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Regras básicas e formalidade vs. informalidade na legendagem e dublagem, por Letícia Novais

Diferença de formalidade na legendagem e dublagem 2

Quero falar um pouco com vocês sobre áreas da tradução que eu amo: a dublagem e a legendagem. Possuo alguma experiência com legendagem, pois é uma área bem difícil de ingressar, e com a dublagem apenas experiência prática e com o que estudei na graduação em Tradução e Interpretação. Mas em breve começarei a trabalhar revisando tradução para dublagem! Eba!

Primeiro quero começar explicando alguns detalhes técnicos, as regrinhas “chatas” que essas duas áreas possuem e que os clientes exigem que cumpramos. É valido lembrar que essas regras variam de cliente para cliente.

Legendagem

A legendagem é uma tradução do conteúdo oral para o meio escrito, feita de forma resumida e objetiva.

Máximo de 2 linhas por legenda. Essa regra é geral.

Limite de caracteres. O limite de caracteres varia de cliente para cliente. Já lidei com trabalhos que exigiam 32 caracteres por linha e outros 42 caracteres por linha.

Quem adora escrever muito como eu sofre com isso! Muitas vezes você achou a frase linda de um jeito, mas acaba ficando grande demais e não comportando o limite, então precisa escolher palavras menores ou tentar de algum modo encurtar o texto.

E temos também que considerar que quase sempre ao traduzir algum material do inglês para o português, o texto em português será maior que o em inglês. Imaginem o alemão então, que possui palavras enormes? Já fiz testes de tradução em que o número de caracteres do texto em inglês e português tinha que ser IGUAL. Quase surtei!

Tempo de exposição da legenda. O tempo mínimo de exposição costuma ser de 1 segundo, se a legenda é muito curta, por exemplo, “Oi”, “Ok”; e o tempo máximo de exposição varia entre 6 e 7 segundos. A duração varia de acordo com a quantidade de palavras que a legenda possuir.

É interessante destacar que os programas infantis costumam ter uma exposição maior da legenda do que os programas para o público adulto.

Regras estilísticas da legendagem

Resumirei agora algumas regras estilísticas gerais da legendagem que são de extrema importância.

Quebras de linha. Não é só dividir a legenda e pronto. É preciso analisar onde será feito o corte da sua legenda.

Quebrar antes de: sinais de pontuação, conjunções, preposições. E não se deve separar um substantivo de seu adjetivo ou um substantivo de seu verbo.

Errado: E sem bons pais as

coisas podem dar errado.

Certo: E sem bons pais

as coisas podem dar errado.

Nesse caso foi separado o sujeito “coisas” e seu artigo “as”.

Uma pessoa por linha. Quando for diálogo, deve-se colocar a fala dos personagens em linhas separadas e colocar um traço para indicar diálogo.

Errado: [George] -Boa sorte. [John] -Obrigado.

[Marie] -Obrigada.

Certo: [George] -Boa sorte.  [John] -Obrigado.

(A fala de Marie ficaria em outra legenda.)

Itálico. Costuma-se usar itálico em títulos de filmes, livros, em falas em idioma estrangeiro, em diálogos escutados através de televisão, celular, ou seja, em que o locutor não esteja presente na cena, e em letras de músicas, quando não traduzidas.

Dublagem

A dublagem é uma tradução do conteúdo oral também para meio oral, feito de acordo com a sincronia labial e gesticulações do personagem.

Linguagem mais informal, por tratar-se de um texto a ser reproduzido oralmente. O texto precisa soar natural na linguagem oral, por isso o foco não é a linguagem formal. No português há uma grande diferença entre a escrita e a fala. Vocês poderão ver melhor as diferenças no comparativo que farei aqui no post.

A fala traduzida deve ter a mesma duração que a fala do original. Senão fica com aquele estilo novela mexicana mal dublada.

Sincronia labial. Deve haver uma proximidade entre os movimentos labiais e a fala traduzida. Acredito que esse ponto seja bem difícil de alcançar, mas deve-se tentar ao máximo.

Agora vamos para os comparativos entre formalidade vs. informalidade.

