Eu recomendo Livros

Um amor incômodo, de Elena Ferrante

Com a morte de sua mãe, Amalia, por afogamento, Delia é forçada a voltar à sua cidade natal na Itália para resolver toda a documentação do enterro e organizar o apartamento onde a senhora vivia. Por lá, ela acaba se confrontando com figuras masculinas do passado que fizeram parte da vida e da morte da mãe: seu tio Filippo, irmão de Amalia, um velhinho ativo e mal humorado, que perdeu um braço aos 50 anos; o seu pai, um pintor violento e infeliz; e Caserta, um galanteador apaixonado por Amalia desde a época em que Delia era criança.

Delia esperava a mãe para mais uma de suas visitas esporádicas em Roma. Pouco antes da morte da mulher, ela fez duas ligações confusas para a filha, proferindo obscenidades e se dizendo acompanhada de um homem. Após o afogamento, já no apartamento da mãe, Delia encontra um saco de lingeries velhas e em seguida recebe uma ligação misteriosa que a ajudam a refazer os últimos passos da mulher a fim de entender a sua morte.

Um turbilhão de lembranças confusas e reprimidas

Um amor incômodo foi publicado originalmente em 1992 pela escritora Elena Ferrante, que usa o pseudônimo para manter-se anônima. No Brasil, ele ganhou uma edição da Editora Intrínseca com tradução de Marcello Lino.

Assim como em A filha perdida, a viagem faz a narradora mergulhar em um turbilhão de lembranças e sentimentos reprimidos em relação ao passado. Durante a infância e adolescência, ela e as duas irmãs acompanharam os casos de violência emocional e física infligidos a mãe pelo pai, um homem frustrado, machista e doentiamente ciumento. Ele não permitia que a mulher risse, olhasse para os lados, expusesse o corpo ou conversasse com outros homens. Quando descontente, desferia tapas, socos e chutes.

“Eu nunca sabia se a violência com que ele a protegia dos outros homens esmagaria apenas os rivais ou também acabaria se voltando, fatalmente, contra ele mesmo. Meu pai era um homem insatisfeito. Talvez não tivesse sido sempre assim, mas foi no que ele se transformou quando parou de zanzar pelo bairro, ganhando sustento decorando balcões de lojas ou carrinhos em troca de comida (…) Sabe-se lá que destino ele imaginava para si mesmo e ficava furioso porque a vida não mudava, porque Amalia não acreditava que fosse mudar, porque as pessoas não gostavam dele como deveriam.”

Caserta aparece no velório e desperta a possibilidade de que ele e Amalia estivessem se vendo na velhice; com isso, ressurgem também as histórias sobre o suposto caso que os dois tiveram na juventude, quando o pai de Delia e o tio Filippo quase o mataram por isso. Amalia era bela e sempre chamou atenção dos homens; Delia tinha com a mãe um comportamento protetor, apegado e de quase inveja. Apesar de a protagonista não dizer abertamente e provavelmente não querer enxergar, ela tem mais do pai do que da mãe. Desde pequenininha, admirava a beleza e desenvoltura da mulher, que era costureira, e tentava imitar seus gestos e atitudes, com os ciúmes que eram característicos do pai.

Sobre o desvendar de mães imperfeitas

No entanto, ao contrário de A filha perdida, em que a protagonista tenta entender o seu papel como mãe, em Um amor incômodo, Delia, em meio a uma introspecção atordoante, procura compreender o seu papel como filha. Enquanto na infância ela fazia de tudo para ser igual a mãe, na vida adulta, aos 40, solteira e independente, ela acaba se tornando Amalia sem se dar conta.

“Eu não estava perseguindo ninguém e ninguém estava me perseguindo. Não estava sendo esperada e não esperava visitas. Minhas irmãs haviam partido para sempre, meu pai estava em sua velha casa, na frente do cavalete, pintando ciganas. Minha mãe, que havia anos existia apenas como uma obrigação incômoda, às vezes como um tormento, estava morta. Porém, enquanto eu esfregava vigorosamente o rosto, especialmente em torno dos olhos, percebi com uma ternura inesperada que, na verdade, Amalia estava sob a minha pele, como um líquido quente que havia sido injetado em mim sabe-se lá quando.”

Delia tratava a mãe idosa com irritação e impaciência. Em qual ponto da vida a veneração deixou lugar ao incômodo? Quando criança, é fácil idealizar aquela que nos serve de exemplo e, à medida que envelhecemos, começar a notar rachaduras na imagem perfeita que nós mesmos criamos. Ao vê-las como mães, deixamos de enxergá-las como mulheres, cheias de vontades próprias e defeitos. Amalia era solitária e oprimida. Talvez quisesse ter tido uma vida muito mais livre e desimpedida; ou talvez quisesse tão pouco quanto não ser espancada apenas por rir alto. A própria protagonista, incapaz de compreender sua mãe como um todo, não compreende a si mesma, apegada a memórias que ela nem mesmo sabe se são reais. A sua criação em meio à violência tem muita influência na mulher em que se tornou, frígida e solitária.

O livro não poderia ter um título melhor. O amor da filha pela mãe e do marido pela esposa causam incômodo nos personagens e nos leitores. Amalia foi alvo de afetos doentios, e a sua apatia e inocência também eram incômodas. É engraçado como a narradora constrói a figura da mãe, ora a idolatrando, ora a questionando, e no fim percebe que não a conhece ao mesmo tempo em que não há como fugir dela, porque Amalia é ela. A impressão que fica, mesmo após 173 páginas, é que a mulher é um fantasma, sem rosto e forma definidos.

Trechos de Um amor incômodo

“Durante o funeral, fiquei surpresa ao me flagrar pensando que finalmente não era mais obrigada a me preocupar com ela.”

“Ao vê-las e ouvi-las, percebi que estava ficando impaciente. Elas se comportavam diante daquele homem da maneira como meu pai imaginava que as mulheres se comportavam, da maneira como ele imaginava que a própria esposa se comportava assim que ele dava as costas, da maneira como também Amalia talvez tivesse sonhado se comportar durante toda a vida: uma mulher do mundo que se curva sem ser obrigada a pressionar dois dedos no centro do decote, que cruza as pernas sem prestar atenção na saia, que ri vulgarmente, que se cobre de objetos preciosos, que se derrama, de corpo inteiro, em ofertas sexuais contínuas e indiscriminadas, competindo abertamente com os homens na arena das obscenidades.”

“Por outro lado, eu não quis ou não consegui enraizar ninguém em mim. Mais algum tempo e perderei até a possibilidade de ter filhos. Nenhum ser humano jamais se desligaria de mim com a mesma angústia com que me desliguei da minha mãe apenas porque não conseguia me apegar a ela definitivamente. Não haveria nenhum mais ou nenhum menos entre mim e outro ser feito de mim.”

 

Sobre o autor

Brenda Bellani

Deixe um Comentário