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Você nunca mais vai ficar sozinha, de Tati Bernardi

Você nunca mais vai ficar sozinha: a relação doentia de Karina e sua mãe

Karine está finalmente grávida. Enquanto faz uma infinidade de exames para garantir uma gravidez saudável, ela revive toda a relação com a sua mãe desde a infância à fase adulta, sem ordem ou lógica. “Você nunca mais vai ficar sozinha”, de Tati Bernardi, publicado em 2020 pela Companhia das letras, é um mergulho profundo em uma relação tóxica entre mãe e filha, de chantagem emocional, culpa, dependência e doenças psicossomáticas.

Dicotomia doentia

“Às vezes minha mãe consegue ser apenas mãe, e se ela soubesse como isso é bom…”

Karine ora endeusa a mãe, ora a detesta. Ela a ama mais do que tudo no mundo e ao mesmo tempo sabe identificar todo o mal que ela lhe causou – a culpada pelo seu pânico, seu comportamento sexual errático, a sua baixa autoestima e a sua vontade de ter uma filha. Karine ora é tratada como a salvadora, ora a culpada de todas as desgraças na vida da mãe.

Embora desagrade o papel central que ela desempenha em sua vida, Karine não consegue nem mesmo em seu relato pessoal esconder essa influência doentia que a mãe exerce nela. O seu pai, por exemplo, permanece anônimo e ausente. O marido também – ele é apenas o homem com a função única de engravidá-la.

Karine cresceu com a mãe, a avó e tias com manias peculiares, ataques de mal-estar constantes e tendências autodestrutivas. Quando menina, perdeu as contas das vezes nas quais achou que sua mãe havia morrido, até se acostumar com os desfalecimentos. No entanto, o medo avassalador de perdê-la se sobrepõe à necessidade urgente de impor limites – a mãe lia os seus e-mails particulares e se intrometia em todos os seus relacionamentos.

O livro de Tati Bernardi é excelente. Exageros à parte, traduz a relação errática, amorosa, turbulenta e de (MUITOS) erros e acertos da maternidade. Ninguém sabe ser mãe e errar feio é sempre um risco que se corre.

Trechos de Você nunca mais vai ficar sozinha

“Sacanear o outros era um jeito de amar. Ser humilhado, uma maneira de ser amado.”

“Não existe solidão maior do que ser sacaneada pela própria mãe.”

“Eu tenho horror de mulher que despeja no filho a razão da existência. Ou pior, que despeja no filho a culpa por não ter achado uma outra razão para existir.”

“Eu falei: ‘Mãe, você não pode ler meus e-mails. Eu tenho mais de trinta anos de idade. Você não podia ter lido meus diários quando eu era adolescente’. E ela respondeu ‘você não sabe como é difícil ser mãe, você não sabe como é difícil querer saber o que se passa com um filho’. E eu respondi então por que não me pergunta?’. A gente poderia ter conversado tanto.”

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Sobre o autor

Brenda Bellani

Jornalista/tradutora/leitora.

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