As diferenças entre a dublagem e a legendagem

Diferença de formalidade na legendagem e dublagem

Em 2014 realizei um trabalho para apresentação na Mostra Acadêmica da UNIMEP e falei sobre as diferenças entre a dublagem e a legendagem; a informalidade vs. formalidade. Fiz algumas coletas da série How I Met your Mother, comparando a versão dublada com a legendada.

  • Ei, está frio aqui? Legenda
    Pera aí, ta frio aqui, hein?  Dublagem
  • Agora, para seu próximo desafio… Legenda
    Agora, pro seu próximo desafio…  Dublagem
  • Não haverá outro desafio. Legenda
    Não vai ter outro desafio. Dublagem
  • Você dormiu com a irmã dela? Legenda
    Cê pegou a irmã dela? Dublagem
  • Dê-me outra chance? Legenda
    Me dá outra chance? Dublagem
  • Estou ligando para ela. Legenda
    ligando pra ela. Dublagem
  • e que ainda não lhe promoveram? Legenda
    e que ainda não promoveram você? Dublagem
  • Você dispensou uma estrela pornô? Legenda
    Você deu um fora numa atriz pornô, meu chapa? Dublagem
  • Por que Natalie desligaria na sua cara? Legenda
    Por que ela bateu o telefone na sua casa? Dublagem

Vocês podem perceber claramente a diferença entre a dublagem (informal) e a legendagem (formal). Por exemplo, o uso de “tá” no lugar de “está” é claramente da linguagem oral, assim como o uso do verbo “ir + infinitivo” em vez do verbo “haver”, pouco usado na linguagem oral.  Pode-se perceber também o grande uso de gírias e expressões informais, como “bater o telefone”, “dar um fora”, cê pegou”. Como How I Met your Mother é uma série do cotidiano, com linguagem bem informal, não há problema algum em fazer isso. Entretanto, se for algo com um tom mais formal, como House of Cards, da Netflix, deve-se tomar mais cuidado com a informalidade. Seria meio estranho ver um Presidente falando “cê” em vez de “você”.

Eu como tradutora, revisora e estudante de línguas estrangeiras, com certeza opto sempre pela legendagem. Sem dúvidas assistir materiais legendados me ajudou muito a desenvolver minha fluência nos idiomas, e também gosto muito de escutar as vozes originais. Acredito que a voz muda muito a essência. Um exemplo é o seriado Todo Mundo Odeia o Chris (Everybody Hates Chris). Gosto muito desse seriado e o acompanhei todo pela TV aberta brasileira. Quando, por curiosidade, pesquisei o original, em inglês, achei bem diferente. Assisti um episódio inteiro e não achei tão engraçado, talvez por estar acostumada com o dublado. Mesmo a dublagem sendo excelente, achei que ela tirou a essência do sotaque afro-americano das personagens, que não tem sentido ser reproduzido no português, e que é presente na versão original.

E não só a voz muda a essência, como também as adaptações que são necessárias para o entendimento do público-alvo. Um exemplo interessante é o seriado Chaves. Há um episódio sobre uma aula de história, onde no original retratam a história do México e na tradução para dublagem o episódio é totalmente adaptado falando sobre a história do Brasil. Abaixo coloquei os links dos episódios no YouTube já com reprodução no minuto exato para vocês compararem:

Espanhol: 

Português: 

O original fala sobre o conquistador do México e o dublado sobre o descobridor do Brasil.

Mesmo não gostando de assistir materiais dublados, acho a dublagem brasileira excelente comparada à de outros países. Não podemos negar o grande trabalho que os profissionais da área de dublagem realizam, assim como as traduções e adaptações feitas pelos tradutores e revisores dessa área. A tradução para dublagem é um grande desafio, pois possui limitações mais complexas que as da legendagem, na minha opinião.

Espero que meu post tenha esclarecido um pouco as diferenças entre essas duas modalidades, que utilizam técnicas totalmente diferentes e que estão tão presentes no nosso dia a dia.


Tradutora audiovisual Leticia NovaisSobre Letícia Novais: Formada em Letras – Tradução e Interpretação e tradutora e revisora há mais de 3 anos. Tem como foco as áreas de Administração, Games, Marketing e TI. Gosta de Rock e músicas dos anos 80 para baixo. Sempre foi apaixonada por idiomas e por conhecer novas culturas. Ama viajar, cozinhar e fotografar.

Sobre o autor

Brenda Bellani

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