiu retratar o assunto de uma forma realística e extremamente humana, sem a romantização e o enaltecimento característicos ao assunto em obras de ficção.

Meu trecho preferido do livro é este aqui:

“A loucura, na minha experiência limitada, não vem acompanhada de superpoderes. Não estar mentalmente saudável não torna uma pessoa portadora de uma inteligência sublime, do mesmo modo que uma gripe não o faz. Sei que era para eu ser uma detetive brilhante, mas na verdade sou uma das pessoas menos observadoras que conheço.”

Doenças psicológicas são doenças como quaisquer outras e também devem receber um tratamento adequado, que varia de pessoa para pessoa. É por isso que Aza visita regularmente uma psicóloga e precisa tomar remédio. E é por isso que não há nada de incrível e sobrenatural em relação aos seus transtornos.

(Mas isso é tema para um outro post!)

Amizade unilateral

Tartarugas até lá embaixo, de John Green (Blog SLET)

A sua dificuldade de manter-se em contato com a realidade consequentemente a faz parecer aérea, desinteressada e até mesmo bem estranha. Daisy sabe disso mais do que ninguém, sendo a melhor amiga dela desde criança. Mas nem sempre é fácil manter uma amizade que parece unilateral na maior parte do tempo.

Aza não é capaz de se concentrar no que Daisy fala e não demonstra interesse pela vida pessoal da amiga. Os obstáculos de uma amizade como a delas são reais e Daisy é uma personagem tão bem construída quanto Aza. A menina inclusive cria uma personagem fictícia nas suas fanfics para representar a melhor amiga e dizer por meio dela tudo que não pode confessar na vida real. Que não é fácil lidar todos os dias com quem tem problemas mentais, mas que podemos amá-los mesmo assim, com todos os seus defeitos, peculiaridades e também qualidades. E que é mil vezes mais difícil para quem sofre disso.

Aza é um ótimo exemplo. Pode ser um personagem da ficção, mas representa inúmeras pessoas que passam pelas mesmas coisas, inclusive o próprio John Green.

Leia também: 

John Green e a sua fórmula para livros adolescentes

Sobre o autor

Brenda Bellani

3 Comentários

    • Aaaah, lindona! Muito obrigada, Caaah! Eu tive dificuldade de escrever sobre este livro, porque quase me foquei totalmente na parte sobre transtornos mentais e acabei não escrevendo muito sobre a trama geral! Precisei refazer a resenha! Hahaha

      Tô torcendo por você no sorteio! 😉

      Beijo,
      Brenda

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